UOL NewsUOL News
Nos Trilhos

Nos Trilhos

 

No Eurostar, logo na saída de Waterloo Station, o alto-falante anuncia que, a partir de 14 de novembro, haverá uma nova estação em Saint-Pacras. É em Bloomsbury, o Quartier Latin de Londres. De lambuja, a viagem Paris-Londres ficará 20 minutos mais curta. Será que intelectuais e os ingleses em geral vão se aproximar mais dos franceses? Duvido, No way : a tchurma em Londres continua se espelhando muito mais nos EUA. Começou durante a Segunda Guerra e continua pelo século XXI adentro.

Um colega que me ajudou muito na Faculdade e se aposentou neste ano, um cavalheiro e um erudito, contou-me que na Guerra de Independência dos EUA houve uma reunião em Versalhes, onde Luís XVI assuntou, procurando saber se valia a pena ajudar militarmente os americanos. Parte de seus conselheiros achou que sim: era, indiretamente, a revanche dos franceses sobre a derrota sofrida na Guerra de Sete Anos (1756-1763) que resultou na perda do Canadá para os ingleses.  Mas outros conselheiros acharam que não: para eles, os americanos, protestantes e anglo-saxões, ficariam sempre do lado dos ingleses nos conflitos na Europa e no mundo. A história provou que estes últimos tinham razão.

E o Commonwealth cresce, até para onde não se espera: Moçambique está incluído no guia da Universidade de Londres sobre os países das universidades do Commonwealth. Deve ser um troco na França, que costuma incluir Cabo-Verde entre os países da francofonia

 

No hotel em que fiquei em Bloomsbury (Tavistock Hotel, velhinho simpático, com ambientes de Agatha Christie; o problema são as tomadas; é igual no Ouro Verde, em Copacabana, ou no Everest, em Porto Alegre, onde gosto de ficar: nos hotéis velhinhos simpáticos as tomadas estão atrás dos armários: tem Wi-Fi, mas o notebook tem que ficar com você pendurado na beirada da cama, ligado numa tomada na outra ponta do quarto) – e no trem onde estou agora, lí toda quase toda a imprensa inglesa. 

 

No Eurostar há muitas revistas e jornais de graça. Nos bares e café de Londres, muito mais que em Paris, há bastante jornais de graça. Nos lugares supostamente trendy (na onda), a imprensa tradicional dá de barato que entregar de graça é uma boa estratégia para travar a concorrência dos jornais gratuitos. Não acredito nisso. Sou adepto da doutrina do Le Monde: o leitor tem que pagar o jornal para sentir que ele é coisa sua. Há algum tempo, o Le Monde tinha um princípio que não sei se ainda continua em vigor: a publicidade do jornal nunca podia ultrapassar 50% do seu preço. Ou seja: o leitor tem que pagar ao menos a metade do custo do jornal que está lendo.

  

O Economist, sempre bem escrito, sempre interessante, cobre muito bem a China. No último número há uma reportagem sugestiva: a parte da massa salarial no PIB chinês está caindo firme. Escorregou de 53% em 1998 para 41% em 2005 e continuou caindo em 2006. Nos EUA, onde, como se sabe, o governo não é comunista, a massa salarial representou 56% do PIB em 2005. Conclusão do Economist, o arrôcho salarial está comprometendo a evolução da economia chinesa e isso pode atrapalhar o resto do mundo: está faltando luta de classes no milagre chinês.

P.S. - Estou migrando meu blog no Blogger para o UOL. A ferramenta é diferente: deu para trazer os meus posts, mas não os comentários dos leitores. Durante algum tempo ficarei postando nos dois lugares.


Escrito por Luiz Felipe de Alencastro às 05h24
[   ] [ envie esta mensagem ]



Livro

Livro

 

 

Vim à Londres para o lançamento deste livro sobre o império português, do qual participei. É o resultado de um seminário iniciado em 1998 na John Carter Brown Library, em Providence, R. I. O objetivo da obra é o de atualizar, para os leitores anglo-saxões, a historiagrafia sobre a expansão oceânica portuguesa, de 1400 a 1800.


Escrito por Luiz Felipe de Alencastro às 05h21
[   ] [ envie esta mensagem ]



A Tara da Discriminação

Caravaggio, Medusa, 1598, Galleria degli Uffizi, Florença.

 

Escrevo de supetão depois de ler as três matérias da Folha sobre os jovens entre 16 e 18 anos que hesitam em se tornar eleitores. O TSE lançará campanha para mobilizá-los. Como declarou o presidente do TSE, ministro Marco Aurélio Mello, “...a apatia não conduz a nada. O que nós precisamos é de perseverar e procurar a correção de rumos. E a forma de se corrigir rumos é participando ativamente, fazer uma revolução pelo voto, bem escolhendo aqueles candidatos que devem nos representar nos diversos cargos”.

Belas palavras. Mas nem o ministro, nem a propaganda do TSE, nem os jornalistas da Folha se lembram do outro lado do questão: a Constituição deu o direito facultativo de voto aos jovens entre 16 e 18 anos, mas também aos analfabetos [art.14° § 1, a) e c) da Const.].

Sucede que os últimos dados do IBGE, datando de 2005, mostram um contingente de 14,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais analfabetas no país. É muita gente, gente! Quando se verifica o critério da cor aparece de novo a tara da discriminação racial. Cito o relatório do IBGE “a taxa de analfabetismo de pretos (14,6%) e de pardos (15,6%) continua sendo em 2005 mais de o dobro que a de brancos (7,0%)”.

Ora, desde o início, a propaganda do TSE e da mídia tem procurado incitar os jovens de 16 a 18 anos incompletos a se tornarem eleitores. Mas não há notícia de propaganda similar dirigida aos analfabetos em geral, ou de medidas específicas para facilitar-lhes a obtenção do título de eleitor.  Lembro-me de uma notícia ouvida no final de 1988 ou começo de 1989, antes da primeira presidencial direta, dizendo mais ou menos isso: “ a jovem Adriana Rezek, de 16 anos, filha do ministro Francisco Rezek (então presidente do TSE), foi uma das primeiras a obter seu título de eleitora, etc...”. (a moça se chamava Adriana, mas não estou seguro se tinha 16 ou 17 anos). Lembro também da reflexão que fiz então no Cebrap, ou escrevi alhures: ‘que tal prevenir dona Maria de Tal, empregada doméstica há 40 anos, negra e analfabeta, que ela também pode ser eleitora e festejar a obtenção de seu título eleitoral’?

Na época, aparecia na propaganda do TSE na TV, um jovem surfista dizendo algo do gênero: “ e aí garotão, não vai tirar seu título eleitoral?”

Nada mudou de lá para cá. Fala-se sempre dos jovens (leia-se: jovens de classe média) que podem obter título de eleitor aos 16 anos e nunca dos analfabetos adultos que também têm este mesmo direito. O PT nunca se mexeu para mudar isso. O Movimento Negro, no que lhe concerne, nunca se mobilizou para mudar isso. A UNE nunca deu por isso. A imprensa e a mídia deram pouca ou nenhuma notícia sobre o assunto, e os tribunais eleitorais continuam insensíveis ao tema.

Não há preconceito de classe? Não há preconceito de raça no Brasil? Então tá!

 

              P.S. - Estou migrando meu blog no Blogger para o UOL. A ferramenta é diferente: deu para trazer os meus posts, mas não os comentários dos leitores. Durante algum tempo ficarei postando nos dois lugares.

 


Escrito por Luiz Felipe de Alencastro às 06h57
[   ] [ envie esta mensagem ]



COISAS VISTAS II

COISAS VISTAS II

 

Alinho de maneira aleatória algumas notas escritas durante a viagem pelo Brasil.

 

            A carpete do anexo do aeroporto Santos Dumont, inaugurado há alguns meses, já está rota como um tapete de bordel. As paredes externas da parte recentemente reformada de Congonhas parecem ter mais de cem anos. Não dá para entender a falta de cuidado. 

∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫

Andei bastante no metrô de SP e do Rio. Em geral, me parecem limpos, rápidos e seguros. É verdade que outro dia um passageiro foi assaltado e levou um tiro na saída da estação Trianon-Masp, em SP. Mas ele já estava fora do metrô. Talvez seja esta violência extramuros que torna o metrô brasileiro seguro. Explico-me: como os roubos são quase sempre à mão armada e podem gerar tiroteio (com a polícia, com os seguranças e com eventuais passageiros armados), o risco assumido por qualquer ladrão dentro do metrô é muito elevado. O vulgar batedor de carteira, o pickpocket encontradiço nos metrôs de Paris, Londres e Nova York - cuja maneira de agir baseia-se na na discrição absoluta, segue um método absolutamente incompatível com a estrepitosa violência urbana brasileira (veja-se a crítica de Roberto Ribeiro ao célebre filme Pickpocket (1959), de Robert Bresson). Daí o fato de haver poucos roubos destes – comparando por exemplo com Paris – no metrô de SP e do Rio.

∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫

A TV mostra publicidades do balacobaco. Há um anúncio de um grande banco estrangeiro espalhado pelo Brasil, alegando que um sujeito com cara de palerma, atendendo pelo nome de Beto, “se apaixonou pelo mercado financeiro” depois de utilizar os serviços do dito banco.  Até quando vai passar esta pornografia no horário livre?

               ∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫ 

            Fiquei perplexo com a tarifas extorsivas e despropositadas cobradas no Brasil e, sobretudo, pelas taxas escandalosas do ‘roaming’ de um município para o outro. Hoje no Herald Tribune  há uma matéria mostrando como a União Européia botou pra quebrar e forçou as companhias de celulares daqui a baixarem as tarifas de « roaming »

                                                                                                                               ∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫

Canal Brasil é a melhor coisa que existe na TV brasileira. Sobretudo quando você está num apê frio numa praia no inverno. Vi coisas que gostaria de ter visto quando não morava mais no Brasil, outros filmes de que tinha ouvido falar e outros que nem conhecia. Vi, entre outros, Floradas da Serra,(1954) de Luciano Salce, com Jardel Filho e Cacilda Becker: é ruim, mas é bom. A jovem Cacilda Becker, visivelmente vestida e penteada para parecer com Katherine Hepburn, é de uma beleza estonteante. O filme se passa em Campos de Jordão, filmado como se fosse um resort europeu ou americano. Deve ser por isso que não aparece nenhum negro nos 100 minutos da película: nem mesmo como garçom ou engraxate. Os caras queriam, de qualquer jeito, fazer o Brasil parecer um país de brancos. Nos anos 50 esse tipo de tramóia ainda colava.

P.S. - Estou migrando meu blog no Blogger para o UOL. A ferramenta é diferente: deu para trazer os meus posts, mas não os comentários dos leitores. Durante algum tempo ficarei postando nos dois lugares.


Escrito por Luiz Felipe de Alencastro às 03h36
[   ] [ envie esta mensagem ]



Rússia e Brasil

 

 

 

Rússia e Brasil

 

 

 

Walton Ford, Nila, 1999-2000, Coleção Privada, New York, Cortesia do artista e da Paul Kasmin Gallery

 

 O presidente russo Putin abriu o jogo, deixando claro o esquema para perpetuar-se no poder. Como não pode ser candidatar-se a um terceiro mandato, está planejando trocar de lugar com o primeiro-ministro que acabou de nomear: Viktor Zubkov vira presidente nas presidenciais de março de 2008 e Putin será escolhido como seu primeiro-ministro. Desde que tomou posse, Putin usou o regime semipresidencialista russo – similar ao regime francês, no qual o presidente é eleito pelo voto direto e o governo é exercido por um primeiro-ministro representando a maioria parlamentar -  para assentar sua autocracia.  Os parlamentaristas brasileiros sempre proclamaram que o regime semipresidencialista purgaria todas as mazelas da política brasileira e seria o modêlo institucional ideal para o país. Como Ieltsin nos anos 90, Putin vem demonstrando que o regime semipresidencialista também pode se tornar um avacalhanço. Não dá mais para continuar dizendo por aí que o semipresidencialismo conserta de vez a política brasileira. Escrevi, há quase dez anos, um artigo na mesma linha na Folha de São Paulo  intitulado "O Brasil e a crise política na Rússia". 

P.S. - Estou migrando meu blog no Blogger para o UOL. A ferramenta é diferente: deu para trazer os meus posts, mas não os comentários dos leitores. Durante algum tempo ficarei postando nos dois lugares.

 

 

 

 


Escrito por Luiz Felipe de Alencastro às 00h21
[   ] [ envie esta mensagem ]



Coisas vistas
Truísmo
Chego em casa em Paris, depois de dois meses no Brasil.
Fiz 18 viagens de avião pelo Br, entre as quais uma de Manaus a Porto Alegre, com escala em Guarulhos, na noite do crash do avião da TAM. Dei nove palestras no RS, SE, SP, RJ e MG. Para mim, foi muito bom e muito interessante. A palestra do ciclo ?Mutações? organizado por Adauto Novaes e o Ministério da Cultura está
aqui.
No meio tempo, o casal de colegas com quem eu tinha deixado meu apê em Paris esqueceu uma torneira meio aberta. Teve vazamento na vizinha de baixo, rolo com a proprietário e confusão com o seguro. Encanei de encanador e resolvi outro problema num cano de entrada da água.
Depois fui fazer compras e vi que o Monop aqui do lado e as mercearias vizinhas não vendem mais um produto que, esborrifado, deixava as camisas quase passadas. Nos EUA tem vários troços deste gênero pra vender. Aqui havia dois. Um desapareceu e agora o outro está sumindo. Complô do capitalismo contra os homens autonomos que não sabem passar roupa a ferro? Aliança espúria entre as lavanderias de quarteirão e os grandes fabricantes?
Cortei o cabelo no barbeiro árabe do marché d?Aligre. Ele tem uma filosofia: o cara que senta na cadeira dele é como quem entra num avião: não pode dar mais palpite e se entrega na mão do piloto.
Leio daqui a entrevista que dei na sexta, antes de viajar, para Gabriel Manzano Filho, do
Estadão. Malgrado a competência de Gabriel, minhas respostas, lidas a 12 mil km de distância, parecem agora pouco incisivas. Dizer que a classe média é heterogênea é quase um truísmo. Eu devia ter insistido mais sobre a mudança sociológica que está ocorrendo nos diversos componentes destas camadas sociais e sobre a desordem do sistema federativo e eleitoral. A respeito da nova composição da classe média brasileira, a imprensa (e até o Economist) e o IBGE já assinalaram o essencial. Falta agora um bom sociólogo trabalhar este assuntão: dará um belo livro.
Trouxe muitas anotações do Br. Com mais calma e o escritório só meu que vou ter agora, escreverei algumas nos próximos posts.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 14h22
[   ] [ envie esta mensagem ]



O atraso do censo do IBGE
Residência à beira do rio Negro esperando o recenseador do IBGE

Há tantas coisas pra aprender sobre o Brasil que até o modo de aprender faz a gente aprender coisas.
Veja-se, por exemplo, duas notícias da Folha a respeito do censo populacional organizado pelo IBGE. A
primeira informa que o uso de computadores de mão com GPS - grande novidade do atual censo ? está dando problemas no Norte e no Nordeste. A nova tecnologia trouxe recenseadores mais qualificados que têm menos facilidades para se relacionar com a população do interior. Segundo Maria Wilma Garcia, coordenadora do censo, os novos recenseadores vem do meio urbano e desconhecem as pessoas com quem estão lidando.
"Perdemos os caboclos da região porque eles não sabiam mexer nos computadores. Antes, eles pegavam a pastinha, caíam no mundo e voltavam depois de um mês com tudo pronto. Andavam a pé, a cavalo, de bicicleta, pegavam carona, dormiam nas casas das pessoas e eram conhecidos de todos." É uma frase bonita com um sentido triste. O recenseador ?caboclo? entretinha com os habitantes a proximidade cultural que legitimava a demanda do IBGE, do poder público. Mal treinado, mal instruído pelo Estado ele perde o emprego, é excluído e o recenseamento empaca.
A segunda notícia, vem da reporter Malu Toledo, e descreve outra situação em que os agentes do IBGE não conseguem preencher os dados e atrasam o censo: os moradores de condomínios de alto padrão em São Paulo (como Alphaville), em Teresina e em Maceió, não deixam os recenseadores entrar ou recusam-se a falar com eles (assinante UOL clique
aqui)
É do balacobaco!
O tal do Abadia, megatraficante colombiano, comprou palacetes nestes condomínios com dinheiro vivo ? prática perfeitamente ilegal segundo a
procuradoria federal - e tudo estava nos conformes. Nenhum grupo de proprietários ou administrador de condomínio botou defeito. Mas o funcionário público, no exercício de uma atividade elementar para o bom funcionamento da cidadania e do Estado, é barrado na porteira do condomínio. Durma-se com um capitalismo destes!
A antropóloga Teresa Caldeira, que foi minha colega nos bons tempos do Cebrap, tem um importante livro sobre o
assunto e escreve com propriedade: ?Não é a cidade, por maior e mais diversa que seja, que se deve temer, mas sim a ausência de uma ordem pública e do respeito aos direitos dos cidadãos. Minar essa ordem para construir enclaves privados não pode dar mais do que a ilusão de proteção. A proteção ou é coletiva ou não será?.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 19h19
[   ] [ envie esta mensagem ]



O reacionarismo paulista e o caminho das pedras

Desde os anos 1970, quando se tornou o centro político do país nação (em 1965, a eleição direta de Negrão de Lima ? juscelinista declarado ? para o governo da Guanabara, abalou a ditadura e mostrou que o Rio ainda era a capital política nacional), São Paulo elege o que há de pior e de melhor no Brasil. Jânio, Maluf, Enéas, Clodovil representam a primeira categoria. Ulysses, FHC, Suplicy, e Lula, cuja iniciação política deu-se em São Paulo, aparecem, conforme o gosto do freguês, como o que há de melhor. Num artigo na Folha em 23/10/2005 (assinantes UOL clicar aqui), procurei mostrar que este paradoxo constitui um dos componentes da ?desordem paulista? que tumultua o quadro político nacional.
Dentre as coisas ruins da Paulicéia, existe, ainda e sempre, um tipo de reacionarismo proto-separatista sem paralelos no Brasil.
Assim, um artigo do deputado estadual paulista João Mellão Neto (?Os perigos da incomPeTência?), do DEM, publicado no Estadão em 3/08/2007, critica (com razão) a ausência de Lula junto às famílias das vítimas do Airbus em São Paulo, mas conclui com a seguinte reflexão: ?Nada contra o fato de o presidente se refugiar nos Estados nordestinos. Afinal, é neles que se encontra a grande maioria de seus eleitores, todos eles devidamente subornados pelo Bolsa-Família. Mas, a bem da Nação, a sua passagem deveria ser só de ida. Chegou a hora de dizer: Basta!?
Subornados? BNH, correção monetária, juros altos para os bancos, juros negativos e perdão de dívidas para os usineiros, Proer, tudo que engordou a conta da classe média e de muita gente rica durante décadas desaparece diante do ?suborno? do Bolsa-Família. Ora, como escreveu outro dia
Fernando Canzian no Folhaonline, ?O difamado Bolsa Família é apenas uma fração dos juros pagos a quem tem dinheiro no banco, são 0,4% do PIB contra quase 7%?.
O raciocínio cerebrino do deputado pressupõe que a legitimidade presidencial só existe nas regiões onde Lula obteve maioria eleitoral. Lula venceu na maioria dos Estados do Norte e do Nordeste, mas ganhou também em Brasília, Goiás, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nestes 5 Estados ele obteve uma vantagem de 7.291.000 votos sobre Alckmin no segundo turno. Ou seja, mesmo que todos os brasileiros do Norte e do Nordeste tivessem ficado em casa, ou pertencessem a um outro país, Lula ainda dava de lavada no candidato tucano no segundo turno. Para ser coerente, o deputado do DEM deveria também incluir todos os brasilienses, goianos, capixabas, mineiros e cariocas no seu ?chega pra lá? excludente e preconceituoso. De quebra, poderia agregar ainda, neste mesmo grupo de ?subornados? cujo voto vale menos que o dele e de seus amigos, e que não pertence à "Nação" deles, todos os eleitores da Baixada Santista e da Grande São Paulo, que também deram a maioria de seus votos a Lula.
Falta quanto tempo ainda para a direita brasileira aprender o caminho das pedras da prática democrática?
P.S. -« O documento impressiona não apenas por revelar a amplitude a que chegou o programa [do Bolsa-Família] em um punhado de anos e sua focalização em geral adequada ? uma proeza nada desprezível considerando a extensão do território coberto, o formidável contigente alcançado e o histórico brasileiro de monumentais desvios de verba no assistencialismo tradicional?, [mas impressiona ainda porque] ?80% dos quase R$ 8,8 bilhões desembolsados pelo governo aliviam efetivamente a situação dos 40% mais pobres entre os brasileiros. E, desde o advento do programa, a concentração de renda diminuiu 4% no país?.
Os trechos acima foram extraídos do editorial equilibrado e pertinente do Estadão de 23/08/2007 que comenta estudos do Ministério do Desenvolvimento Social e do Ipea sobre o Bolsa-Família (?O Brasil do Bolsa-Família?)

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 15h26
[   ] [ envie esta mensagem ]



Fidel, o Itamaraty e os boxeadores cubanos
Guillermo Rigondeaux, arquivo Folha de São Paulo

O Itamaraty e o governo brasileiro decidiram deportar os dois boxeadores cubanos. Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara desertaram do Pan no Rio. Segundo um delegado da PF, eles queriam voltar para casa e recusaram o estatuto de refugiados políticos. Num texto publicado em Havana, Fidel anunciou que não punirá Rigondeaux e Lara.
Nos países democráticos há um princípio jurídico básico na matéria. Nenhum suspeito, e nem mesmo um criminoso julgado à revelia no seu país de origem, pode ser extraditado para este país, se a pena ali aplicada for maior que a pena prevista no país ao qual foi solicitada a extradição. Na União Européia, onde não há pena de morte, o problema já ocorreu várias vezes com estados dos EUA que admitem a pena capital. No caso, a UE só admite a extradição de foragidos dos EUA quando os promotores americanos comprometem-se a não requerer a pena máxima.
É certo -, como bem observam João Batista e o Moço da Bodega em comentário à primeira versão mal redigida deste post -, que os cubanos foram deportados porque estavam no Brasil sem documentos, e não extraditados, prática reservada a criminosos. Ainda assim, considerando que o regime cubano costuma cair de pau nos que tentam emigrar ilegalmente e nas suas famílias, a deportação representava um risco para Rigondeaux e Lara. Pra que essa pressa toda para mandar os caras embora? Vivi no exterior no meio de gente sem documentos na época da ditadura brasileira. Quando estão neste sufoco as pessoas se desesperam, perdem o pé. O estatuto de refugiado tem vários constrangimentos. Antes de entrar numa dessas, é preciso refletir, sem pressões de prazos e da polícia local.
No caso de Rigondeaux e Lara, por analogia, deveria ser observado o princípio jurídico explicitado acima a respeito da extradição.
De fato, nos aeroportos de nosso país desembarcam regularmente brasileiros deportados dos EUA e da UE por delito de ausência de visto ou de passaporte. Aqui chegados, eles pegam a mala e vão para casa: nenhuma lei brasileira pune a emigração ilegal se não houver falsificação de documentos. Em Cuba não é assim.
O Ministério Público Federal havia pedido a abertura de inquérito e queria ouvir os dois atletas antes de autorizar a deportação. O mínimo que se espera agora é que as autoridades brasileiras tenham obtido o engajamento formal do governo cubano de que não haverá perseguição aos atletas e à suas famílias. E que a embaixada brasileira em Havana siga o assunto de perto.
(Post modificado em 6/08).

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 15h08
[   ] [ envie esta mensagem ]



Desordem no ar
A série de desastres, de apagões nos aeroportos, de descontroles dos controladores de vôo, de afrontas das companhias de aviação e de declarações estapafúrdias dos membros do governo revela algo mais que o caos aéreo.
Falastrão incorrigível, o ministro Mantega afirma que a confusão nos aeroportos é sinal de progresso. Sobre o mesmo assunto, a ministra Marta Suplicy fez uma piada grotesca pela qual se desculpou. Porém, depois do crash de Congonhas, quando foi interrogada, disse que nada tinha a declarar. Caramba! Nada a declarar depois de um drama destas dimensões?! O ministro Waldyr Pires, homem decente que já deveria ter se retirado do ministério se seguisse seu antigo bom senso político, vem à TV eximir-se das responsabilidades inerentes à sua pasta. Marco Aurélio Garcia fez um gesto obsceno na privacidade de seu escritório. A carta de um leitor da Folha de S. Paulo, publicada hoje, pretende que se tratou de um ?desabafo? contra acusações indevidas ao governo. Tudo bem. Mas as justificações dadas em seguida por Marco Aurélio denotam, no mínimo, falta de juízo político. No mesmo pique, ninguém no governo se tocou sobre o fato de que não era oportuno condecorar agora dois altos dirigentes da ANAC. Enfim, Lula esperou sarar do terçolho para dar satisfações à nação e apresentar suas condolências às famílias que choravam seus mortos há mais de três dias.
Separadamente, cada um destes fatos pode ser atribuído à falhas de assessoria. Postos lado a lado, eles revelam a realidade mais patética e mais grave de um governo que parece descolado das preocupações do país e dos sentimentos da população.
Como pequena contribuição ao inventário da baderna no ar, incluo a foto acima, retratando um incidente ocorrido num táxi aéreo em que viajei na semana passada na Amazônia. O bimotor ia levantando vôo com a tampa de um dos 2 tanques de querosene aberta (cf. o pequeno ponto preto sobre a asa). Voltou da ponta da pista para fechar o tanque depois do alerta de um de meus companheiros de viagem.
Noutro registro, cabe assinalar que o desgoverno aéreo junta-se às pauleiras envolvendo atletas brasileiros no Pan e à grossura de uma parte do público carioca para comprometer as chances de o Brasil organizar as próximas
Olimpíadas e a Copa do Mundo.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 10h53
[   ] [ envie esta mensagem ]



Paredes de Manaus
Num restaurante à beira do rio Solimões, pouco abaixo de Manaus, os toaletes estão indicados assim, no estilo pós-indígena, neo-caboclo.
Confirma-se aqui na Amazônia algo que eu já tinha notado noutras partes do país: o barulho é a maior praga do Brasil! Morei num prédio de condomínio em São Paulo onde havia uma martelagem contínua para consertar vazamentos de banheiros, canos da área de serviço, assoalhos com cupim, fiação defeituosa, como se o prédio tivesse de ser refeito todos os trimestres. Uma equipe permanente de encanadores, eletricistas, carpinteiros, tirava o seu ganha-pão das carcaças perfuradas dos três prédios do condomínio.

É sabido que os paulistanos buzinam nos túneis, os cariocas estralam os ouvidos de quem anda por Copacabana, os baianos infernizam as praias de Salvador com uma cacafonia depois cobrada por alto preço pelo dono do boteco, o Ver-o-Peso em Belém mistura todas as rádios e todos dos canais de TV na contigüidade escancarada de seus 150 bares e restaurantes.
Mas o barulho mais sinistro de todos, nem assim tão estridente, ouvi hoje, num barco no Solimões: o retinir incessante das motosserras nas margens do rio.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 19h56
[   ] [ envie esta mensagem ]



Cosméticos de fundo de loja
Os economistas brasileiros já sabem: quando há aumento da renda, o consumo popular de produtos de higiene e cosméticos sobe na hora. Aliás, nunca li nenhum estudo sobre a forte atração dos brasileiros por estes produtos. Suspeito que tenha a ver com o culto do corpo e o eventual desconforto de cada um com o seu jeito, com o seu próprio fenótipo. A coisa vem desde o século XIX, como mostrei um pouco no volume 2 da História da Vida Privada no Brasil. De todo modo, quando há um pouco mais de dinheiro na praça, as multinacionais entram pesado, inundando as prateleiras das lojas com ?gosméticos? (como dizia uma garotinha minha conhecida) de nome pseudo-sofisticado. Na outra ponta, desaparecem os produtos tradicionais. Sempre que vinha ao Brasil, comprava sabão Aristolino, um must da moçada das praias nos anos 60 e 70. Agora, já desistí. Sumiram com o Aristolino, que era sabão e shampú, e com muitos outros ?gosméticos?.
Em Belém, onde estou agora, a invasão de marcas estrangeiras é meio caricatural. Na frente das lojas e das farmácias, vêm estas marcas todas. No fundo, aparecem as marcas regionais, cheias de fragrâncias amazônicas. Cheiro do Pará (comprei este, é bem bom), Flor de Açaí, Pau Rosa, Pau d?Angola, Manteiga de Karité (produto de origem africana), Priprioca, e por aí vai. O "gosmético" pasteurizado, ácido e banal fica na frente. O suave, o sensual, o quente, fica no fundo da loja e é bem mais barato.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 07h09
[   ] [ envie esta mensagem ]



Civilização x Selvageria
No Globo de hoje, Miguel Conde dá notícias da Flip e menciona minha crítica ao comentário do governador Sérgio Cabral sobre a ação da polícia no Complexo do Alemão.
A coisa é assim: minha
participação em Paraty foi para comentar ontem, domingo, a novela ?No coração das trevas? (1902), em homenagem aos 150 do nascimento de Joseph Conrad. Tentei mostrar que Conrad, escrevendo a respeito da pilhagem do Congo pelo rei Leopoldo II da Bélgica, ilustrava o esgotamento da idéia de ?civilização? que até então servira de justificação ideológica à expansão colonial européia.
No final, citei a entrevista de Sérgio Cabral, em O Globo, do dia 1 de julho, sobre a guerra no Complexo do Alemão :?ninguém agüenta mais isso, temos uma bifurcação que eu enxergo clara: ou é o caminho civilizatório ou é o da selvageria?. Penso que se trata de um vocabulário de outros tempos, cunhado no contexto colonial para sujeitar nativos ameríndios, africanos ou asiáticos. Numa democracia, numa república, onde os cidadãos elegem seus representantes, nenhum governador, nenhum dirigente político pode se arvorar em condutor de qualquer ?caminho civilizatório?.

P.S. ? O laudo da OAB, divulgado dia 12/07, confirma a sinistra realidade: algumas das 19 pessoas mortas pela polícia no Complexo do Alemão foram executadas a sangue-frio.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 13h13
[   ] [ envie esta mensagem ]



Um dos grandes escritores de hoje nos dias de hoje

Blogueiro itinerante fica meio paradão. Ainda mais com a pasmaceira do internet aqui em Paraty, onde estou agora.
Ontem de manhã, esperando no Galeão as malas do vôo que me trouxe de Paris, reconheci J.M. Coetzee, vindo no mesmo avião na ponta da mesma esteira. Como a coisa estava demorando, puxei papo com ele. Tietagem às 5 da manhã, acompanhada de uma oferta de ajuda no solo brasileiro, não é assim tão grave e ele conversou à vontade. Vinha da região de Toulouse, no Sul da França. Quando eu disse que era professor em Paris, ficou muito interessado em saber as reações dos estudantes e dos professores sobre as propostas de reforma universitária de Sarkozy. Pareceu-me bastante informado sobre este e outros assuntos da França, Argentina, Austrália (onde mora). Contei pra ele que há uns dias, no final de uma correção de provas de fim de ano universitário, disse para os 3 monitores que trabalham comigo que estava vindo para a Flip, Paraty, que Nadine Gordimer e ele estariam aqui, etc. Aí, um dos monitores, um carinha jovem, sacou do bolso um livro dele, Coetzee. Ele deu um sorriso feliz, contentão, ali no meio do giro das malas. Hoje, às 5 da matina, em Paraty, sem sono por causa do jet-lag, vim vaguear no salão da pousada e dei de cara com ele de novo: estamos hospedados no mesmo lugar e ele também estava atrás do internet. Conversamos um pouco. Mas daqui em diante recolho-me à minha insignificância e dou apenas um olá de longe: o homem me parece já estar meio farto de assédio e entrevistas: é duro ser prêmio Nobel e um dos grandes escritores de hoje nos dias de hoje.


Escrito por userID: 996844918102firstName: às 17h52
[   ] [ envie esta mensagem ]



O Socialismo vem de bicicleta?
Dois artigos interessantes, um no Le Monde, outro no New York Times, apontam novas configurações da esquerda na França e nos EUA.
Nas presidenciais francesas, a maioria dos jovens votou em Ségolène Royal. Se, por hipótese, os eleitores maiores de 65 anos não votassem, ela teria sido eleita. Além do mais, houve confirmação do fenômeno constatado em Paris nos últimos anos: as grandes cidades passaram a votar nos candidatos de esquerda. Bordeaux, Lyon, Caen, Toulouse e Strasbourg, correspondem a este perfil. Há uma expressão ?
bourgeois bohème (?bôbô?) ? cunhada pelo jornalista americano David Brooks, caracterizando o modo de vida e a categoria de eleitores de esquerda formada por profissionais bem remunerados, intelectualizados, adeptos de culturas alternativas e morando nos velhos quarteirões reabilitados das grandes cidades. Gente mais aberta à cultura dos imigrantes, à mistura social e à vizinhança de artesãos, mercearias e botequins. Paris inaugurou a tendência do sufrágio "bôbô" com a eleição à prefeitura do socialista Bertrand Delanoë, gay assumido, em 2001. A última iniciativa meio ?bôbô? de Delanoë será inaugurada dia 15. Mais de 10.000 bicicletas distribuídas em 750 estacionamentos espalhados pela cidade poderão ser utilizadas quase de graça pelos parisienses.
Nos EUA, uma sondagem recente mostra uma repolitização e uma virada à esquerda dos jovens entre 18 e 29 anos. Reagan (1984) e Bush (1988) foram eleitos com a maioria do voto dos jovens que, atualmente, puxam o carro para ir votar nos democratas. Hillary Clinton e, sobretudo, Barack Obama são os candidatos preferidos pelos jovens eleitores.
Lenine dizia que o socialismo compunha-se dos soviets e da eletricidade. O socialismo urbano do século XXI será a soma do notebook e das bicicletas? Não é assim tão simples. A sondagem do NYT, bastante completa, mostra opções políticas e sociais precisas que levam os eleitores jovens americanos mais para a esquerda. Na França, as coisas estão mais fluidas e tornam complexo o debate ideológico e partidário que se impõe a um Partido Socialista bestificado por uma série de derrotas eleitorais.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 03h07
[   ] [ envie esta mensagem ]



Sem saber porquê

Muita coisa para comentar, dentro e fora do Brasil. Mas é difícil deixar de falar de novo da guerra no Complexo do Alemão, depois da foto de Tasso Marcelo, da Agência Estado, publicada na quarta-feira no portal UOL. Mesmo mal editada, ela trouxe à memória a célebre fotografia de Sam Nzima, no dia 16 de junho de 1976, durante o massacre provocado pelo regime de apartheid sul-africano no gueto de Soweto, subúrbio de Johannesburg. Claro que não há apartheid no Brasil, claro que o governo Lula e o governo de Sérgio Cabral, não tem nada em comum com o filo-nazista Vorster, primeiro-ministro sul-africano em 1976.
Mas as duas fotos transmitem o mesmo desespero de gente que tem muito em comum. Gente do Atlântico Negro, que vive em favelas, que tem seus direitos desrespeitados, que leva tiro da polícia sem saber porquê.
O menino da foto de Sam Nzima tinha 12 anos e se chamava Hector Pieterson. Hoje em Soweto há um memorial com o seu nome, homenageando as duas centenas de pessoas mortas em junho de 1976.
Como se chamava a criança da foto do Alemão? Que idade tinha? Será o menino de 13 anos, um dos três adolescentes incluídos nos 19 mortos da quarta-feira,
coletivamente catalogados pela polícia e por uma parte da imprensa como ?bandidos??

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 01h22
[   ] [ envie esta mensagem ]



Os confins do capitalismo
Trabalhadores cativados numa olaria chinesa, foto Agence France-Presse ? Getty Images no New York Times de 16/06

Há dias que eu queria chamar a atenção para três notícias recentes sobre os desdobramentos da globalização. Em primeiro lugar, o avanço da financiarização do capital através da atividade crescente dos fundos de investimento não cotados na Bolsa, ditos de private equity. Segundo Eric Le Boucher, um dos colunistas econômicos do Le Monde, no ano passado as Bolsas européias registraram a entrada de 716 empresas com um capital total de 85 bilhões de euros. No mesmo ano, os fundos de investimento de private equity investiram 71 bilhões de ? em 7.500 empresas européias. Debates de especialistas na TV chamaram a atenção para o caráter especulativo destes investimentos, a opacidade que cobre suas atividades e o risco representado por mais esta etapa da desregulamentação capitalista. Apesar disso, Martin Wolf, um dos melhores comentadores econômicos da atualidade, faz um ponderado elogio desta nova fase de predominância do capital financeiro (a primeira foi na virada do século XIX).
Em segundo lugar, vem a pedreira do capitalismo chinês, cada vez mais caracterizado como um sistema truculento de exploração de mão-de-obra
semi-servil. Assim, como escreveu um cronista do New York Times, a China aparece como a última grande ditadura capitalista do mundo.
Robert Fogel, o prêmio Nobel de Economia que é, também e sobretudo, um brilhante historiador econômico, escreveu um paper Capitalism and Democracy in 2040 (o texto completo aqui é pago, mas aqui está resumido), muito otimista sobre a China. Segundo ele, em 2040, o PIB da China será de 123 bi $, ou seja, 40% do PIB mundial, e perto de 3 vezes do PIB mundial de 2000. Àquela altura, o mercado chinês será maior que os mercados combinados dos EUA, da UEuropéia, da Índia e do Japão. Se for verdade resta acrescentar: Karálio! Olha o monstro capitalista que vem por aí! Fogel pensa que não vai haver quebradeira de bancos chineses, nem problemas políticos no país. Tudo isso por causa dos ganhos de produtividade acumulados com a passagem da população rural para as cidades e, principalmente, com os resultados dos investimentos maciços na educação (a grande vantagem da China sobre a India). Ele acha que tudo vai dar certo no meio tempo, porque a China tem boa experiência na cooptação das elites (Os jesuítas e dominicanos portugueses ? como frei Gaspar da Cruz - idos à China nos séculos XVI e XVII, também se embasbacaram com a administração do mandarinato chinês, inaugurando assim a sinofilia ocidental, que ganhou a esquerda nos anos 1950-1970 e agora tem tantos adeptos na direita).
No entanto, faço minhas as restrições levantadas ao paper de Fogel pelo professor Tyler Cowen, economista reputado e editor de um blog bastante original: ?Repete aqui comigo: a China no século XX teve duas grandes Revoluções, fases de fome generalizada, a Revolução Cultural e, alegadamente, o ditador mais tirânico de todos... E agora eles vão passar dos farrapos à riqueza sem ao menos um arroto nesta evolução econômica? Eu não penso que isso possa ser dito assim!?
Neste ínterim, na maioria dos países desenvolvidos, a globalização tem acentuado as desigualdades de renda, não somente em detrimento dos trabalhadores menos qualificados, mas também em prejuízo da classe média, como sugere um estudo recente da OCDE. Sim senhor! A classe média também se ferra: é só ver o comentário do Economist.
Em terceiro lugar, queria falar de uma noticiazinha que tem tudo a ver conosco. Cada vez mais está em uso a etiqueta RFID (Radio Frequency Identification). Enfiada em qualquer canto de uma mercadoria, ela ajuda as grandes marcas a combater a pirataria de suas grifes. Algumas boates na moda já tem um enfermeira na entrada que insere, sob a pele dos clientes que desejarem, a RFID. Aí, o cara paga suas bebidas, entra nas zonas reservadas, etc., sem ter que tirar a carteira toda hora. No México, já se achou outra utilidade para a RFID: enfiá-la na pele de crianças e adultos que podem ser vítimas de seqüestro. Com este xavecozinho fica mais fácil saber onde estão sendo seqüestrados.
Se alguém ler isto aqui e abrir uma firma do ramo no Brasil, eu quero uma comissão, hein!

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 03h48
[   ] [ envie esta mensagem ]



52 motivos para falar mal do Brasil
A foto de Michel Filho saiu no GloboOnline de hoje, seguida da descrição da cena. Mães e crianças fogem na saída de uma escola do Morro da Fazendinha (RJ), em meio a um tiroteio entre a polícia e os traficantes. Crianças e mães, em maioria negras, arriscando a vida no seu dia a dia. A notícia diz ainda que na zona vizinha do Complexo do Alemão a batalha já dura 49 dias. Quarenta e nove dias. Mortos, famílias aterrorizadas, meninada fatalista.
Entrementes, a
harpista russa Anna Verkholant, vinda ao Rio para participar no II Festival de Harpas, foi assaltada na frente do Hotel Glória, onde estava hospedada. Houve comoção por atacado e a granel no establishment carioca. Alfredo Lopes, presidente da Associação da Indústria Hoteleira foi direto ao ponto que lhe interessa: "Isso foi péssimo. O turista é facilmente identificável e vira uma presa fácil. A polícia não consegue garantir a segurança perto dos hotéis ou de áreas turísticas porque simplesmente não tem efetivo". No que lhe concerne, o diretor do Festival, Sérgio da Costa e Silva, afirmou que a organização do evento orientara os músicos a só deixarem o hotel acompanhados pela produção e acrescentou: "Foi uma fatalidade... Temos que reverter o impacto negativo que esse fato pode ter em outros músicos que desejarem tocar no Brasil".
Na mesma altura, criticando os brasileiros que
falavam mal do Brasil, Lula declarou: "Nós é que temos que cuidar da nossa imagem, nós é que temos que cuidar daquilo que nós queremos preservar e nós precisamos cuidar da imagem que nós queremos ter aqui e lá fora."
No Morro da Fazendinha e no Complexo do Alemão, a polícia, o Estado, a cidadania, ?simplesmente não tem efetivo?. Os brasileiros que ali ?desejarem tocar? suas vidas, sofrem uma contínua ?fatalidade?.
Uma foto destas interpela a identidade nacional. E dá vontade de falar incansávelmente mal do Brasil. Dentro e fora do país. Amanhã, a batalha do Complexo do Alemão entra no seu qüinquagésimo dia. Depois de amanhã, estará no qüinquagésimo primeiro. Na manhã seguinte completará o qüinquagésimo segundo dia...

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 17h11
[   ] [ envie esta mensagem ]



O "caso Lamarca" e o editorial da Folha
Lido aqui de manhã cedo, quando no Brasil ainda é alta madrugada, o editorial de hoje da Folha, ?O caso Lamarca?, me deixa perplexo. Os argumentos avançados no texto, contrários à decisão de promover Lamarca a coronel e indenizar sua família, parecem coerentes. Mas em nenhum momento fazem referência à fundamentação jurídica seguida pela Comissão de Anistia.
Noutra página do jornal, vem resumido o histórico da decisão. ?O primeiro reconhecimento da responsabilidade do Estado pela morte de Carlos Lamarca foi em 1996, quando a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça determinou o pagamento de indenização à família.A decisão foi inovadora, já que a lei vigente limitava o pagamento às famílias dos mortos em dependência policial. Morto em campo aberto, entendeu-se que Lamarca já estava sob o cerco de agentes do Estado, sem condição de reagir. Em 2004, a lei foi alterada e as possibilidades de indenização, ampliadas. Anteontem, a Comissão de Anistia determinou o pagamento de pensão de R$ 12.152,61 à viúva. Os crimes ou a deserção do Exército não entraram em discussão porque, em 1979, o país aprovou a Lei da Anistia, que perdoou os crimes cometidos durante o regime militar.?
O julgamento dá lugar a controvérsias. Porém, o editorial da Folha enviesa o debate e termina com uma conclusão bizarra: ?Por tratar-se de um prêmio à deserção, ademais, a equiparação de seus vencimentos ao de um general afronta os princípios de disciplina e subordinação, pilares das Forças Armadas?.

Faltou serenidade e sobrou ambigüidade. O editorial desconsidera o fato de que o caso estava praticamente julgado desde 1996, e que o crime de deserção fora apagado, anistiado, pela Lei de 1979. Não há, em espécie, nenhum ?prêmio à deserção? ou qualquer ?afronta? à disciplina militar. Mesmo porque os "pilares" das Forças Armadas, da CBF, do ensino escolar e do cotidiano brasileiro são o respeito ao Estado de Direito e à Constituição dele procedente. Quem não estiver de acordo deve recorrer aos tribunais.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 06h49
[   ] [ envie esta mensagem ]



Coisas do Balacobaco
O Profeta Jonas despejado pela baleia, Anônimo, ícone do século XX, Holy Transfiguration Monastery Brookline, MA, EUA
Esta é uma nova seção deste blog. Sob inspiração do profeta Jonas, que viajou três dias e três noites dentro da barriga de uma baleia (um passeio do balacobaco!), e em homenagem ao crítico de arte Rodrigo Naves. Aqui vou comentar coisas sem sentido pra uns, com sentido pra outros, mesmo que não façam sentido em geral.
A primeira delas, origem da idéia de abrir a seção, descobri agora, preparando o material sobre o livro Heart of Darkness (No Coração das Trevas), de Joseph Conrad, que irei comentar no dia 8 de julho na
Festa Literária Internacional - Flip, em Paraty. Em 1889, Conrad, funcionário da companhia belga Société Anonyme pour le Commerce du Haut-Congo se dirige para o Congo, onde ele observará fatos e pessoas que aparecem na trama de Heart of Darkness, publicado dez anos mais tarde (1899-1902). O navio francês no qual ele embarca em Bordeaux, no litoral atlântico da França, para chegar até Matadi (porto fluvial na margem esquerda do rio Congo, hoje situado no Congo Kinshasa, na fronteira com Angola, minha terra), chamava-se Ville de Maceió. Conrad foi para o Congo, de onde tirou Heart of Darkness, embarcado no vapor Maceió! Taí algo do balacobaco.
P.S. Do balacobaco é também a proposta do ministro da Educação da Polônia, Roman Giertych, solene energúmeno, extremista católico, que quer retirar as obras de Conrad, Witold Gombrowicz, Goethe e Kafka do ensino escolar polonês. Tudo isso para aumentar a carolice inculcada nos jovens com escritores como João Paulo II ?e outros autores desconhecidos que darão só uma resposta, a resposta correta deles, para todos os dilemas...?. Palavras do energúmeno, segundo o The Times.
Quem estiver trancado no trânsito, num aeroporto ou num barco subindo o rio Madeira com fazendeiros armados para atirar nos natives sem-terra, e tiver Wi-Fi, pode ouvir Heart of Darkness lido pelo ator inglês Toby Stephens, com o autêntico sotaque british que Conrad nunca conseguiu capturar. Se quiser também pode ler o livro inteiro.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 12h33
[   ] [ envie esta mensagem ]



Paredes de Paris

Vi a dica em Manhattan, de Woody Allen, e passei ao ato em N.Y., e sobretudo em Paris desde a época do filme, 1979 : é legal olhar para a parte de cima dos prédios, para os 3°, 4°, 5° andares que a gente nunca observa quando anda na rua. Este prédio na praça da Bastilha, bem na frente do ponto do ônibus que tomo todo dia para ir à Universidade, tem uma marca única: um furo de bala feito nos combates do 14 de julho de 1789 (do lado direito da foto). Pouca gente saca este buraquinho revolucionário. Provávelmente, um tiro de um soldado monarquista contra um insurreto tocaiado no prédio (na pedra está gravado: "souvenir 14 juillet 1789", a grafia dos números leva jeito de ser do começo do século XIX).
Acho que Revolução pra valer na época moderna, só teve três: a Revolução Americana (1776), a Francesa (aqui da foto, em 1789) e a do Haití (1791). Todas as outras, inclusive as das independências latino-americanas ? conduzidas por Bolívar, San Martin, Tiradentes ou D. Pedro I (conforme o gosto) -, pegaram carona nas duas primeiras. A do Haití também pegou, mas virou o jogo de outro jeito.
Volto ao assunto mais adiante, quando começar o oba-oba em torno dos festejos dos 200 anos da chegada da Corte no Rio de Janeiro.
P.S. ? Em resposta aos comentários de Macfa e Ricardo, lembro que me referi aqui à periodização utilizada na França e em alguns outros países: a época moderna acaba com estas Revoluções que liquidam o Antigo Regime. O período que vem em seguida, dominado pelas forças em gestação no período anterior: capitalismo, burguesia e Estado-nação, é o período da história contemporânea: as Revoluções de 1848, a do México, a Russa, a Chinesa e a Cubana são revoluções da época contemporânea. é outro papo. Concordo que esta divisão pode ser questionada no Brasil e nas Américas e não tem nada a ver noutras partes do mundo.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 11h01
[   ] [ envie esta mensagem ]



Um bom trabalho mal comentado

Volto à reportagem da BBC sobre o estudo do geneticista Sérgio Danilo Pena, da UFMG, a respeito da ancestralidade africana dos brasileiros. No Cebrap, onde trabalhei 13 anos, a transdisciplinaridade era questão de sobrevivência. Tive a sorte de contar com a ajuda de um geneticista, Marco A. Zago, da USP, na seção " a unificação microbiana do mundo", que trata da pouca resistência imunológica dos índios frente aos africanos e europeus, no cap. 4 meu livro O Trato dos Viventes.
Meu post comentava a notícia d
a BBC, a mais respeitada empresa de mídia do mundo. Assinalei aqui as matérias muito interessantes que a BBC fez ultimamente sobre o tráfico negreiro em geral e a situação do clero negro no Brasil em particular. Não obstante, na notícia sobre a ancestralidade africana aparecem, do jeitinho que citei ?, é só ler o link -, informações desastradas sobre o tráfico negreiro. Tentei em seguida, em vão, acessar o estudo original de Pena. Parece que o texto ainda não foi publicado. Mas, no material da Fapesp, pude ouvir seus comentários (bloco 3 do programa de rádio de 05/05/2007) e, alertado pelo comentário de Milton Ohata, ler mais detalhes sobre sua pesquisa (n° 134, de abril 2007, da Revista Pesquisa Fapesp). Assim, há uma pesquisa paralela, ainda não publicada, com negros do Rio e do RS, conduzida pela equipe da geneticista Maria Cátira. De seu lado, Pena e Flávia Parra também analisaram dados de 173 homens brancos, negros e pardos no interior de MG. Em nenhum lugar Pena aparece dizendo que a cidade de São Paulo (onde os estrangeiros formavam 1/3 da população nos anos 1920 e 1930) é representativa da população brasileira, ou que não há estatísticas sobre o tráfico de africanos entre 1830 e 1850. Fica assim preservada a integridade científica de Sérgio Danilo Pena e a seriedade de sua pesquisa.
O leitor João Paulo Rodrigues atribui às jornalistas da BBC os disparates sobre o tráfico negreiro misturados à reportagem sobre o estudo de Pena. Se tiver sido este o caso, Pena deveria ter ido pra cima delas e desautorizado a confusão. Algumas das afirmações ali contidas são propriamente inaceitáveis porque contrariam fatos bem estabelecidos e -, sobretudo -, desestimulam novas pesquisas e os novos pesquisadores (cf. 2° e 4° do
post anterior). Se depois de 200 anos de estudos por gerações de especialistas, tudo ainda está ?nebuloso?, faltam carradas de cifras e, ainda por cima, Rui Barbosa botou fogo nos documentos, por que um jovem pesquisador iria querer trabalhar sobre o assunto?
Aliás, por que a BBC Brasil não corrigiu logo os erros flagrantes da reportagem difundida ?com um bocado de alarde??

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 07h02
[   ] [ envie esta mensagem ]



Como virar ministro do STF andando nos saguões dos aeroportos
A matéria abaixo saiu no sítio do Estadão de domingo, dia 3. Trata-se de um trecho da resenha do jornalista Gabriel Manzano Filho sobre o livro Em Calendário do Poder, em que Frei Betto conta sua experiência como conselheiro de Lula no Planalto.
"Procura-se um negro para o STF"
"Numa breve anotação, em 6 de março de 2003, Frei Betto informa os critérios com que o governo monta o Supremo Tribunal Federal. ?Marcio Thomaz Bastos indagou se conheço um negro com perfil para ocupar vaga no STF. Lula pretende nomear um afrodescendente para a Suprema Corte do País. Lembrei-me de Joaquim Barbosa. O ministro ficou de convocá-lo para uma entrevista.
Joaquim Barbosa foi empossado no STF dia 8 de maio seguinte. Frei Betto o conhecera casualmente em um aeroporto, meses antes."
xxx
Ora, o ministro Joaquim Barbosa é um jurista respeitável e respeitado. Sabatinado no Senado, como manda a Constituição, seu nome foi aprovado por unanimidade pelos senadores. Seu currículo é sólido. Seguiu uma carreira destacada no Ministério Público Federal e obteve o devido reconhecimento dentro e fora do Brasil: foi professor convidado nas Faculdades de Direito da Universidade de Columbia (New York) e da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Sua análise meditada sobre o sistema de cotas, mereceria ser melhor conhecida. Talvez ajudasse a dissipar a histeria que envolve o assunto atualmente.
Sua formação internacional e sua especialização doutoral se destacam nesta e nas
gerações passadas de ministros do Supremo Tribunal Federal. De fato, ele fez mestrado e doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de Paris II, que se situa entre as 5 primeiras da Europa. Sua tese tem por objeto, justamente, as relações do STF com o sistema político brasileiro. Coisa bastante rara na França (sei do que estou falando: minha tese nunca foi publicada aqui), seu doutorado foi publicado por uma editora francesa especializada em obras jurídicas. No prefácio deste livro -, que tenho aqui em mãos no meu escritório na Faculdade -, La Cour suprême dans le système politique brésilien, seu diretor de tese, o professor Claude Goyard, escreve: ?É uma sorte para as Faculdades de Direito Francesas e para a Universidade de Paris Panthéon-Assas (Paris II) ter suscitado [este] pesquisador de talento...?
Não li o livro de Frei Betto. Ele tem motivos para criticar os governos Lula e até concordo com parte destes motivos. Mas, do jeito que está redigida, a notícia passa a idéia que Joaquim Barbosa é apenas um negro engravatado, de pasta de advogado na mão, que um dia teve a sorte de cruzar Frei Betto no saguão de um aeroporto, assim, casualmente.
Casualmente, o texto achincalha um homem de bem e um jurista importante que honra o STF e o Brasil.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 06h12
[   ] [ envie esta mensagem ]



Um bom trabalho mal feito

Saiu em vários sites e jornais, com fotos de negros brasileiros famosos, um estudo organizado pela BBC e o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, sobre a ascendência africana de nosso povo. Comento afirmações equivocadas que podem comprometer as conclusões do estudo.
1° - ?Apesar de ter sido feito em um grupo negros em São Paulo, o estudo tem uma representatividade nacional porque, com as migrações internas, durante e após a escravidão, a cidade se tornou, de certa forma, um caldeirão genético do Brasil?
- Não é bem assim. O Rio de Janeiro foi, a partir de 1700, com o início da exploração do ouro, o verdadeiro pólo de atração do tráfico negreiro no Atlântico. O Rio é, aliás, o maior porto negreiro das Américas. No Rio viviam, em 1849, 266.000 habitantes dos quais 110.000 (41%) eram escravos, formando a maior concentração urbana de cativos das Américas. Depois, a cidade Rio foi também o grande centro do tráfico interno e de migrantes livres do Brasil inteiro. Ou bem se fazia uma amostragem pelo país, ou bem se escolhia o Rio, e não São Paulo. De Bissau e da Senegâmbia em geral, vieram dezenas de milhares de escravos para o Brasil, a maior parte foi dirigida para o Maranhão e o Pará. A notícia sobre o estudo nem dá por isso.
2°- ?Segundo o estudo, a origem dos escravos levados para o Brasil sempre foi um assunto nebuloso, sem documentação completa. Para evitar pedidos de indenização, documentos históricos sobre a escravidão foram queimados após a abolição, em 1888?.
- A afirmação revalida o argumento dos preguiçosos: não dá para estudar direito a escravidão porque Rui Barbosa destruiu os documentos. Já se demonstrou que os documentos queimados foram poucos. Além do mais, a administração pública brasileira não tem a nada a ver com o KGB ou a Gestapo: se os funcionários recebessem ordem para destruir tudo pegariam o serviço devagar e sobraria muita coisa. Sobretudo, os documentos sobre a escravidão estão entranhados em todos os papéis escritos ou impressos do Brasil. É tão difícil destruí-los quanto eliminar os papéis em que haja menção aos paulistas ou aos baianos. Mesmo que se queimasse a papelada toda e até bula de remédio, ainda ficariam os registros dos consulados estrangeiros e, em particular, do consulado britânico. A Inglaterra fêz três CPIs sobre o tráfico negreiro nos anos 1840: os autos estão entulhados de dados sobre o Brasil.
3° ?Acredita-se que entre 3,6 milhões e 4 milhões de escravos tenham sido trazidos para o Brasil entre 1550 a 1870?.
- Há quase 20 anos, desde o livro de David Eltis, Economic Growth and the Ending of the Transatlantic Slave Trade, Oxford University Press, Oxford, U.K. 1989, sabe-se que os africanos desembarcados no Brasil, até 1856 e não 1870, sobem a mais de 4 milhões de indivíduos.
4° ?Não há dados, por exemplo, sobre o enorme número de africanos transportados ilegalmente após 1830, quando o Brasil assinou um tratado com a Inglaterra para acabar com o comércio de escravos. A falta dessas informações dificulta que se saiba, exatamente, de onde vieram africanos trazidos para o Brasil.?
- Essa é demais! Os ingleses tinham alcagüetes entre os negreiros e marinha de guerra no Atlântico: sabiam das coisas. Desde 1850 publicaram estatísticas ? copiadas pelo governo brasileiro e conhecidas há décadas pelos historiadores ? sobre o período. Eltis, citado acima, completou os dados em 1989. Mas
Maurício Goulart em Escravidão africana no Brasil: das origens à extinção do tráfico (1949, 2ª ed., 1975) já tinha parcialmente resolvido o assunto em 1949. Desembarcaram 710.000 africanos entre 1831 e 1856, a cifra tá na boca do povo, e sabe-se de onde eles vieram. (ler abaixo a carta de Carlos Antônio Leite Brandão, os outros comentários anexos e, acima, o post « Um bom trabalho mal comentado »)

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 19h33
[   ] [ envie esta mensagem ]



Nós aqui e acolá
Já falei da mudança ocorrida recentemente, quando o número de emigrantes, pela primeira em vez em nossa história, sobrepujou o número de imigrantes. A questão da emigração tem sido pouco discutida. Os bancos e os "cabeças de planilha" (a expressão é de Luís Nassif) falam com água na boca dos bilhões dólares que os emigrantes mandam para o Brasil. Mas pouco se lhes dá que muitos brasileiros estejam se estrepando nas quatro partes do mundo. Ao final de muito tempo, o Itamaraty construiu um sítio decente sobre o tema. E durante algumas semanas, no começo de 2006, a novela América, da Globo, pôs a emigração em pauta. Porém, a televisão brasileira é basicamente burra. Graciliano Ramos e Luiz Gonzaga plantaram os migrantes nordestinos no coração da tragédia social brasileira. Mas todos os capítulos de América só serviram para dar uma efêmera notoriedade a atores globais. O drama humano da emigração para os EUA sumiu por detrás dos cabelos de Deborah Secco.
Ao fim e ao cabo, o assunto tem sido tratado com descaso. Basta ver a total ausência de comentários nos jornais nacionais a respeito do
debate criado pela nova lei de imigração nos EUA, onde há mais de 1 milhão de emigrantes brasileiros. Em boa parte clandestinos, tais emigrantes serão atingidos pela nova legislação. Numa das raras tomadas de posição de políticos brasileiros, o governador Aécio Neves, em viagem a Boston no mês da abril, afirmou sua preocupação sobre o assunto: "O que eu posso fazer é criar condições para que a vinda para os Estados Unidos não seja a última, a única alternativa para uma parcela importante de mineiros".
Sondagem do
Herald Tribune mostra que, entre os habitantes dos países desenvolvidos, os americanos são os mais numerosos a achar que seu país ainda precisa de mais imigrantes (o dado não está no artigo do link, mais sucinto que o do jornal impresso). Esta é uma das chaves do problema nos EUA e alhures. Muitos empresários e muitas famílias americanas aproveitam-se da mão-de-obra barata estrangeira e, mais ainda, dos clandestinos.
Há brasileiros que só abrem os olhos para a situação dos emigrantes quando, em viagem de turismo, esbarram com seus compatriotas em dificuldades. Na realidade, os emigrantes despreparados pela incúria de nossos governos desmascaram a fachada lisonjeira que a classe média e alta brasileira carrega consigo quando viaja no exterior. Mesmo no Brasil o mal-entendido é evidente. Veja-se este diálogo sobre a emigração que catei num chat brasileiro (os nomes são fictícios):
Pafúncio: "Quem limpa chão de supermercado no Brasil, não me consta que morra de fome.Tem muito brasileiro preguiçoso aí na América vivendo de golpes e sujando o nome do país no exterior.Ilegal ou não.VC sabe disso".
Pancrácio: "Estou aqui legalmente, nunca precisei limpar prato no BR mas se tivesse limpado, qual o problema? Vou ao BR a cada dois meses e sei muito bem a situação que tudo se encontra por aí. Odeio morar nos EUA mas aqui estou conseguindo relaxar no semáforo e não ficar louco, olhando de um lado pro outro".

P. S. ? Hoje, sábado, saiu no Globo Online uma notícia da agência espanhola EFE sobre a discussão das leis de imigração nos EUA. Como o redator da matéria foi um jornalista espanhol, não há, obviamente, nenhuma referência às dezenas de milhares de imigrantes clandestinos brasileiros nos EUA.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 07h14
[   ] [ envie esta mensagem ]



Poder ter poder
Foto da Reuters no Libération
Estas fotos de Sarkozy entrando no palais de l?Elysée de bermudas, vindo do seu jogging, um dia depois de sua posse na presidência, sugerem inevitávelmente ao leitor brasileiro a lembrança delle. Nos dias seguintes, o espalhafato em torno de Sarkozy, de sua família e de suas corridinhas em outros paradeiros presidencias pareceu confirmar o paralelo com elle. Decerto, Sarkozy entretem comportamentos de maquinação midiática que -, de John Kennedy (os vestidos chics de sua mulher, os passeios de veleiros em Cape Cod, a foto com o filho pequeno debaixo da escrivaninha) a Collor -, incorporaram-se ao exercício do poder contemporâneo. Aliás, nem tão contemporâneo assim. Quem conhece, mesmo sem ter lido, o assunto das Mémoires de Saint-Simon sobre a corte de Luís XIV (8 grossos volumes em papel bíblia da coleção La Pléiade, da Gallimard!), ou viu o magnífico documentário de Rosselini sobre a tomada do poder por Luís XIV, sabe que o espetáculo do poder é consubstancial ao exercício do poder.
Não obstante, o projeto de Sarkozy vai bem além das aparências modernosas e se inscreve no longo prazo.
De imediato, assinalo algumas tacadas dele que viraram o jogo pesadamente em seu favor e destabilizam o PS e a esquerda às vésperas da campanha para as Legislativas. A evocação da Resistência, e de um resistente comunista de 17 anos, Guy Môquet, fuzilado pelos nazistas em 1941; a viagem rápida a Berlim para encontrar Angela Merckel e tentar relançar a União Européia; as seis mulheres dirigindo ministérios importantes e outra ainda num ministério secundário; a principal, Rachida Dati, juíza e nova ministra da Justiça, é filha de um pedreiro marroquino e de uma argelina; a nomeação de Bernard Kouchner no ministério das Relações Exteriores e a adesão de outras personalidades socialistas ao governo. Falei um pouco disso no meu comentário semanal no UOL News e voltarei ao assunto.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 04h04
[   ] [ envie esta mensagem ]



Yes, we have sugarcane!!! 5
Livro de Receitas (1495-1505), do Sultão de Mandu (norte da India), aconselhando alimentar vacas com cana para obter leite açucarado, British Library
O Herald Tribune trouxe uma reportagem sobre a cana de açúcar cultivada na Índia.
No ano que vem, a Índia pode tornar-se a maior produtora mundial de açúcar. Ultrapassando o Brasil, cuja safra canavieira é parcialmente desviada para a produção de etanol.
A cultura da cana existe no sub-continente indiano desde 1000 a. C. Na virada do século XVIII, quando a Índia estava sob dominação britânica, o governo de Londres pensou que a produção indiana -, somada à produção da Jamaica (também inglesa) -, poderia jogar para escanteio o açúcar brasileiro.
Na época, a Inglaterra combatia duramente o
tráfico negreiro que sustentava a produção brasileira. Mas a concorrência indiana não vingou e o açúcar brasileiro ganhou a parada. Não obstante, a agricultura indiana deu conta de uma cultura florescente na época: o anil: tomou o mercado europeu e matou a produção de anil brasileiro. Sobrou o nome "anil", na Favela do Anil, em Jacarepaguá, região da antiga «chacará do anil», onde começou a cultura fluminense da planta no meado do século XVIII.
Agora, está aí de novo a Índia, independente e poderosa, com vantagens comparativas similares ao Brasil (mão-de-obra barata, mas a terra lá é mais cara), em cima do mercado mundial açucareiro.
P.S. ? Uma tese muito interessante, «
O Azul Fluminense: o anil no Rio de Janeiro Colonial -1749-1818 », 2005, de Fábio Pesavento, da Economia da Universidade Federal Fluminense, explica o assunto do anil. Aproveito para lembrar dois historiadores, cuja obra é insuficiente apreciada no Brasil, que publicaram estudos pioneiros sobre o tema. O primeiro é Dauril Alden (acho um disparate que seu grande livro Royal government in colonial Brazil ... 1769-1779, publicado em 1968, quase 40 anos minha gente! ainda não tenha sido traduzido). Seu artigo é: "The growth and decline of indigo production in colonial Brazil: study in comparative economic history", Journal of Economic History, vol.25, n.1, 1965, p.35-65. O segundo artigo é de Luis Ferrand de Almeida, "Aclimatação de plantas do Oriente no Brasil durante séculos XVII e XVIII", Revista Portuguesa de História, tomo 15, 1976, p.339-481.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 06h57
[   ] [ envie esta mensagem ]



Olhar devagar: arma de dois gumes
Foto:Vivi Zanatta, da Agência Estado, publicada no portal G1
O que deu na telha de Serra para ele tomar uma pose destas? O governador de São Paulo é um homem pacífico, revoltado com a violência criminosa que atormenta seu estado e o país. Para que então pegar neste trabuco que, mais cedo ou mais tarde, vai matar alguém num morro, numa favela, em pleno sol do meio-dia, no começo de uma madrugada ? Nenhum de seus conselheiros pressentiu que uma pessoa de terno cinza e gravata (ainda mais com as olheiras que ele tem), com uma arma destas na mão, fica parecendo um gangster de opereta, de filme dos anos 50? Não deu outra. Na foto, Serra leva jeito de gangster portenho.
Homem público de bom senso não aparece -, ainda mais apontando para os fotógrafos -, com uma arma mão. Nem com cartucheira de atirar em pratos. Numa foto célebre de 1940, Churchill de charutão na boca, em visita à Home Guard britânica, empunhou uma metralhadora. Mas era um recado para os nazistas que planejavam invadir a Inglaterra. Todo mundo entendeu assim e Churchill virou estátua.
O ar bonachão de Serra, em vez de amortecer o efeito agressivo da foto, toma um tom zombeteiro que pode ser ? e será - mal interpretado.
Anos atrás, quando se falava pela milésima vez que a execução de criminosos era a única solução para a violência no Brasil, Serra, então deputado federal, escreveu na Folha um artigo contundente contra a pena de morte. Mandei um telegrama (já havia fax mas ainda não havia emails) para cumprimentá-lo. Acho que foi a única vez na vida que fiz isso de mandar mensagens para cumprimentar um político.
Talvez, numa hora dessas, em tempos de violência brutal, Serra devesse escrever de novo -, agora com todo o seu peso de governador de São Paulo e de presidenciável -, contra a pena de morte. Seria bom para o país. E ninguém iria ter idéia de jerico vendo esta foto.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 02h46
[   ] [ envie esta mensagem ]



O debate sobre o aborto
Estou em Salamanca dando um curso na Universidade, no quadro do Centro de Estudios Brasileños. Leio todos os dias El Pais que traz uma boa cobertura do debate sobre o aborto e a visita do papa no Brasil.
Na escada da belíssima biblioteca da Universidade existem frisos do início do século XVI, representando cenas que conduzem, pelo estudo e a sabedoria, até o nível da contemplação. Malgrado o avanço da época, os homens do Renascimento não concebiam as mulheres como iguais, como seres humanos tão fortes e inteligentes como eles.

É o que ilustra o friso acima. No lado esquerdo, a mulher está sobre o homem e indica a aranha, símbolo da esterilidade e de coisas ruins. Do lado direito, o homem senta-se em cima da mulher e aponta para a abelha, que evoca a fertilidade e as coisas boas. Ou seja, numa sociedade bem composta quem manda é o homem.
Este é ainda fundamento da doutrina que criminaliza o aborto, provocando todos os anos centenas de mortes de mulheres que procuram interromper clandestinamente a gravidez indesejada, e levando outras 220.000 às urgências dos hospitais brasileiros para tratar lesões causadas por intervenções feitas em condições precárias. As estatísticas oficiais mostram que 1/3 das mortes maternas são causadas pelo aborto.
Lula foi o primeiro presidente a ressaltar -, durante a visita do papa -, o postulado republicano que estabelece a laicidade do Estado brasileiro. Foi um feito muito importante que teve pouca repercussão no Brasil. Perdeu-se uma boa oportunidade de discutir a questão da laicidade (será que um dia teremos de sair nas ruas para defender o fundamento laico do Estado, como fazem hoje corajosamente os turcos ?). Contudo, Lula
recuou no debate sobre o aborto, esvaziando o plebiscito sobre o assunto no Congresso, como informa Kennedy Alencar no Folhaonline.
Só falta agora começar a fritura do ministro Temporão, que teve a coragem e o civismo de colocar esta questão dramática em debate.

O recuo do governo mostra que a sociedade brasileira permanece refém do conservantismo católico impulsionado por Bento XVI e do fundamentalismo evangélico.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 06h30
[   ] [ envie esta mensagem ]



Vai com maio, ou sem maio?
Roy Lichtenstein, Drowning Girl, 1963, (reprod. modificada) © Museum of Modern Art, N.Y.
Em algumas horas, Sarkozy será o novo presidente da França. Talvez por dez anos, mas este é outro papo. Entre as coisas que tem sido ditas e escritas sobre a eleição, há o tema de maio de 1968, trazido à tona pelos ataques de Sarkozy à « herança » meia-oito. O Herald Tribune e jornais pelo mundo afora falaram nisso. No Le Monde, Dominique Dhombres ridicularizou a investida de Sarkozy. Não obstante, na semana que vem haverá gente proclamando, mais uma vez, a extinção definitiva de maio 68 e o sepultamento de seus restos nos quintos do inferno.
No que me cabe, quero distância do narcisismo geracional que se identifica à imagem botoxizada de um maio 1968 oba-oba e priápico. A direita também propaga esta imagem para reforçar a idéia de que tudo não passou de uma geral esculhambação. Como escrevi na
Folha há algum tempo, «De Bush ao diretor do Banco Mundial, Paul Wolfowitz (estudantes na época), a Sarkozy (atual ministro do Interior da França, então também estudante) e até ao papa Bento 16 (professor em Tubingen), há toda uma camada de gente influente na Europa e nos EUA que guardou um rancor tenaz contra o "meia-oitismo".
Longe das caricaturas, maio é também, e sobretudo, a maior greve operária ocorrida num país desenvolvido no pós-guerra, é um movimento social e cultural que mudou o país. Estas e outras coisas estão ditas numa entrevista em que participei ao lado de gente ilustre (FHC, Paulo Arantes, Giannotti, Roberto Schwarz), em 1998, no trigésimo aniversário de maio. A entrevista foi publicada na Folha e ainda está no sítio do
Jornal do Commércio, de Recife (vim para a França em 1966, e não em 1996, como está escrito na entrevista).
Agora, duvido que Sarkozy ouse, sequer, abolir a semana de 35 horas de trabalho
, instaurada em 1998-2000 pelo governo socialista de Jospin, e apontada por muita gente boa como a marca mais patente do atraso da herança meia-oito.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 08h11
[   ] [ envie esta mensagem ]



Salvador e Jamestown: como somos velhos!
João Teixeira Albernaz, Bahia, 1631

Noticia-se a viagem da rainha Elizabeth aos EUA na comemoração do 4° centenário da fundação de Jamestown (Virgínia), primeiro estabelecimento permanente dos ingleses nas Américas. O Herald Tribune retoma um interessante editorial do Boston Globe sobre o assunto.
Doze anos depois dos colonos ingleses, desembarcou em
Jamestown, em 1619, o primeiro grupo de escravos africanos dos futuros EUA. Eram angolanos, inicialmente transportados no navio negreiro português São João Baptista, que se dirigia para o porto de Vera Cruz, no México. No alto mar, o negreiro foi capturado por corsários ingleses. Daí os angolanos foram levados para a Virgínia, onde ajudaram a deslanchar a cultura do tabaco e o crescimento da colônia inglesa.
Nesta época, os portugueses tinham comercializado a quase-totalidade dos cerca de 150 mil africanos deportados para as Américas. No Brasil, haviam desembarcado, no mínimo, 40% deste total, ou seja, 60 mil africanos. Acrescente-se uns 30 mil colonos portugueses e se verá como o Brasil -, sob o impacto de uma colonização luso-africana relativamente densa -, já era velho no nascimento da Virgínia e dos futuros EUA.

Aproveito para lembrar algo fundamental: antes da declaração de Independência dos EUA (1776) ninguém sabia que as colônias européias nas Américas podiam, e iriam, tornar-se nações independentes. Portanto, é disparatado transpor a idéia do Brasil de José Bonifácio ou dos EUA de Benjamin Franklin para Jamestown ou para a Bahia dos séculos XVI e XVII. Como se os colonos destes cantos já soubessem o seu vir a ser, já tivessem a consciência de que seriam independentes, já vivessem numa proto-nação. Muitos, mas muitos mesmo, professores de história dos EUA, do Brasil e do restante dos países americanos (referindo-se aos colonos de seus países) propagam este besteirol nacionalisteiro fabricado no século XIX.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 01h32
[   ] [ envie esta mensagem ]



As saias de Ségolène e o pai de Sarkozy
David, Les Sabines, 1799 (detalhe) © Musée du Louvre/A. Dequier - M. Bard

Assisti ao debate de Ségolène com Bayrou. Ela não se saiu mal. No cara-a-cara ela está bem mais à vontade do que nos discursos. Bayrou foi educado.
Mas os comentários que ouvi pouco depois na mercearia da esquina não deixam dúvida: Ségolène é vítima da baixaria machista, a qual, como todo mundo sabe, não é praticada só pelos machos. Veio a história das fotos dela de bikini (e daí ?, será que ela tinha que usar macacão para ir à praia que ela sempre foi com os quatro filhos ?). Depois falou-se de suas saias. Supostamente, ela deveria usar terninhos masculizantes como os de Hillary Clinton, Condoleezza Rice, Angela Merckel, Michèle Bachelet ou a ministra da Defesa francesa, Michèle Alliot-Marie. Saia, só para mulheres nascidas em 1925, como Margareth Thatcher. Nascida em 1953, Ségolène vai em frente de saia. De vez em quando vem ainda a aporrinhação de que ela não é casada com o pai de seus quatro filhos, François Hollande. Sobretudo, fala-se e escreve-se que ela é despreparada. Passa-se batido sobre o fato de que ela foi três vezes ministra, formou-se nas faculdades da elite francesa,
etc.
Elaine Sciolino, a excelente jornalista do Herald e correspondente do NYT em Paris,
fala disso, e também das andanças de Cecile, a mulher de Sarkozy, contando coisas que devem deixar os leitores da gringolandia meio chocados. A correspondente do Le Monde nos States, Corine Lesnes, tira um pouco sarro da história toda no seu blog.
Entretanto, a presença de uma mulher no segundo turno não é o único dado novo na eleição. Listei alguns noutro
post, mas esquecí algo importante, e insuficientemente mencionado até agora: Sarkozy é o primeiro francês filho de imigrantes que tem a chance de se tornar presidente.
Seu pai vinha da pequena nobreza húngara e fugia da invasão da Hungria pela URSS, em 1944. Muito provavelmente, não terá encontrado as mesmas dificuldades que um imigrante analfabeto africano chegado na França em 1984, fugindo de uma invasão de ganhafotos ou da miséria na sua terra natal. Contudo, num país acusado, a torto e a direito, de racista, não é pouca coisa.
Se Sarkozy for eleito, será algo inédito numa grande democracia ocidental. Nos EUA há Schwarzeneggers governadores, mas não houve, no passado recente, Sarkozys presidentes. Michael Dukakis, filho de imigrante grego, foi batido por Bush pai nas presidenciais de 1988. No Brasil, salvo erro, o filho de imigrante que subiu mais alto pelo voto popular foi Paulo Maluf.
P.S. - Tem se falado que outros países já elegeram mulheres para a chefia de seus governos, salvo os EUA e a França, pátrias das duas grandes revoluções democráticas e dos direitos do homem. A historiadora Mônica Leite Lessa, num artigo em O Globo, interroga-se sobre este ponto. Contudo, é preciso tomar em consideração que as primeiro-ministras são, de fato, eleitas deputadas que posteriormente chefiam maiorias parlamentares. Enquanto Ségolène Royal e Hillary Clinton, eventualmente, serão eleitas diretamente presidentes. A única exceção nos nomes citados por Mônica é a social democrata Tarja Halonen, eleita em 2000 e reeleita em 2006 à presidência da Finlândia pelo voto direto. Mas na Finlândia, os poderes constitucionais do presidente são muito mais reduzidos do que na França ou nos EUA.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 19h29
[   ] [ envie esta mensagem ]



O colapso de um intelectual orgânico
Delacroix, La Liberté guidant le peuple (detalhe),1830, Museu do Louvre© R.M.N./H. Lewandowski

Roberto Mangabeira Unger é um grande intelectual. Sua carreira em Harvard é excepcional. Ali, ele terá sido, salvo engano, um dos catedráticos mais jovens da melhor universidade do mundo. Sua obra portentosa, nem está toda traduzida em português, nem ?, o que é mais lamentável ?, foi avaliada na sua devida importância pelos universitários brasileiros.
Marcado pela militantismo republicano de seu ilustre avô contra a ditadura Vargas e, provavelmente, pelo militantismo armado de sua irmã contra a ditadura mais recente, Mangabeira envolveu-se no movimento pela redemocratisação do Brasil. Nada mais legítimo. Na época, alguns gaiatos, ironizando seu sotaque, diziam: "Mangabeira é o único brazilianist brasileiro!" Faço parte dos que torciam para que sua influência pesasse no país.
De Ulysses Guimarães, a José de Alencar, passando por Brizola e Ciro Gomes, ele habilitou-se como eminência parda de grandes e menos grandes políticos, passando por vários partidos. Apesar de tudo (ele poderia escrever um livro interessante sobre as conversas que condicionaram suas piruetas políticas partidárias), esta viração nunca chegou a comprometer seu estatuto de «intelectual orgânico» preocupado com a democracia e a modernização do Estado.
Agora, aproximou-se de Lula e ganhou um cargo ministerial.
Também legitimamente, os jornais começaram a citar seus ataques a Lula e, em particular, um artigo em que ele pedia o impedimento do presidente. Não me lembrava do texto e só registrei a frase repetida no noticiário: ?o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional ». Hoje, o portal da
Agência Estado informa que Mangabeira retirou do seu sítio de Harvard, onde coloca todos os seus escritos em linha, o tal artigo, publicado na Folha de São Paulo em 15/11/2005 e agora reproduzido no dito portal.
A leitura do texto é surpreendente. Não é um destes artigos que a gente às vezes escreve às pressas, com uma ou outra frase mais destemperada. Trata-se de uma tomada de posição meditada, apurada, calcada no célebre manifesto de Zola sobre o « affaire Dreyfus », e sustentando de cima a baixo a tese do impedimento. Mais ainda, o artigo apropria-se do argumentário udenista e golpista com laivos de preconceito de classe : «Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou as instituições republicanas?Afirmo que o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou».
O fato de Mangabeira aceitar agora um cargo de ministro no atual governo é melancólico. Mas a retirada de seu texto de seu sítio de Harvard, é bem mais grave.
Roberto Mangabeira Unger continuará sendo um grande intelectual. Mas mostrou que é um pequeno homem.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 09h31
[   ] [ envie esta mensagem ]



Pequim, Havana e Yahoo
A foto foi publicada no jornal cubano Granma e reproduzida no portal de O Globo. Fidel recebe uma delegação oficial chinesa dirigida por Wu Guanzheng, manda-chuva do PC da China.
A roupa vermelha, a barba longa e esbranquiçada, o rosto espanholado, a ponta capitelada de sua cadeira, o fundo branco, dão a Fidel a aparência de um velho cardeal da Cúria romana que lê orientações para os emissários de uma diocese asiática. Mas o assunto da conversa deles certamente não foi religião.
Talvez, Fidel tenha perguntado a Wu: como vocês fazem para se darem tão bem com os EUA? Sai Nixon, vem Ford, entra Carter, chega Reagan, surge Bush pai, ganha Clinton, sobe Bush filho e vocês continuam numa boa? Fazendo muitos bons negócios e dando tapinhas nas costas. ¡Caramba!, ¡Caracoles! Ustedes não exercem uma ditadura do proletariado tão leninista como a minha? Não são tão comunistas quanto eu? Por que só eu amargo 45 anos de embargo comercial e a hostilidade pertinaz de los gringos?
E Wu respondeu: Por causa da economia, estúpido! Porque o nosso mercado é imensamente maior que o seu! Porque, como disse um fabricante de cosméticos americano, temos 3 bilhões de sovacos esperando por desodorante! Porque nós compramos bônus do Tesouro americano pra xuxú! Porque o que conta mesmo é o número de consumidores chineses e não o número dos prisioneiros políticos chineses!
Segundo informa o Granma, Wu é Secretario de la Comisión Central de Control Disciplinario del Partido Comunista Chino
. Assim, a conversa pode ter abordado também a dificuldade de exercer o Control Disciplinario nestes tempos de Internet invasiva e blogosfera febricitante.
Aliás, Wu contou a Fidel que está incomodado. O processo que Wang Xiaoning abriu num tribunal de San Francisco pode dar rolo na Comisión Central de Control Disciplinario e gerar chiadeira contra a China nos EUA. Curioso, Fidel perguntou: mas o que aprontou este tal de Wang, Wu? Vê aí no Google News, disse Wu. Fidel gugou sem querer nas ?news? brasileiras (vira e mexe, o Internet cubano dá estes paus) e só achou uma notícia merreca na parte de informática do Folhaonline
e chamadinhas noutras seções de informática. Gugou então em inglês e pescou o artigo do Herald Tribune onde está tudo explicado.
Por intermédio de sua mulher, Yu Ling, residente na Califórnia, Wang está processando Yahoo por fornecer à polícia política chinesa dados que permitiram o seu rastreamento e a sua prisão. Oposicionista que se exprimia na blogosfera, Wang pegou dez anos de cadeia. Na operação, outros dissidentes também foram presos e condenados.
Fidel leu a notícia cabreiro até chegar na declaração de Jim Cullinan, porta-voz de Yahoo. Aí deu um sorriso e disse para Wu : ¡Todo está bien!
De fato, conforme está escrito no Herald, Cullinan declarou:«As companhias fazendo negócio na China são forçadas a seguir as leis chinesas ? Yahoo não sabe se o pedido de informações destina-se à investigações criminais legítimas ou vai ser usado para perseguir dissidentes políticos. »
A declaração segue uma lógica irrepreensível. E lança o argumento que servirá de base ao fascismo cibernético.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 06h14
[   ] [ envie esta mensagem ]



Presidenciais francesas: o fim de uma época
Alguns pontos de um artigo bem mais longo que escrevi para o caderno Aliás, publicado no « O Estado de São de Paulo » de domingo, dia 22 de abril.
- Esta é a oitava eleição presidencial direta francesa (elas ocorreram em 1965, 1969, 1974, 1981, 1988, 1995, 2002). Pela primeira vez, os três principais candidatos nasceram no pós-guerra. Pela primeira vez (salvo a exceção de 1974)
nenhum dos atuais candidatos ocupou ou ocupa o cargo de presidente ou de primeiro-ministro.
- Os dois principais candidatos, Sarkozy e Royal, tiveram que enfrentar sua própria máquina partidária antes de se afirmarem como presidenciáveis. Ambos contrariam a tradição de sua respectiva família política.
- Há uma evidente virada de geração. Três presidenciáveis beirando os cinquenta anos jogam para escanteio lideranças mais antigas e estreitamente incorporadas aos aparelhos partidários, como Villepin ou Jospin. Num país onde o atual presidente teve seu primeiro cargo ministerial há quarenta anos, não é pouca coisa.
- Como o PC virou suco ? a candidata comunista obtém apenas 3% dos votos nas sondagens desta eleição ? o PS fica sem ter para onde correr no segundo turno, porquanto o Partido Verde também desabou e os votos da extrema-esquerda não dão para o gasto. Ségolène, com o seu socialismo pós-nacional, tenta resolver a parada, saindo pelo centro e combinando reinvidicações tradicionais de esquerda (direitos trabalhistas, defesa do Estado de Bem Estar Social) com a temática mais conservadora ( sentimento patriótico, valores familiais e paz social).
- Sarkozy propõe soluções que também são heterodoxas para seu próprio campo. Contra a diplomacia gaullista e chiraquiana que enfrenta os EUA, ele propõe-se a estabelecer uma aliança mais alinhada com Washington. No plano nacional, ele defende uma liberalização da economia e a diminuição do peso do Estado francês.
- Há um novo embate político na França. À esquerda, apresenta-se a primeira mulher com chance de chegar à presidência, a qual afasta-se do militantismo herdado de maio de 1968 e orienta sua plataforma para o centro do espectro político. No campo conservador surge, pela primeira vez no pós-guerra, um líder verdadeiramente de direita, decidido a abandonar o gaullismo social para chegar mais perto do liberalismo econômico.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 20h25
[   ] [ envie esta mensagem ]



O kistch tornou-se o autêntico
A legenda desta foto de Fábio Motta, da Agência Estado, publicada no sítio UOL, diz o seguinte: »Polícia apreende réplica de espada medieval no Rio».
Não é preciso ser especialista em história militar para saber que nenhuma espada deste tipo existiu em qualquer período moderno ou medieval. Trata-se de um clone da "espada" de He-Man, caricatura de personagem medieval de história em quadrinhos e boneco de meninos.
Só redigi este post porque a legenda da foto ilustra a pertinência de uma reflexão de Jean Baudrillard sobre a sociedade contemporânea: « o kitsch será considerado como o autêntico ! »

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 18h43
[   ] [ envie esta mensagem ]



Sentidos da Europa
Tiziano, O rapto de Europa, 1559-1562 © Isabella Stewart Gardner Museum, Boston

Ontem, falei da necessidade de tomar em conta o contexto da União Européia para entender o sentido das presidenciais francesas. Hoje, o editorial do Le Monde mostra a estreita imbricação política entre os países da UE e, muito particularmente, entre a França e a Alemanha.
Constatando que o ministro da Fazenda da Alemanha, o social-democrata Peer Steinbrück, não foi à reunião do G-7 em Washington, mandando apenas um auxiliar, o principal jornal francês não trepida em pedir a demissão do ministro alemão.
A ausência do ministro da Fazenda em Washington -, decidida em Berlim pelo governo alemão e a chanceler Angela Merkel -, não tem, em princípio, nada a ver com o Le Monde, nem com a França, a Oropa ou a Bahia. Mas, o Le Monde ? e a maioria dos pró-europeus ? acha que tem tudo a ver com a UE : deixando de participar do encontro do G-7, Steinbrück prejudica a política continental.
Creio que daqui uns anos, este editorial será apontado pelos historiadores como um dos textos marcantes da emergência da consciência européia. Sobretudo se Angela Merkel mandar Peer Steinbrück para o olho da rua amanhã de manhã.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 13h59
[   ] [ envie esta mensagem ]



As presidenciais francesas e o Brasil
Watteau, Pierrot (detalhe), c. 1718 © Museu do Louvre/A. Dequier - M. Bard

Há um sítio francês que resume todas sondagens sobre as presidenciais. Tanto a sondagem mais recente como a tendência geral das últimas semanas. A sondagem Ipsos de hoje mostra uma melhoria importante para Ségolène que, pela primeira vez desde 1° de março, tem cinco dias seguidos de alta nas opiniões de voto. As duas outras sondagens de hoje (CSA e Sofres) confirmam o seu avanço.
O New York Times traz uma grande reportagem na sua revista dominical sobre as banlieues
e as presidenciais francesas. Como sói acontecer nos últimos 100 anos, o autor promete que a divisão política entre a esquerda e a direita irá desaparecer em breve. O Los Angeles Times questiona a liderança de Sarkozy, lembrando que muitos eleitores ficam «assustados » com ele. Mas o jornal resume bem o interesse dos EUA, e do resto do mundo, nas eleições: « Qualquer que seja o vencedor, Washington está legitimamente preocupado sobre o andamento das relações franco-americanas e sobre a disposição do próximo governo francês para construir uma União Européia (UE) forte, capaz de auxiliar os EUA no Oriente Médio e alhures ».
Por seu lado, os jornais brasileiros continuam cobrindo a eleição francesa sem contextualisá-la no quadro da UE, como faz a imprensa européia e americana. Aliás, a cobertura no Brasil tem sido bem chinfrim.
Hoje, a uma semana da eleição, a Folha de S. Paulo -, diferentemente do Estadão, de O Globo e da maioria dos jornais de primeiro plano no resto do mundo -, não traz uma só linha sobre as presidenciais francesas.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 08h42
[   ] [ envie esta mensagem ]



Eleições na França, nos EUA e no Brasil
Na França :
Patrick Jarreau, respeitado jornalista do
Le Monde, analisa a inexorável redução do papel do primeiro-ministro no sistema semi-presidencialista francês. Contra a letra da Constituição, o primeiro-ministro funciona, cada vez mais, como um super-despachante do presidente junto ao Parlamento. Villepin terá sido o "último primeiro-ministro" de verdade da França. O fato deveria ser meditado pelos defensores da introdução do semi-presidencialismo francês no Brasil. De maneira casuísta, os parlamentaristas brasileiros relançam periodicamente o tema, a despeito da acachapante derrota que sofreram nos plebiscitos de 1963 e 1993.
A campanha francesa atrai o interesse de estrangeiros. Katrin Bennhold, do
Herald Tribune, entrevistou conselheiros eleitorais americanos que vieram a Paris estudar as estratégias dos candidatos locais. Veredicto de Barbara Comstock, que integrou a campanha de Bush: Ségolène não devia ter posado de bikini. Ela ainda acrescentou: o único presidenciável dos EUA que não teria problemas se posasse de bikini é Barack Obama. Tirando a brincadeira, há um equívoco: Ségolène foi fotografada, de longe, numa praia onde vai há anos com seus quatro filhos. Os franceses tem bastante defeitos, mas não pecam por este tipo de moralismo.
Espantados com as particularidades político-eleitorais francesas, os americanos ficaram de queixo caído onde menos se esperava: diante do sítio internet de Sarkozy, julgado mais avançado que os sítios dos presidenciáveis nos EUA (o de Ségolène, menos incrementado, está aqui) .
Nos EUA
Editorial do
NYT saúda um passo decisivo para eliminar o sistema ?fossilizado? de eleição presidencial nos EUA. A Maryland é o primeiro estado da União a votar uma emenda determinando que seus grandes eleitores -, chamados a eleger o presidente do país no Colégio Eleitoral -, votem no candidato que obtiver a maioria de votos na eleição direta nacional. Muita gente não engoliu ainda a eleição de 2000, quando Bush se elegeu ?, do jeito que se viu -, perdendo por meio milhão de votos para Al Gore.
No Brasil
Editorial da
Folha definiu a fórmula oportunista que explica as manobras pelo fim da reeleição: PT + PSDB = Lula + (Serra ou Aécio) = 2015.
Kennedy Alencar detalha os motivos de cada uma das parte da equação. Também sou decidamente contra o fim do instituto da reeleição. Diante da reação negativa que a manobra vem causando, fiquei mais otimista. Talvez seja possível mobilizar a opinião pública para dar um basta no casuísmo. Voltarei ao assunto.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 16h50
[   ] [ envie esta mensagem ]



Bispos negros e bispos brancos
Outro dia, falei da discriminação que atinge os afrodescendentes no clero brasileiro, sugerindo que o assunto deveria ser meditado por católicos, não-católicos e ateus na visita do papa Bento XVI ao Brasil.
Agora apareceu uma reportagem da
BBC Brasil, publicada pela Agência Estado, que completa as informações que eu havia dado, mostrando como o número de bispos negros é ridiculamente reduzido em nosso país: 11 (2,5%) num total de 434.
Comentando estes dados, d. Antônio Wagner da Silva, bispo de Guarapuava, disse : "O número de afrodescendentes não é pequeno apenas no episcopado brasileiro. É assim nos altos escalões das Forças Armadas e também do governo", e concluiu, "as oportunidades restritas no acesso às escolas, às universidades e à formação de sacerdotes e religiosos pode ser uma das razões para este quadro discriminatório."

Seus argumentos parecem fazer sentido, mas são, como diria o outro, ontologicamente falsos.
A comparação com as Forças Armadas e com o governo, sensíveis aos princípios democráticos somente há duas décadas, é absurda. O ilustre prelado guarapuavano passa batido sobre o fato que a Igreja é essencialmente diferente das instituições políticas e militares, pois desembarcou no Brasil há quinhentos anos para salvar as almas de todos os povos, de todas as tribus, de todas as malocas. Não obstante, regulamentados pela hierarquia clerical, os seminários mantêm voluntária e deliberadamente -, há cinco séculos -, «oportunidades restritas » ao acesso dos afrodescendentes.
Volto à carga porque o preconceito racial contra seminaristas negros ?, prática antiga e bem arraigada -, é assunto tabu no Brasil. Além disso, a reportagem da BBC não teve a repercussão que merece. Salvo engano, nenhum jornal brasileiro comentou esta matéria, pautada - é bom lembrar - pelos redatores de uma agencia britânica, mais atenta ao assunto que os editores tupiniquins. Insistir nestes fatos faz parte do trabalho do historiador, o qual, deve «pentear a história a contrapelo», como escreveu Walter Benjamin.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 16h10
[   ] [ envie esta mensagem ]



Sarkozy « ansiógeno » ?
Mais alguns dados sobre as eleições francesas pinçados nos jornais e nos debates da TV (há muitos, o dia inteiro, em vários canais e são sempre interessantes: vejo agora bastantes porque estou de férias na Universidade e trabalho em casa).
- Existe uma grande hesitação no eleitorado. Uma proporção importante de eleitores ainda não se decidiu ou oscila entre os três (!) primeiros colocados (Sarkozy, Ségolène e Bayrou). Os temas em debate mudam rapidamente e nenhum fixou a atenção por mais de 48 horas.
- Sarkozy continua folgado na frente das sondagens, como tem sido o caso desde janeiro. Tanto no primeiro como no segundo turno. A maioria do eleitorado é agora formada por gente mais idosa que vota sempre no candidato conservador, e votará em Sarkozy (os meia-oito, que já eram minoria em 1968, agora, depois de velhos, são mais minoritários ainda: no meio tempo-tempo, uns viraram casaca, outros viraram pó). Desse modo, até onde enxerga a vista, a eleição presidencial parece estar entregue.
- Mas Sarkozy assusta um pouco a generalidade dos eleitores, e mesmo os seus próprios partidários. Por que? Por causa de seu jeito meio tenso, ansioso, permanentemente agitado. Para definir este comportamento, o
Le Monde, citando militantes socialistas, usa uma palavra vinda da psicologia - « anxiogène » -, gerador de ansiedade, daria «ansiógeno» em português (como em italiano). Ou seja, Sarkozy ainda pode perder a eleição presidencial porque tem um temperamento «ansiógeno».
- No
Libération de hoje, Didier Eribon, figura interessante, ex-redator do jornal, sobrevivente meia oito e filósofo engajado (ele é autor, em particular, de uma celebrada biografia de Michel Foucault), comenta seu último livro « D'une révolution conservatrice et de ses effets sur la gauche française" e dá seu diagnóstico: Ségolène vai perder a eleição porque o PS abandonou a tradição meia oito e deixou de interpretar a sociedade francesa sob o prisma dos conflitos sociais e das clivagens de classe.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 18h55
[   ] [ envie esta mensagem ]



As presidenciais na feira da Bastilha
A Primavera chegou bombando neste domingo de Páscoa. Fui cedo na feira da Bastilha. É uma das duas feiras perto da minha casa que costumo freqüentar (outro dia falo da outra feira: o marché d'Aligre). Havia estes ovos coloridos à venda. A tchurma da campanha eleitoral já estava lá.
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 08h26
[   ] [ envie esta mensagem ]



Incertezas
Duas manchetes dos jornais de hoje expostos na feira definem o quadro atual da eleição. O Journal du Dimanche diz que a subida de Sarkozy nas sondagens é o resultado da « direitização » da sociedade francesa. Mas, o Parisien dá um dado que deixa ainda alguma esperança : no dia de hoje, duas semanas antes da eleição, 42% dos eleitores não sabem direito em que irão votar no dia 22 de abril.
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 08h12
[   ] [ envie esta mensagem ]



Voto útil?
Este aí faz campanha há três semanas pelo « voto útil » em Bayrou. Com os seus cartazes e seu papo ele tenta explicar que o soi-disant centrista Bayrou é o único que pode derrotar Sarkozy no segundo turno. Por isso, segundo ele, é melhor votar Bayrou logo no primeiro turno. A lógica política e as sondagens dizem o contrário: no segundo turno, Bayrou captaria os votos da direita e ganharia contra Ségolène, mas perde contra Sarkozy porque não consegue atrair os votos de esquerda.
Em todo caso, na feira esta propaganda não está dando certo: na semana passada vi uma moça insultá-lo e hoje passou um cara bradando que era contra ?quem pretendia salvar a esquerda fazendo-a perder a eleição?. Mas Ségolène tem ainda a ameaça do voto útil em Bayrou pairando no horizonte.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 08h02
[   ] [ envie esta mensagem ]



Trotskystas de ontem e de hoje
Dois velhotes trotskystas fazendo propaganda do jovem candidato trotkysta, Olivier Besancenot. Ele é o único dos candidatos da ?esquerda de contestação? (mais interessada na pressão e na propaganda política, e distinta da « esquerda de governo », formada pelos Socialistas, Comunistas e, às vezes, pelos Verdes) com possibilidade de ter mais de 5% dos votos. O que lhe dará direito de ser reembolsado de boa parte de seus gastos de campanha.
A lei francesa diz o seguinte :
- Os gastos eleitorais são limitados. Um candidato não pode gastar mais de 16.166.000 ? na campanha presidencial do primeiro turno, e mais de 21.594.000 ? no segundo turno. Caso contrário, suas contas eleitorais serão rejeitadas e o reembolso parcial de seus gastos será bloqueado.
- Todos os candidatos do primeiro turno recebem 1/20 do teto do primeiro turno como reembolso (808.300?). Os candidatos obtendo mais de 5% dos votos recebem metade deste teto (8.083.000?).

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 07h44
[   ] [ envie esta mensagem ]



Remelexo brasileiro
Baiana no Rio de Janeiro, c. 1870, Marc Ferrez, Biblioteca Nacional do RJ

De vez em quando notícias correntes, quase banais, revelam uma virada histórica no país. Algum tempo atrás, eu falava do movimento de globalização que gerava mais emigrantes do que imigrantes no Brasil, e levava os investimentos diretos do Brasil no exterior a superar os investimentos diretos estrangeiros no país.
Agora veio a informação em
O Globo, dizendo que o estado de São Paulo se transformou num pólo de saída migratória : nos últimos cinco anos, 105 mil pessoas deixaram o estado para viver em outras regiões brasileiras. A notícia está mal explicada (confunde 'paulistas' com 'paulistanos' e não diz se no número citado já estão descontadas as entradas de migrantes em SP, nem se a cifra inclui gente que foi para o exterior). Mas os comentários de Márcio Porchman, meu ex-colega na Unicamp e competente organizador da pesquisa, sugerem que São Paulo tornou-se agora exportador de mão-de-obra.
O movimento de migração de trabalhadores do Nordeste para o Estado de São Paulo não data da década de 1950, como afirma a reportagem de Eliária Andrade, mas de 100 anos antes, de 1850.
De fato, desde esta época -, com o final do tráfico negreiro africano -, iniciou-se o tráfico interno de escravos trazendo, justamente, escravos do Nordeste e do Norte (e até do Sul) para a fronteira do café que atravessava o Rio de Janeiro e avançava por Bananal, pelas bandas paulistas do Vale do Paraíba.
Os « baianos » que passaram a chegar mais maciçamente na cidade de São Paulo nos anos 1950, inserem-se no longo fluxo migratório vindo do Nordeste deslanchado, no século XIX, pelo tráfico interno de escravos.
Neste sentido, o fato de São Paulo estar perdendo agora trabalhadores que se deslocam para outras regiões, marca mais uma virada, mais uma etapa no grande remelexo demográfico e econômico que sacode o Brasil nos últimos anos.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 13h58
[   ] [ envie esta mensagem ]



Copacabana e a identidade nacional
Numa recente viagem ao Brasil, fiquei no Rio de Janeiro. E dei-me conta que Copacabana é o único lugar do país com uma identidade globalmente brasileira.
Mais ligado agora ao Centro e à Zona Norte pelo metrô, misturando aposentados, classe média claudicante, turistas desavisados, lojas de segunda, camelôs de primeira, gente educada, gente debochada, arquitetura cinquentona, marquises desabantes, ônibus aleatórios, velhotes boas-praças, porteiros cearenses, amendoeiras comportadas, poentes exultantes, o bairro transcende o regionalismo que cinge Ipanema, o Pelourinho ou o Bexiga e se desdobra numa autenticidade verdadeiramente nacional.
No Mundus Copacabanensis impera o restaurante a kilo, onde se almoça mal sentado. As posições do corpo em determinadas funções diferem de uma cultura para outra. Em O Soldado Prático (1610), Diogo do Couto conta como a Inquisição portuguesa em Goa encanava com os homens indianos que urinavam de cócoras, interpretando tal postura como um ato anti-cristão. Da mesma forma, os missionários europeus desembarcados na Oceania e noutras paragens ultramarinas, aporrinhavam os nativos que transavam de um jeito ou de outro, impondo-lhes o modelo padrão fixado pela Igreja desde o século XIII: o homem deitado em cima da mulher. Daí, a origem da « posição do missionário », expressão cunhada por indígenas persuadidos que os missionários só transavam naquela posição.
Nesta ordem de idéias, está faltando um estudo bem refletido sobre a ?Antropologia do Restaurante a kilo?. Na Europa come-se sentado, nos EUA almoça-se de pé (uma das coisas surpreendentes, e significativas, é a ausência de um restaurante minimamente qualificado no Dulles Airport, principal aeroporto de Washington; só há fast-foods com mesas meio sujas de restos de comida; para fazer uma refeição sentado, com garfo e faca, toalha e guarnapo de tecido na mesa, atendido por um garçom oferecendo cardápio, vinho ou cerveja, é preciso mudar de prédio e andar quilômetros até um restaurante que serve um filé esquisito com um molho adocicado do Kentucky).

Os restaurantes a kilo de Copacabana representam uma situação intermediária entre a européia e a americana: a refeição é feita nas mesas, mas as pessoas parecem estar sentadas na beira na cadeira. Prontas para cair fora logo que ingurgirtarem a mistureba mal pesada que amontoaram no prato.
Depois que o Rio de Janeiro deixou de ser capital federal, sofrendo as consequências de uma mudança ?porra louca? -, como classificou recentemente a grande Fernanda Montenegro -, o Brasil perdeu um pouco o seu eixo. Nunca mais haverá no país uma cidade que seja, ao mesmo tempo, capital política, cultural e econômica. Copacabana mantém um pouco da centralidade nacional que antes encobria o Rio de Janeiro inteiro.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 13h48
[   ] [ envie esta mensagem ]



Padres louros e padres negros
Do quadro de Perugino, Ritratto di Don Biagio Milanesi e di Don Baldassarre Vallombrosano, 1500, Galleria degli Uffizi, Florença.

Matéria da Folha de São Paulo do dia 25.03.2007, assinada pelo repórter Leandro Beguoci e intitulada ?Alemães? ganham força na Igreja brasileira, dizia o seguinte :
D. Odilo Scherer é o terceiro arcebispo seguido de São Paulo que nasceu em uma família de origem alemã do Sul do Brasil...Como deve receber em breve o título de cardeal ... consolidará a imigração germânica como a maior produtora de religiosos para o alto escalão católico ... Dos 17 cardeais que o Brasil já teve, cinco têm origem alemã. Dos oito cardeais brasileiros vivos, quatro têm parentes germânicos. Os italianos, que chegaram em maiores levas, possuem apenas dois? »
E os africanos, cara-pálida? Que chegaram bem antes, em maiores "levas" ainda? Há 16 mil sacerdotes católicos espalhados nas 250 dioceses que cobrem o território nacional. Deste total, cerca de 12 mil são brasileiros e 4 mil estrangeiros. Dentre os 12 mil padres brasileiros, o número de afrodescendentes é de apenas mil, ou seja, 8,3%, num país em que os mulatos e negros (pretos e pardos, na terminologia do censo do IBGE) representam 45% da população. Nem vale a pena procurar a proporção de arcebispos e cardeais negros, descendentes dos africanos que começaram a desembarcar na Bahia 300 anos antes dos colonos alemães se fixarem no Sul: ela é insignificante.
Para uma instituição que chegou há cinco séculos anos no Brasil com a finalidade de salvar todos os filhos de Deus, a Igreja registra um enorme atraso no combate às discriminações que ela ajudou a estabelecer. Está ai um tema sobre o qual os católicos e o clero nacional deveriam meditar, às vésperas da chegada no Brasil do papa alemão Bento XVI, que está europeizando ainda mais a Igreja. Também servirá de reflexão para os espíritas, maçons, umbandistas, ateus e os que acordam todas as manhãs crentes que não há racismo no Brasil.
Os dados que citei foram tirados de um artigo que publiquei no
Nomínimo há algum tempo (os links do artigo estão pifados).


Escrito por userID: 996844918102firstName: às 09h36
[   ] [ envie esta mensagem ]



Bye, bye, Chirac!
Outro dia, Jacques Chirac anunciou que não se recandidatava à presidência. Talvez, ele ainda descole um posto importante numa organização internacional. Mas, para todos os efeitos práticos, na França, sua carreira política terminou. Foi um longo percurso. Gente da minha geração passou sua vida inteira de adulto assistindo as peripécias de Chirac na política francesa. Na sua despedida, ele fez um discurso emocionado e comedido. Contudo, não deixou de enfatizar suas convicções anti-racistas, conclamando os franceses a rejeitarem toda forma de discriminação étnica ou cultural. Em seguida, os canais de TV chamaram os principais candidatos às presidenciais para comentar o discurso. Todos, salvo Le Pen (o qual disse que Chirac era o « seu pior inimigo », frase que deve ter sido recebida como um elogio por muitos chiraquianos), exprimiram consideração pelo presidente. Só não entendi porque Ségolène não retomou -, para endossar e acentuar -, o ataque de Chirac ao racismo e à intolerância cultural. Confesso que, nestas horas, me dá descrença e irritação com a candidatura dela.
Dentre os artigos que li a respeito da despedida, creio que um editorial do Boston Globe, retomado pelo
Herald Tribune, destaca-se, exprimindo bem o ponto de vista "New England" sobre o presidente francês.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 20h10
[   ] [ envie esta mensagem ]



O final do tráfico negreiro britânico e o Brasil
Auguste Biard, Esclaves sur la côte ouest-africaine, 1840 , Wilberforce House, Kingston upon Hull Museum and Art Gallery, Hull (Inglaterra)
A BBC criou um sítio ? em espanhol e em inglês (mais completo) - sobre os 200 anos da abolição do tráfico negreiro britânico, em 1807. A Folha de S. Paulo publicou no dia 24/03 comentários de historiadores brasileiros sobre este bicentenário (assinante UOL clique aqui). Voltarei ao assunto. No meio tempo, deixo aqui um artigo que publiquei no Estadão, em 17/04/2005, sobre o pedido de perdão de Lula aos africanos, na ilha de Gorée (Senegal), por causa do tráfico negreiro.
Um pedido de desculpas para ficar na história
"A viagem do presidente Lula à África tomou um tom mais simbólico durante a visita à ilha de Gorée, no Senegal, e à Casa dos Escravos. Neste local, venerado como centro da deportação dos escravos, o presidente Lula - acompanhado pelo presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, e pelo ministro Gilberto Gil - emocionou-se e declarou: "Eu queria dizer ao presidente Wade, ao povo do Senegal e da África que não tenho nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu nos séculos XVI, XVII e XVIII, mas que é uma boa política dizer ao povo do Senegal e da África perdão pelo que fizemos aos negros".
Trata-se de um pronunciamento histórico, da parte do presidente do país que conta com a maior população de origem africana fora da África. Por isso, torna-se necessário situar o evento numa perspectiva mais longa. Note-se algo curioso. Visitada por milhares de pessoas, e pelos presidentes Bush (filho) e Clinton, pelo papa João Paulo II e por Mandela, a Casa dos Escravos tem uma história bizarra. Muito provavelmente, o prédio serviu de depósito de escravos, mas nunca foi - como se pretende - o ponto central do fluxo contínuo de escravos para as Américas. Aliás, não é preciso andar muito para esbarrar em incoerências. Enquanto o curador da Casa dos Escravos conta que 40 milhões de cativos foram embarcados dali, o Museu Histórico de Gorée, situado pouco adiante e dirigido por historiadores sérios, apresenta a cifra aceita pela maioria dos pesquisadores -perto de 10,5 milhões de escravos saídos de toda a África para as Américas. De qualquer modo, o lugar tornou-se um símbolo que ultrapassa a veracidade factual: é ali que os afro-americanos e as pessoas de boa vontade se recolhem para meditar sobre a tragédia do tráfico negreiro.
Luanda
Há outros portos mais relevantes que permanecem apagados da memória. Como a ilha de Luanda, na frente da capital de Angola.Centenas de milhares de escravos foram embarcados ali, geralmente para o Brasil, fazendo da região o mais movimentado porto negreiro da África. Mas pouca gente sabe disso, e o lugar é freqüentado por turistas em busca de suas praias. Nesse sentido, a Casa dos Escravos guarda toda a sua importância. Em novembro de 2003, quando visitou Luanda, o presidente Lula fez um discurso mencionando o drama dos escravos angolanos trazidos para o Brasil e os "laços de sangue" unindo nossos povos. Na mesma viagem, deu declarações sobre o peso da escravidão no Brasil, quando esteve em Moçambique. Mas as frases se perderam nas entrelinhas dos jornais.

É preciso notar que Angola foi visitada por outros dois presidentes brasileiros. Mas nem Sarney (em 1989), que fizera um discurso corajoso sobre a escravidão no centenário da Abolição, em 1988, nem Fernando Henrique (em Luanda, em 1996), autor de um importante livro sobre o escravismo, manifestaram-se sobre esse tema tão candente. Outra foi a atitude do presidente Clinton, que, em sua viagem a Uganda (1998), pediu desculpas pelo envolvimento dos norte-americanos na escravização dos africanos.
EUA e Brasil
Ora, comparado com o Brasil, o comprometimento norte-americano no tráfico negreiro foi muito relativo: os EUA receberam perto de 600 mil escravos africanos (6%), enquanto o Brasil é o maior beneficiário do tráfico, com perto de 4 milhões de indivíduos (40% do total). Mais ainda, os colonos do Brasil, desde o século XVII, e os brasileiros propriamente ditos, de 1822 a 1850, tiveram participação ativa no saque direto dos povos africanos, sobretudo em Angola. Só os colonos do Brasil tiveram essa implicação na pilhagem negreira. Só o Brasil, como nação independente, foi tão fundo no tráfico e na escravidão. O fato é conhecido dos historiadores e diplomatas. Ao longo de seus cursos no Itamaraty, nossos diplomatas devem ter tido informação sobre a maior encrenca nessa área enfrentada pelo País: o conflito com a Inglaterra em torno da continuação do tráfico negreiro. Embora esse comércio fosse ilegal, e considerado ato de pirataria pelas leis brasileiras, havia gente como o senador mineiro Bernardo Pereira de Vasconcelos - eminente pai da Pátria - achando que permanecer importando escravos era assunto de soberania nacional. Faltava, portanto, um pronunciamento oficial sobre o assunto em solo africano. Faltava um gesto significativo para marcar o sentimento já expresso pelo presidente Lula em sua precedente viagem à África. O local escolhido foi a ilha de Gorée, tudo bem. Mas a fala - que deveria ter sido bem preparada -saiu enviesada. O presidente eximiu-se pessoalmente ("...não tenho nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu nos séculos XVI, XVII e XVIII"). Obviamente, o indivíduo Lula não tem nada a ver com o que ocorreu em qualquer parte do planeta antes de sua maioridade. Mas deveria ter assumido seu papel de presidente de um país escravista e negreiro durante mais de três séculos. Contudo, Lula concluiu de maneira generosa: "Essas pessoas (os africanos) e seu sofrimento ajudaram a construir o meu país. Se não fosse a miscigenação, não teríamos o povo maravilhoso que é o brasileiro". O presidente poderia ter dito um pouco mais. Conservadas as atuais projeções demográficas (declínio da natalidade da população branca e queda mais lenta da natalidade dos negros e mulatos), o Brasil será, dentro de duas décadas, uma nação composta majoritariamente por cidadãos descendentes de africanos. Fechar-se-á, assim, um ciclo: antes de 1850 também éramos uma nação formada em sua maioria por negros e mulatos.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 20h01
[   ] [ envie esta mensagem ]



Yes, we have sugarcane!!! 4
"Game Boys", de Peter Howson, 1991, Coleção Particular, Londres

Vivemos numa época extraordinária!
Um dia após o presidente da República saudar os usineiros como « heróis nacionais e mundiais », agentes da salvação da lavoura e do planeta, uma blitz do Ministério do Trabalho descobre cortadores de cana submetidos a uma situação sub-humana numa grande usina paulista. De quebra, o procurador Luís Henrique Rafael, do Ministério Público do Trabalho, disse que esta situação é comum em São Paulo, estado de onde sai 60% da produção nacional de etanol. Dias antes, o ministro do Trabalho tentou moderar a barra dos usineiros, burladores contumazes da legislação trabalhista, dizendo : ?são situações residuais, porém inaceitáveis ». E advertiu « "Os empresários brasileiros precisam ficar atentos: qualquer repercussão negativa no mercado de trabalho poderá significar restrições para exportações de nossos produtos ».
Tudo isso porque o The Guardian falou do estatuto de quase ?escravos? em que viviam os cortadores de cana no Brasil. Acusação imediatamente rebatida pelo embaixador brasileiro em Londres.
Vem logo à cabeça o paralelo com a pauleira internacional -, e as cacetadas da imprensa inglesa -, que o Brasil enfrentou entre 1831 e 1850 quando era o único país independente praticando a
pirataria negreira . Durante algum tempo, o açúcar brasileiro foi sobretaxado nas alfândegas britânicas porque era « slave-grown sugar » (cultivado por escravos), e não o « free-grown sugar » (produzido por lavradores livres). O assunto era polêmico na própria Inglaterra, mas acabou levando o Brasil a extinguir o tráfico negreiro em 1850. O chanceler Amorim deve ter se lembrado disto tudo porque, segundo consta, o assunto é estudado no Instituto Rio Branco.
A frase chave do entrevero foi proferida pelo então chanceler inglês, Lord Palmerston, em 1848, na CPI sobre o tráfico negreiro no Parlamento de Londres: « No Brasil, a quantidade de terras que podem ser cultivadas se houver uma oferta ilimitada de trabalho, é incalculável. É um grande equívoco acreditar que o temor de tumultos sociais pode levar os brasileiros a reduzir a importação de escravos africanos. Tais perigos só teriam efeito quando atingissem uma dimensão capaz de fazer o governo brasileiro reagir. No meio tempo, nossa produção de açúcar das Antilhas [britânicas] já teria sofrido o impacto do enorme aumento da produção de açúcar brasileira ».Ou seja, os ingleses achavam que se deixassem o Brasil produzir açúcar barato, de qualquer jeito, com o braço africano, decretavam a falência de seus canaviais na Jamaica, onde a escravidão já havia sido abolida.

Não era só por filantropia que eles se opunham ao tráfico negreiro. Mas sua ação ajudou a acabar com esta barbaridade em nosso país. O ministro Luiz Marinho, líder sindical e proeminência petista, poderia lembrar este precedente histórico aos usineiros.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 13h40
[   ] [ envie esta mensagem ]



Austrália e Brasil
Notícia de hoje da Reuters, diz que um autor australiano, Peter Trickett, publica um livro Beyond Capricorn, provando que os portugueses foram os primeiros europeus a descobrir a Austrália.
O jornal
The Sydney Morning Herald diz que a notícia é ?surpreendente?.
Não há nada de surpreendente num fato praticamente demonstrado pelos
historiadores e que deu até lugar a um selo dos correios portugueses em 1999. Nem tampouco esta descoberta da Austrália foi ?secreta?, como se pretende agora.
Num artigo com o título ?Descobrir o que??publicado na Veja em 01/09/1999, a respeito do descobrimento do Brasil, comentei :
?Os festejos dos 500 anos podem ser vistos de ângulos diferentes... O sucesso de alguns livros recentes abre debates interessantes. O lado negativo é a reiteração de alguns mal-entendidos desfeitos há tempos. O mais tenaz destes mal-entendidos consiste em considerar ?descobrir? como sinônimo de ?chegar primeiro?. Descobrir, entre os séculos XV e XVII, significa dispor dos meios e dos fins da colonização. Significa, muito concretamente nos países ibéricos, levar a palavra de Cristo aos pagãos e o comércio europeu ao ultramar. Evangelizar e comerciar: os objetivos estão ligados. Dava para fazer comércio ou servir de escala à rotas mercantis, tudo bem. Se não dava, deixava-se cair.
Os portugueses foram certamente os primeiros a chegar na Austrália, logo no século XVI. Mas preferiram ficar a 258 milhas dali, em Timor, onde ganhavam dinheiro com o comércio do sândalo. Duzentos e cinqüenta anos mais tarde, os ingleses ?descobriram?, isto é, ocuparam pra valer, a Austrália. A sinonímia entre ?descobrir? e ?chegar primeiro? nasceu no final do século passado, na corrida imperialista na África e na Ásia. Para os exploradores franceses e ingleses, chegar primeiro, fazer um arreglo com o régulo nativo local e plantar a bandeira da França ou da Inglaterra, era fundamental para selar o descobrimento de áreas sem soberania definida. Correndo atrás, vinham o exército e a marinha de guerra para consolidar a posse de sua respectiva bandeira. O fato que navios espanhóis ou franceses tenham tocado anteriormente o litoral brasileiro não significa grande coisa: quem veio e ocupou pra valer foram os portugueses depois da viagem de Cabral ».
Voltei ao assunto, nos exatos 500 anos do Descobrimento, na
Folha de São Paulo, com uma conclusão que ainda está na ordem do dia :
« Geralmente, o capital histórico alegadamente acumulado no passado é mobilizado para levantar as hipotecas que pesam sobre o presente. O postulado é sempre mesmo: tivemos um passado promissor, portanto somos a Terra da Promissão.
Tem havido no debate sobre o Descobrimento um ocultamento do óbvio: a expansão do comércio ocidental impulsionou as explorações ultramarinas. Gente realista, os portugueses não iriam atravessar o oceano para balizar matagais só porque mais tarde ali haveria um país chamado Brasil e uma nação de brasileiros.
Como escrevi alhures, os portugueses foram certamente os primeiros a chegar à Austrália, logo no século XVI?.
Para todos os efeitos práticos, o Brasil teve um papel bastante secundário durante o apogeu da economia portuguesa na Ásia. Nas 1.102 estrofes de "Os Lusíadas" (1572), Camões só faz duas curtas referências à Terra de Santa de Cruz.
O fato é que a busca de certezas no passado reflete as dúvidas sobre o presente. O país enfrenta hoje uma crise de identidade gerada por vários problemas: o impacto da globalização sobre uma comunidade nacional esgarçada pelas diferenças regionais e sociais; décadas de frustrações sobre reformas políticas e econômicas; o desdobramento das migrações regionais em imigrações internacionais: pela primeira vez em nossa história, um número crescente de brasileiros, cansado de viver no "país do futuro", vai viver noutro país para realizar seu futuro. Nesse contexto, apesar de tudo, é preciso pensar também no nosso difícil passado. Um passado que soa como uma advertência quando é assim resumido: a história do mercado brasileiro, amanhado pela pilhagem e o comércio, é longa, mas a história da nação brasileira, fundada na violência e no consentimento, é curta.
Ser mercado ou ser nação, eis a questão?.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 12h02
[   ] [ envie esta mensagem ]



Ainda sobre Bush e a América Latina
Lula trazendo a cana-de-açúcar brasileira para Bush salvar o planeta

Conor Foley,especialista em Direitos Humanos e membro de uma ONG britânica, publica um blog no The Guardian em que faz comentários refletidos sobre o Brasil, onde reside atualmente. O último blog trata da violência. O penúltimo tinha como tema a frase de Lula sobre ?a busca do ponto G?, no encontro com Bush. Tanto o texto como as opiniões dos leitores do blog são muito interessantes.
No Estadão de hoje, também abordo este assunto num comentário geral sobre a viagem de Bush à América Latina.

O título do artigo é de responsabilidade da redação do jornal.
Decidida meio de surpresa, a visita de Bush a São Paulo começou criando mal-estar... em Berlim. De fato, a imprensa alemã lamentou a ?falta de sorte? que fizera o presidente Horst Köhler desembarcar no Brasil na véspera da chegada do presidente Bush, centro de todas as atenções. Porém, a despeito de seu caráter inesperado, a presença de Bush no Brasil não obstou a visita oficial de Lula aos EUA e sua presença em Camp David, no dia 31 de março. Desde logo, a proximidade inusitada dos dois encontros imprime um destaque particular ao atual estágio das relações entre os dois países.

Para continuar a leitura clique aqui.

P.S. A ilustração do post é tirada de uma imagem do blog de Alexandra von Maltzan All Things Beautiful. Ela mesmo adaptou o quadro 'Alegoria da Paz de Pressburg' do italiano Andrea Appiani, de 1808, retratando Napoleão e Josefina, para colocar o rosto de Bush, de Condoleezza, e de Angela Merkel no lugar onde ponho o rosto de Lula. Resultou então este quadro com título que sugiro acima.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 02h26
[   ] [ envie esta mensagem ]



Presidenciais na França: as razões do desengano
Tem sido notória a instabilidade eleitoral francesa. Nas presidenciais de 2002, todos os institutos de sondagem se enganaram no primeiro turno: Le Pen, e não Jospin, passou para o segundo turno vencido por Chirac com 82% dos votos. Porcentagem que por sí só já mostra a dimensão do disparate eleitoral. Agora surgem outras incertezas: três candidatos, Ségolène, Sarkozy e Bayrou embolam no final.
Alguns pontos para comprender o imprevisibilidade das presidencias francesas desde de 2002.
Em primeiro lugar, apesar de haver muitos candidatos, a equação das presidenciais tinha basicamente 4 parceiros: à direita, os gaullistas e os centristas, à esquerda, os socialistas e os comunistas. No segundo turno os dois eleitorados se juntavam em torno de seus respectivos líderes: a direita elegia gaullistas (De Gaulle em 1965, Pompidou em 1969, Chirac em 1995) ou centristas (Giscard d?Estaing em 1974), e a esquerda elegia socialistas com os votos do comunistas (Mitterrand em 1981 e 1988). Ao longo dos anos 1990, o Partido Comunista desabou, perdendo grande parte de seu eleitorado que constituia o tanque de reserva do candidato socialista no segundo turno.
O jogo agora tem essencialmente três parceiros, com os socialistas captando, sozinhos, a maioria dos votos de esquerda. Na extrema-esquerda, como na extrema-direita, um certo número de candidaturas congelam o voto de eleitores posicionados contra o sistema político ou ultra-nacionalistas, os quais, em boa parte, votam nulo ou se abstém (o voto não é obrigatório no país) no segundo turno.
Em segundo lugar, é preciso levar em conta os efeitos da vitória do ?não? no referendo sobre a Constituição Européia, em 2005, que tirou o rumo dos partidos políticos. De fato, a direção dos três grandes partidos políticos e praticamente toda a grande imprensa, incluindo Libération, havia pregado o voto pelo ?sim?. Desde então as direções partidárias estão inseguras sobre a orientação de seus filiados. Libération também pagou um preço por este desencontro com boa parte de seus eleitores, e este é um dos motivos da saída de Serge July da direção do jornal.

Os eleitores de esquerda que se abstiveram em 21 de abril de 2002 (quando Jospin foi eliminado no primeiro turno e Le Pen passou para o segundo turno) ou votaram ?não? no referendo de 2005 sobre a Constituição Européia, ficaram pendurados na brocha. No plano nacional, não houve um agrupamento da extrema esquerda francesa. No plano europeu, o ?não? acabou paralizando a construção européia e não deu em nada.
Desde logo, ninguém sabe direito o que vai acontecer nas eleições de abril.

O problema inédito de Ségolène Royal será o de carregar, praticamente sozinha, uma maioria eleitoral do primeiro para o segundo turno. No campo da direita, vai haver, a partir desta semana, um pega-pra-capar. Tudo indica que se Bayrou chegar ao segundo turno, ele reunirá os votos da direita e vencerá Ségolène. Mas ele perde a eleição se for para o segundo turno contra Sarkozy, pois não terá a maioria dos votos de esquerda. Além disso, seu eleitorado é mais volátil do que o dos outros dois candidatos e poderá, em parte, escolher Sarkozy no segundo turno. Assim, Bayrou deverá, a partir de agora, atacar prioritariamente Sarkozy. Ségolène poderá tirar proveito desta pauleira? Voltarei ao assunto.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 06h08
[   ] [ envie esta mensagem ]



Yes, we have sugarcane!!! 3
Os agarrões e abraços de Bush e Lula estampados nos jornais brasileiros e de boa parte do mundo, podem dar a impressão que o Brasil chegou lá, armado em aliado preferencial do rei do universo. Mas é preciso tomar em conta o inapelável desgaste que está minando Bush nos Estados Unidos.
Assim, no seu editorial de hoje, o
New York Times pede a demissão de Alberto Gonzalez, o ministro da Justiça dos EUA, e dá uma tremenda cacetada no latino que ocupa o mais alto posto na administração americana. Acusando Gonzalez de emprestar legalidade aos procedimentos anti-constitucionais de Bush, o NYT escreve sobre este ex-advogado do presidente americano: ?Ele nunca cessou de ser consiglieri da presidência imperial de Bush?.
Como os leitores de Mario Puzzo sabem e o dicionário American Heritage explica (basta clicar duas vezes sobre a palavra no texto do NYT), consiglieri tem nos EUA um sentido preciso: ?um conselheiro, particularmente para um capo ou líder de uma organização criminosa?.
Ou seja, o NYT sugere que a presidência de Bush se assemelha a uma organização mafiosa.

Depois de pagar o mico da guerra no Iraque, o presidente começa a ser cobrado pela restrição das liberdades civís perpetrada nos seus dois mandatos sob pretexto de luta contra o terrorismo.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 12h09
[   ] [ envie esta mensagem ]



Yes, we have sugarcane!!! 2
Estive no Rio e em São Paulo nas duas últimas semanas. Um jornal pediu-me a entrevista abaixo que acabou não sendo publicada.
Retomei o assunto, na quinta, no UOL News (Chávez é o principal motivo da visita de Bush ao Brasil; reunião sobre álcool é "pretexto"). Hoje, sexta, saiu na Folha uma entrevista de Joseph Stiglitz que vai nesta mesma direção (Preocupação política, e não álcool, traz Bush ao país, afirma Stiglitz).
Eis o texto de minha entrevista:
- Qual o interesse do Brasil nessa visita de Bush ao país? Qual o interesse dos EUA na visita?
A visita de Bush ao Uruguai e à Colombia tem a ver com os acordos bilaterais entre os EUA e os dois países, que devem ser aprovados pelo Congresso antes de 1° de julho, quando acaba o privilégio presidencial do fast-track (aprovação rápida dos tratados comerciais). A ida ao México é a primeira visita oficial de Bush a seu vizinho depois da eleição do presidente Felipe Calderon. O arrocho das medidas anti-imigratórias americanas atinge diretamente o México, e os dois chefes de Estado tem muito o que discutir. A visita ao Brasil, anunciada de supetão e sem entendimento prévio com o Itamaraty (a ponto de atropelar a visita do presidente da Alemanha), é alegamente motivada pelo interesse dos dois países no etanol e nos biocarburantes. Mas é óbvio que Bush busca prestigiar Lula para travar a crescente influência de Chavez na região.
- É possível antever uma aproximação maior entre os dois países nesse segundo mandato de Lula? Quais os ganhos políticos para Bush que podem estar em jogo nessa visita? Lula ajuda seu colega americano a ter um discurso "ecofriendly" ao aceitar essa visita/agenda do etanol?
Com o desgaste da guerra no Iraque e a maioria democrata no Congresso, a margem de manobra de Bush se reduziu muito. Já está claro que o fast track não será renovado pelo Congresso em julho. Bush também deve abandonar sua política em favor grandes companhias de petróleo, criticada pelos democratas, e já admite que o aquecimento planetário é um problema grave. A diplomacia do etanol cai como uma luva para lhe proporcionar uma agenda internacional positiva. É claro que isso também favorece a diplomacia brasileira. Neste contexto, as recentes críticas dos embaixadores tucanos ao ?anti-americanismo? do Itamaraty estão sendo cruelmente desmentidas pelos fatos.
- O país pode ganhar algo economicamente com essa história? É possível fazer barganhas em outros campos das negociações comerciais internacionais?
Claro que sim! A recente chiadeira de Chirac, que criticou Peter Mandelson, o negociador da União Européia na OMC, dizendo que ele não defendia os agricultores europeus, e do ministro da Agricultura francês, classificando o agro-negócio brasileiro de ?predador?, explica-se pela perspectiva de uma aliança entre o Brasil e os EUA contra o protecionismo agrícola europeu e, sobretudo, francês, na Rodada de Doha.
- Como fica a relação do Brasil com Venezuela e Bolívia, no caso de uma maior aproximação com os EUA? É possível a Lula se equilibrar entre uns e outros sem mudanças maiores nas relações com Chávez e com Morales?
Acho que o Brasil deve prestar mais atenção em Morales do que em Chavez, o qual, afinal de contas, atiça a onça de longe e nunca interrompeu o fornecimento de petróleo aos EUA. Morales governa um país dividido entre oposicionistas cruceños, das zonas da rica província de Santa Cruz, e os governistas das zonas pobres dos altiplanos do oeste. Em dezembro, Morales atacou o ?separatismo? dos cruceños. Os governistas acusaram o Chile de favorecer os ?separatistas? e Chavez ameaçou intervir para defender Morales. Se a situação não se acalmar, teremos na nossa fronteira uma crise internacional para ninguém botar defeito.
- É correta a leitura de que há um acirramento das tensões na América do Sul, expressa principalmente nas relações entre Colômbia (e EUA) e Venezuela? Em caso positivo, o que cabe ao Brasil fazer?
A Colômbia vai assinar um acôrdo bilateral de comércio com os EUA, mas tem procurado tranquilizar Chavez e o novo chanceler colombiano, Fernando Araujo, deu declarações conciliatórias com relação à Venezuela. De todo modo, o Brasil tem fronteiras comuns com os dois países e, neste caso, como também no contencioso entre o Uruguai e a Argentina, não pode nem deve assumir posições de arbitragem. Isso é coisa para ser resolvida pelo Grupo do Rio, a OEA e outras instâncias internacionais.


Escrito por userID: 996844918102firstName: às 17h38
[   ] [ envie esta mensagem ]



Yes, we have sugarcane !!! 1
O Brasil em geral e São Paulo, em particular, saúda a chegada de Bush e a possibilidade de um acordo americano-brasileiro a respeito do etanol. Lula exulta e vê no etanol a salvação da lavoura, do Brasil e do mundo.
No entanto, quem conhece a história do Brasil e das regiões caribenhas, ou seja, do conjunto da América Negra, sabe como a grande lavoura açucareira carrega uma tradição de escravismo, de trabalho compulsório, de exploração de assalariados e de ruína do meio ambiente. Sabe também como esta atividade deu lugar às oligarquias mais atrasadas de nosso país e a um mandonismo regional autoritário e tinhoso.
Durante séculos, senhores de engenho e usineiros viveram pendurados em subvenções governamentais. Desde o início da colonização, a Coroa estabeleceu regras que davam um estatuto corporativo à açucarocracia colonial. Assim, o ?privilégio de senhor de engenho? protegia os senhores de engenho contra o arresto de seus escravos por seus credores. Paralelamente, as matas e rios eram destruídos pela expansão dos canaviais e o despejo do vinhoto. Fenômeno descrito num livro pioneiro e pouco conhecido de Gilberto Freyre,
Nordeste (1937).
Quando foi lançado o Pró-Alcool, muitos analistas exprimiram opiniões pessimistas, prevendo mais destruição do meio ambiente, extensão da monocultura e do proletariado rural. De lá para cá, resolveu-se boa parte do problema do vinhoto, que agora pode ser transformado em adubo. Mas os
estragos ambientais e sociais continuam.
O trabalho do cortador de cana, pago por ?tarefa?, isto é, pela quantidade de cana cortada, constitue uma forma precária de assalariamento que dá lugar a uma exploração vergonhosa. Fazendo gestos repetitivos no caloraço, mal alimentados, sem atendimento médico, os cortadores de cana adoecem e às vezes morrem de cansaço. O aumento das exigências produtividade intensifica a cadência do trabalho.
Pedro Ramos, um pesquisador da Unicamp, afirma que muitos dos cortadores de cana ?são trabalhadores em um regime de escravidão disfarçada?.

Segundo ele, nos anos 80, um trabalhador cortava quatro toneladas e ganhava o equivalente a R$ 9,09 por dia. Hoje, corta na média 15 toneladas e ganha cerca de R$ 6,88 por dia. Em São Paulo, 400.000 homens e mulheres trabalham no corte de cana. No Brasil o número chega a um milhão.
Num país presidido por um ex-sindicalista, num governo dirigido pelo Partido dos Trabalhadores, é escandaloso que o assanhamento em torno do etanol não venha acompanhado de garantias trabalhistas que libertem os cortadores de cana da situação quase medieval em que vivem atualmente.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 09h06
[   ] [ envie esta mensagem ]



Olhar devagar
A foto não é desconhecida nem recente.
De autoria do fotógrafo Luiz Morier, ela foi publicada n' O Jornal do Brasil e ganhou o
Prêmio Esso de Fotojornalismo de 1983. Paulo Henrique Amorim, que era chefe de redação do JB na época e pôs a foto na capa do jornal em 29.09.1982, lembra do "choque" então causado. Numa entrevista à ABI, Luiz Morier descreveu as circunstâncias da cena retratada.
Enquanto escrevia a resenha do livro Elite da Tropa (de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel), ela me veio à memória. Falei disso a dois amigos e ambos identificaram imediatamente a foto. Talvez, porque ela tenha sido republicada, aqui e ali, na imprensa brasileira. Talvez, e sobretudo, porque é um documento impressionante.
O jornalista e universitário Fernando Conceição explica melhor o assunto num texto publicado em 1999, no jornal baiano
A Tarde
Soube-se posteriormente -, e ficou provado -, no quadro de um documentário apresentado pela rede Cultura/TV Educativa, que nenhum dos homens amarrados era criminoso. Todos eram trabalhadores sem antecedentes penais.
Mas eram negros, moravam numa favela e -, por isso -, foram considerados ?marginais?: o PM atou-os uns aos outros.
São, na realidade, sete pessoas detidas. Não dá para ver direito porque a silhueta parruda do PM tapa dois indivíduos amarrados no lado esquerdo, e há um outro puxando a fila.
Com carranca de capitão do mato, o PM segura uma das pontas da corda, como se estivesse esperando mais um pescoço para enlaçar. Não deve ter sido nem a primeira nem a última vez que ele usou este expediente. Seu rosto não tem a sombra de uma dúvida ou de constrangimento pela presença do fotógrafo. Ele acredita no que faz. Seus nós são bem atados em volta dos pescoços.
Os três homens do meio olham para o chão. O quarto procura um vago horizonte que o tire fora da humilhação. Com seu penteado afro ? comum na época ? ele leva um jeito meio rastafari, meio guerrilheiro africano. As canelas dos dois que estão de calção parecem meio raladas. Será que eles caíram enquanto desciam do morro enfieirados? Será que foram derrubados no momento da prisão?
De dorso nu, um deles olha desconsolado para a camisa que a corda no pescoço não lhe permite vestir, para a camisa que recobriria um pouco de sua vergonha. Quem lha terá dado? Sua filha, sua mulher, quando foi arrancado de sua casa e amarrado ? Ou terá sido alguém que se compadeceu quando ele passou pela rua atrelado como um animal?
O mato da beira do caminho lembra um canavial. O passado mal sarado de três séculos de escravidão invade a foto e atropela o presente.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 08h14
[   ] [ envie esta mensagem ]



Punir sem encarcerar
Reproduzo a parte da resenha do livro Elite da Tropa que se refere diretamente à foto acima. O texto completo da resenha está na revista Piauí do mês de fevereiro.

?O livro aborda várias vezes o racismo, um problema que envolve a polícia, os bandidos, a sociedade inteira. Sabe-se que um relatório da ONU divulgado em outubro de 2006, indica que os negros representam 70% dos jovens de 15 a 18 anos assassinados no Brasil. Não se trata de um acaso estatístico. Tenho para mim que o racismo pauta, há muito tempo, as práticas de segurança pública no Brasil.
Durante três séculos, nosso país esteve estruturado em torno do maior sistema escravista das Américas. Depois da independência, no Brasil, como no sul dos Estados Unidos, o escravismo passou a ser consubstancial ao State building, à organização das instituições nacionais. Houve, assim, uma modernização do escravismo, para colocá-lo em sintonia com as novas doutrinas ocidentais que regulavam as liberdades públicas. Entre as múltiplas contradições engendradas por essa situação, uma dizia respeito ao Código Penal: como punir o escravo delinqüente sem encarcerá-lo, sem privar o seu proprietário do usufruto de seu trabalho?
Para resolver o problema, o quadro legal foi definido em dois tempos. Primeiro, a Constituição de 1824 garantiu, em seu artigo 179, a extinção das punições físicas constantes nas aplicações de pena do Antigo Regime português. ?Desde já ficam abolidos os açoites, a tortura, a marca de ferro quente, e todas as mais penas cruéis?, e também ?as cadeias serão seguras, limpas e bem arejadas, havendo diversas casas para separação dos réus, conforme suas circunstâncias e natureza de seus crimes?. Conforme os princípios do Iluminismo, ficavam assim preservadas as liberdades e a dignidade dos homens livres.
Numa segunda etapa, o Código Criminal de 1830 tratou da condição dos escravos, os quais representavam uma forte proporção de habitantes do Império. No seu artigo 60, o Código revivia a pena de tortura, a punição sem encarceramento. ?Se o réu for escravo e incorrer em pena que não seja a capital ou de galés, será condenado na de açoites, e depois de os sofrer, será entregue a seu senhor, que se obrigará a trazê-lo com um ferro pelo tempo e maneira que o juiz designar, o número de açoites será fixado na sentença e o escravo não poderá levar por dia mais de cinqüenta?.
Longe de restringir-se ao campo, a escravidão assumia um papel relevante nas cidades brasileiras. Contando, em 1850, 110 mil escravos entre seus 266 mil habitantes, o Rio de Janeiro, capital do Império, reunia a maior concentração urbana de escravos da época moderna. Nesse quadro histórico, a questão da segurança pública e da criminalidade assumia um viés específico.
A contrapelo do postulado foucaultiano sobre a prisão (lugar de fechamento de marginais ou de penas moduladas de privação de liberdade), ensinado acriticamente nos três turnos das universidades brasileiras, o Brasil oitocentista abole a prisão à sua maneira: mantendo a pena de tortura para o escravos. De maneira muito mais eficaz que a prisão, o terror e a tortura pública servem para intimidar os escravos.
Oficializada até o final do Império, essa prática punitiva estendeu-se às camadas desfavorecidas, aos negros em particular e aos pobres em geral. Junto com a privatização da Justiça efetuada no campo pelos fazendeiros, esses procedimentos travaram o advento de uma política de segurança pública fundada nos princípios da liberdade individual e da cidadania.
Do final da escravidão, à foto de Luiz Mortier, publicada n?O Jornal do Brasil em 1982 e intitulada ?Todos Negros? , e até o relatório da ONU de outubro de 2006 e Elite da Tropa, desenha-se a linha vermelha da continuidade histórica?.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 08h10
[   ] [ envie esta mensagem ]



Clint Eastwood em Iwo Jima
Fui ver « Cartas de Iwo Jima », de Clint Eastwood. Mais adiante assistirei ? A Conquista da Honra?, a outra parte da batalha de Iwo Jima, e retomo o assunto.
Desde já, deixo algumas observações sobre ?Cartas de Iwo Jima?. A crítica francesa aprecia o tratamento humanista dos filmes dirigidos por Eastwood e costuma saudá-lo como ?o último grande cineasta clássico de Hollywood?. Seus dois filmes sobre Iwo Jima foram interpretados como uma mensagem anti-militarista. Alguns foram mais longe e viram aí uma crítica à guerra no Iraque, coisa que já me parece uma forçação de barra. Porém,
Libération levantou um ponto essencial: nenhum dos dois filmes faz referência ao período anterior da guerra japonesa.
Ora, o Japão começou seu expansionismo militar anexando a Coréia em 1910, e continuou com a ocupação da China. De 1937 a 1945, na chamada ?segunda guerra sino-japonesa? os japoneses massacraram 11 milhões de chineses. Bombardeio aéreo de civís, escravização e massacre de prisioneiros, estupros generalizados, experiências ?científicas? de contaminação bacteriana de cobaias humanos chineses, ingleses e americanos. Vários chefes militares foram julgados e enforcados por crime de guerra, pelo Tribunal de Tóquio formado pelos Aliados, em 1945 (o equivalente do Tribunal de Nuremberg).
?Cartas de Iwo Jim? retoma a vida de soldados e oficiais antes da guerra. Todos tiveram um percurso pungente e nobre na vida militar ou civil que os leva até Iwo Jima. Um PE é expulso da polícia porque não quer matar o cachorrinho de umas crianças, um oficial era ex-campeão olímpico e amigo de Douglas Fairbanks e Mary Pickford e, enfim, o general gente fina Kuribayashide, interpretado pelo excelente Ken Watanabe, havia sido adido militar nos EUA. Nos flashback deste período americano, ele aparece bem vestido e cheio de pose, como se fosse um diplomata. Contudo, numa pequena
biografia está dito que ele também serviu na Mandchúria e na China, na época em que os militares japoneses praticavam barbaridades inauditas naquelas paragens. Nada disso é sugerido em ?Cartas de Iwo Jim?, onde, mesmo os oficiais mais embrutecidos aparecem vestidos com o manto do patriotismo e da tradição nipônica.
Eastwood decidiu apagar a história criminosa e bárbara do militarismo e do fascismo japonês. Desde logo, tudo se resume ao enfrentamento entre soldados corajosos e martirizados pelas misérias da guerra.
Vamos ver como os críticos de cinema do regime de Beijing, que vive desde 1945 com um revólver apontado para o Japão e outro para os EUA (sem contar os coices trocados de tempos em tempos com a Rússia), reagirão diante do humanismo segmentado de Clint Eastwood.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 11h23
[   ] [ envie esta mensagem ]



Marx e o atraso histórico
A respeito do post abaixo, sobre o « prejuízo? histórico de não ser explorado pelo capitalismo ?, instrumento de desenvolvimento das forças produtivas que abre a via à sua própria superação ?, remeto ao artigo de Marx escrito em 1853.
Ali, ele fala do capitalismo colonial inglês, como o ?instrumento inconsciente? de uma ?revolução social? na Índia.
?O problema é o seguinte: a humanidade pode realizar seu destino sem uma revolução fundamental no estado social da Ásia? Se não, quaisquer que tenham sido os crimes da Inglaterra, ela foi o instrumento inconsciente da história ao encaminhar esta revolução".

Tudo isto e muito mais pode ser encontrado no Arquivo Marxista. Se você não souber basco, turco, esperanto ou vietnamita, pode ler em português. O artigo a que me referi está aqui, mas a tradução em português é ruim, e para quem não sabe alemão, é melhor lê-lo em inglês (ler também a carta de Engels a Marx sobre o mesmo assunto, indicada no cabeçário do artigo).

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 18h09
[   ] [ envie esta mensagem ]



Marx, a França e a Costa Rica

A propósito dos problemas gerados pela ofensiva do grande capital contra Ségolène Royal, vale lembrar a reflexão que ouvi de um sociólogo costa-riquenho, anos atrás no Cebrap:
?Pior do que ser explorado pelo capitalismo, é não ser explorado pelo capitalismo!?.
Trata-se de uma idéia marxista que vale para a França, para o Brasil, para Moçambique, para a Costa Rica e para Cuba, como parece estar descobrindo o grande irmão Raul Castro.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 05h40
[   ] [ envie esta mensagem ]



O "mercado" atira em Ségolène
É isso aí ! Começou a campanha do patronato e dos banqueiros contra Ségolène Royal. No Financial Times, empresários franceses importantes agitam o espectro da fuga de capitais e da fuga de cérebros, caso a candidata do PS se torne presidente. Retomado por jornais europeus e americanos, um artigo da Bloomberg anuncia o aumento do ?risco França? com a candidatura e o programa de Ségolène.
O presidente da Total acusa a proposta socialista de tributar os super-lucros das petroleiras de oscilar ?entre o dogmatismo e o
populismo?. No editorial de hoje, Libération dá uma boa fubecada no dito cujo.
Nestas declarações, haverá alguma matéria de reflexão para os cientistas políticos e economistas que dizem e escrevem, no Brasil e alhures, que não há mais esquerda, nem direita.
Naturalmente, eles terão uma resposta toda pronta, usada pela direita francesa e ocidental desde os tempos de De Gaulle:?a França é a exceção que confirma a regra: um país politicamente atrasado que se veste do mais encardido anti-americanismo?. Aliás, no século XIX já se dizia a mesma coisa, só que a increpação de ?atraso político? vinha associada à anglofobia.
Ainda assim, trata-se de um dos grandes países industrializados e de uma das mais velhas democracias do mundo.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 05h47
[   ] [ envie esta mensagem ]



Ségolène e o socialismo pós-nacional

No post sobre Ségolène Royal, escrevi:«trata-se de uma mulher determinada, com convicções firmes, serão convicções socialistas? este é um assunto que abordarei noutra ocasião ».
Depois do lançamento de seu programa de governo, no domingo, dá para dizer o seguinte: Ségolène retoma o projeto tradicional do Partido Socialista e introduz sua visão pessoal da sociedade francesa. Tal é a análise quase unânime dos analistas nos canais de TV e dos principais jornais
franceses e europeus.
Do projeto socialista, ela guardou as propostas de consolidação do Welfare State francês. Frente às ameaças da globalização e a hegemonia do ?pensamento único? anti-estatista e neo-liberal, não é pouca coisa. De fato, os direitos sociais que Ségolène quer ampliar (aumento do salário mínimo, de aposentadorias, direito à moradia, reforço dos serviços públicos), foram reduzidos ou eliminados na maioria dos países europeus. Donde, a observação desabusada do Financial Times: ?os analistas acham que ela vai continuar os hábitos keynesianos da esquerda francesa, consistindo em lançar impostos e gastos [sociais]?.
Contudo, há outra parte do programa a ser considerada. No plano europeu, ela propõe uma interpretação mais social do Banco Central Europeu (BCE), inscrevendo ?objetivos de emprego e de crescimento econômico? nos seus estatutos. No plano nacional, Ségolène ? filha de um oficial do exército ? insiste em pontos polêmicos: instauração de um serviço cívico para os jovens (não há mais serviço militar na França); centros educativos reforçados, com eventual enquadramento militar, para jovens delinqüentes. Sem excluir uma política mais generosa em relação aos imigrantes (facilidades para naturalização e o voto dos estrangeiros), seu programa prevê a criação de 500.000 empregos subvencionados para os jovens.
Os temas sublinhados são menos contraditórios do que parecem.
Tanto no caso do BCE, como na parte relativa aos serviços públicos, à família e ao civismo, há uma recentragem na preservação dos direitos adquiridos e da a identidade francesa.
Ségolène tira as lições de dois acontecimentos traumáticos. De saída, ela evita o disparate estratégico de Jospin em 2002: no primeiro turno, é preciso ganhar todo o eleitorado de esquerda e, só em seguida, com a presença assegurada no segundo turno, abrir propostas para os centristas. Segolène sabe também que -, desde o maciço ?não? francês no referendo de 2005 sobre a Constituição européia (ver
mapa: em vermelho estão assinaladas as regiões que votaram ?não) -, o país desconfia da União Européia (UE). Daí suas cutucadas no BCE e sua defesa dos valores da família, da cultura e da nação.
No fundo, sua plataforma configura uma candidatura de esquerda pós-nacionalista. O que é ?pós-nacionalismo? francês (palavra que acabo de forjicar)? É a reafirmação dos valores e dos direitos sociais nacionais associada ao contexto do euro e da UE.
Até aqui tudo bem. Resta que, embora sendo boa debatedora, Ségolène é má oradora.
Penso que isso tem a ver com o voto distrital. Fazendo sempre campanha porta a porta, na roça, num distrito ralo de gente, ela nunca precisou botar muita voz nas suas eleições para o Parlamento.
Por isso, vendo Ségolène discursar com sua voz monocórdica e nasalisada, não consigo afastar o mau pressentimento de uma nova derrota da esquerda.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 10h28
[   ] [ envie esta mensagem ]



O PT, a ética e a política nacional
O discurso de Lula na reunião do Diretório Nacional do PT, em Salvador, na semana passada, surpreendeu muita gente.
O estilo da fala, usando metáforas belicistas (?por que a gente não sabe levantar um pouco a metralhadora para atingir os inimigos e atiramos tanto nos nossos pés??, "quem são os inimigos na Câmara e no Senado") pareceu despropositado e pouco republicano.
O conteúdo do discurso, em seguida, baseou-se num argumento inaceitável.
Lula acha que a discussão da crise do mensalão e o questionamento de dirigentes corruptos, corruptores e quejandos -, que humilharam os petistas e os eleitores do presidente -, são ?pendengas internas? que paralizam o PT.
?Infeliz?, foi assim que a governadora do Pará , Ana Júlia Carepa, da corrente Democracia Socialista, classificou estas passagens do discurso de Lula. O deputado José Eduardo Cardozo, do PT de São Paulo, completou: "trocar idéias não é dar tiros, não é matar, não é aniquilar". Ambos são signatários do documento ?Mensagem ao Partido?, organizado por Tarso Genro. Como muitos companheiros, também assinei este manifesto. Como outros tantos, penso que a crise do mensalão pôs em risco o PT e todo o projeto reformista de esquerda duramente construído nos últimos 40 anos.
O texto do documento, como também as outras contribuições ao debate do Diretório Nacional, pode ser lido no
Blog do Noblat.
Faço parte dos que querem -, e disseram
isso a Lula na reunião com os intelectuais em São Paulo, em agosto de 2006 - uma discussão crítica e um repúdio às práticas delituosas da direção do PT.
A este respeito, lembro a declaração definitiva dada ao Estadão por Frei Betto ? que não poderá nunca ser acusado de anti-petismo ou anti- lulismo -, no auge da crise do mensalão, em 24.08.2005.
?Nem sob os anos da ditadura a direita conseguiu desmoralizar a esquerda como esse núcleo petista fez em tão pouco tempo. Na ditadura, apesar de todo sofrimento, perseguições, prisões, assassinatos, saímos de cabeça erguida e certos de que tínhamos contribuído para a redemocratização do país. Agora, não. Esses dirigentes desmoralizaram o partido e respingaram lama por toda a esquerda brasileira.?

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 01h22
[   ] [ envie esta mensagem ]



El sub-imperialismo brasileño
A visita de Bush, no próximo mês de março, ao Uruguai, Brasil, Guatemala e México, sem passar pela Argentina, merece reflexão.
Ana Baron, a correspondente do El Clarín em Washington, que conhece bem o meio político da capital americana, reproduz a explicação dada por um diplomata latino-americano:
?A Argentina não será incluída porque, nem Bush tem especial interesse em voltar a encontrar com Kirchner depois do que aconteceu na Cúpula de Mar del Plata, nem Kirchner tem interesse em reunir-se com Bush, e muito menos no meio da campanha presidencial argentina".
Em Mar del Plata (novembro de 2005), Bush irritou-se com o apoio mais ou menos explícito do governo argentino, à ?Contra-Cúpula? -, cheia de manifestações anti-americanas capitaneadas pour Chávez -, realizada simultâneamente à reunião dos chefes de Estado das Américas.

A viagem de Bush ao Brasil será marcada pela ?diplomacia do etanol?, como diz o editorial da Folha de São Paulo de hoje. De fato, os americanos estão interessados em ampliar a oferta de combustíveis renováveis. Mas -, como escreve o Washington Post -, seria uma ingenuidade esperar que eles reduzam agora, antes das eleições de 2008, a sobretaxa sobre as importações de etanol brasileiro.
No final das contas, a visita do presidente americano ao Brasil vai acentuar a desconfiança argentina, boliviana, equatoriana e venezuelana de que Lula é o aliado privilegiado de Bush na América Latina.
Cedo ou tarde, na Argentina ou alhures, voltaremos a ouvir falar do sub-imperialismo brasileño, conceptualizado pelo sociólogo brasileiro Ruy Mauro Marini, para atingir a ditadura, nos anos 70.

Tentei abordar este assunto numa perspectiva histórica, num artigo escrito no ano passado para o Estadão.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 00h23
[   ] [ envie esta mensagem ]



Media Crisis
Ontem de manhã, na entrada do metrô, havia pilhas de um novo jornal gratuito, MatinPlus.
Não é o primeiro, nem será o último periódico deste gênero, verdadeira praga, a espalhar-se pelas calçadas parisienses. A diferença é que o Le Monde aparece como um dos dois sócios de MatinPlus. Por que o grande cotidiano francês entrou numa parada destas? Para alcançar os leitores matinais de Paris (o Le Monde aparece como um dos raros grandes cotidianos que ainda é vespertino), morder um mercado publicitário específico e, enfim, para atrair, de tabela, novos leitores. Tanto para o próprio Le Monde como para suas publicações associadas (Courrier International, Cahiers du Cinéma). Pelo menos é o que está dito no artigo do editor do
Le Monde.
Nem todo mundo está de acordo.

Libération, matutino e vítima potencial de MatinPlus (cuja tiragem atinge 350.000 exemplares), duvida que ainda haja muito chão neste quadrante do mercado publicitário. O artigo de Libération é meio fatalista. Mas os donos das bancas de jornais saíram para o pau. Hoje, metade das bancas de Paris estavam boicotando a venda do Le Monde. O sindicato da categoria acha que a empreitada prejudica os jornaleiros e dá um tiro no pé dos jornais pagos.
De fato, os tablóides gratuitos criam uma relação tão fuleira com o leitor que viram entulho na hora: lidos nas coxas, eles vão logo para a lixeira da calçada. Donde, a observação feita por um jornalista de Libération: o gesto de trazer seu jornal preferido debaixo do braço, será interpretado, daqui em diante, como um ato de resistência à invasão de jornais grátis.

A outra face do problema aparece na ilustração acima, cartaz do Festival de Cinema de Saint-Denis, banlieue parisiense, cujo tema é a crise da mídia. O título do Festival -, ?Media Crisis? -, vem do livro homonimo do cineasta inglês Peter Watkins, o qual explica a expressão: ?Media Crisis retrata a irresponsabilidade crescente dos mass media audiovisuais e seu impacto devastador sobre o homem, a sociedade e o meio ambiente...?

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 14h01
[   ] [ envie esta mensagem ]



I - A colonização luso-africana no Brasil
Os três posts que se seguem são parte do texto que redigi, a pedido do Ministério da Cultura, para o Plano Nacional de Cultura, apresentado ao Congresso em dezembro de 2006.
'Na época do descobrimento do Brasil, Lisboa, ao lado de Sevilha, era a cidade européia que possuía a mais forte concentração de escravos negros. Nos anos 1550-1560, dentre os 100.000 habitantes que contava a capital portuguesa, havia perto de 10.000 escravos negros ou mulatos. Nos séculos XVI e XVII, desenvolve-se uma cultura luso-africana nas ilhas de Cabo Verde, São Tomé e de Madeira. Assim, os colonos que chegavam no Brasil vindos da Madeira e de São Tomé, e muitos saídos do próprio reino, já compartilhavam modos vida luso-africanos.
Escravos especializados e senhores que migravam de São Tomé ajudaram a implantar a cultura açucareira em Pernambuco e na Bahia. Conectado de início nos portos da Senegâmbia e do golfo da Guiné, o tráfico negreiro se concentra em Angola no século XVII. Por volta de 1600, o total dos desembarques no Brasil completava 50.000 africanos. A partir de então, os enclaves coloniais ganham uma feição luso-africana.
Ambrósio Fernandes Brandão, mercador em Goa e em Lisboa antes de viver na Paraíba, era um dos raros colonos do Brasil dotado de uma visão de conjunto do império português do Oriente e do Atlântico. No seu livro
Diálogos das Grandezas do Brasil, (1618), ele situa as particularidades da colônia sul-americana. Após uma digressão sobre os povos da África, um dos personagens diz o seguinte: ?Não cuido [penso] que nos desviamos de nossa prática, que é tratar sómente das grandezas do Brasil, com nos meter em dar definição à matéria que tendes proposta [a origem dos povos negros]. Porquanto neste Brasil se há criado um novo Guiné com a grande multidão de escravos vindos dela que nêle se acham. Em tanto que, em algumas capitanias, há mais dêles que dos naturais da terra, e todos os homens que nele vivem tem metida quase tôda sua fazenda em semelhante mercadoria. Pelo que, havendo no Brasil tanta gente desta côr preta e cabelo retorcido, não nos desviamos de nossa prática em tratar dela ».
O Brasil é um novo Guiné. A afirmação sublinha o processo de repovoamento colonial. Outros estrangeiros, os africanos, substituem progressivamente os índios nos enclaves coloniais para construir a sociedade ultramarina. Embora submetidos à escravidão, os africanos são co-participantes, ao lado dos portugueses, da colonização do Brasil. Desde 1700, quando 610.000 escravos já haviam desembarcado, os africanos e os negros em geral, fixados nas zonas de maior atividade ecônomica, sobrepujam os colonos europeus e seus descedentes, como também os índios aldeados (concentrados nos aldeamentos controlados pelas autoridades).
A emergência de um polígono mineiro cobrindo o Mato Grosso, Goiás, Pernambuco (em território agora baiano), e centrado em Minas Gerais, muda a sociedade colonial. Este movimento de populações, de construção de caminhos e de pólos urbanos no interior, vincula-se às atividades de 1.700.000 africanos desembarcados no século XVIII. Atente-se para o fato de que o crescimento no interior, e a manutenção da agricultura comercial no litoral, só puderam ser levados a cabo simultâneamente por causa da intensificação do tráfico negreiro. Neste período, todas as regiões da América portuguesa, do Pará ao Rio Grande do Sul, estão conectadas ao comércio de escravos que envolve de novo a Guiné Bissau e se expande no gôlfo de Guiné e em Angola.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 00h58
[   ] [ envie esta mensagem ]



II - O Império e o complô dos seqüestradores
Com a transferência da Corte e a aceleração do processo político que levaria o país à Independência, o tráfico negreiro assume outro patamar. Às zonas africanas citadas acima, junta-se também Moçambique, de onde saem 250.000 escravos que desembarcam sobretudo no Rio de Janeiro. Perto de 1.700.000 africanos são trazidos para o Brasil na primeira metade do século XIX.
Outra característica da formação do Brasil terá sido o envolvimento direto de colonos do Brasil, numa primeira fase, e de brasileiros, depois de 1822, no comércio atlântico de africanos, e na pilhagem dos territórios africanos, principalmente no gôlfo do Benim e em Angola.
Governadores de Angola, oriundos do Rio de Janeiro, de Pernambuco e da Paraíba, levaram para a África Central, na segunda metade do século XVII, associados, soldados e comerciantes que expandiram a ocupação portuguesa e o tráfico de angolanos para o Brasil.
De 1831 a 1856, 710.000 africanos entram no Brasil num circuito de tráfico clandestino prescrito como pirataria pela legislação brasileira e pelo direito internacional. Além do mais, a lei de 1831, proibindo a importação de africanos, declarava livres os indivíduos introduzidos clandestinamente. Em consequência, o art. 179 do Código Penal considerava os proprietários destes escravos como sequestradores de pessoas livres. Posteriormente, em 1850 e 1854, o governo anistiou os proprietários culpados deste crime. Mas ocultou-se o fato que os 700.000 africanos chegados entre 1831 e 1850 -, e seus descendentes -, permaneciam ilegalmente na escravidão. Tirante a ação de alguns advogados e magistrados abolicionistas, o assunto ficará encoberto na segunda metade do século XIX e será praticamente esquecido pelas gerações vindouras.
Resta que este « Grande Complô dos Sequestradores » guarda um significado dramático : a quase totalidade dos indivíduos escravizados a partir dos anos 1840-1850 foi ilegalmente mantida na escravidão até 1888. Moralmente ilegítima, a escravidão do Segundo Reinado foi gerida por proprietários criminosos, graças à cumplicidade do Estado e da sociedade.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 00h56
[   ] [ envie esta mensagem ]



III - Passado e futuro

As circunstâncias que marcaram a deportação dos africanos e sua escravização, pesam no processo de integração dos afro-brasileiros à cidadania. Na verdade, os negros estarão sempre reduzidos a se referir à identidade -, portentosa no seu conteúdo, mas angustiante na sua generalidade -, de sua origem africana.
Carioca da gema e escritor maior da pátria, o afro-brasileiro
Lima Barreto (1881-1922, foto ao lado), deixou registrada no seu Diário Íntimo (publicado em 1953), uma nobre interpretação sobre o desterro dos negros. Escrevendo no auge da política imigrantista, Lima Barreto concluía que os negros e os mulatos -, sendo os únicos brasileiros que não podiam se prevalecer da influência de suas pátrias de origem, pois não tinham para onde voltar porque não sabiam de onde vinham -, eram os que se uniam com mais força ao destino do Brasil.
A propósito da literatura de Lima Barreto, deve-se sublinhar a contribuição africana e afro-brasileira à formação de nossa língua nacional. Até 1850, na maior parte das regiões brasileiras, e nas cidades do Rio de Janeiro, Salvador, Niterói, Campos e muitas outras, a população africana e afro-brasileira sobrepujava a população de origem européia ou indígena.
Desse modo, a língua brasileira contém a presença marcante de várias línguas africanas, geralmente ignoradas pelos dicionaristas. Diferentes dicionários, glossários, manuais e catecismos utilizados pela administração colonial e pelos missionários na África ? elaborados e editados entre o século XVI e o século XX - têm a contribuição de africanos e afro-brasileiros, de moradores do Brasil, onde certas línguas africanas e, em particular, o quimbundo, língua da família banto muito falada em Angola, eram conhecidas e praticadas. Tal tradição torna-se essencial para o entendimento da evolução de nossa língua e para o estudo da História da África, atualmente estimulada nas universidades.
Sem abordar os estudos que descrevem s desigualdades vitimando os afro-brasileiros, convém lembrar os efeitos duradouros da proibição de voto dos analfabetos. Instaurada pela chamada Lei Saraiva em 1881 e mantida até 1985, a exclusão dos analfabetos adultos do processo eleitoral atingiu, certamente, a generalidade da população. No entanto, os estudos demonstram que a população negra, na qual a taxa de analfabetismo era maior, foi proporcionalmente mais vitimada do que a população branca pelo embargo de cidadania resultante desta legislação.
Enfim e sobretudo, perfila-se uma evolução demográfica decisiva. Como é sabido, observa-se um declínio das taxas de fecundida das brasileiras. Mas esta queda é mais lenta no contingente das mulheres negras (incluídas as ?pretas? e as ?pardas?, na nomenclatura do IBGE). Num momento mais ou menos próximo, o conjunto da população afro-brasileira, que já se avizinha da proporção representada pela população branca, passará a ser majoritário.
Em conclusão, voltaremos, nos próximos anos, a ser o que já fomos até 1870, uma nação majoritariamente negra. A maior do mundo num país fora da África.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 00h51
[   ] [ envie esta mensagem ]



Vinhos e globalização


Na época dos Descobrimentos, o fabrico do pão e do vinho eram traços essenciais da cultura européia e marcavam a diferença entre os europeus e os povos ?bárbaros? do ultramar.
Na sua Crônica de Guiné (1455), Gomes Eanes de Zurara narra os contatos portugueses com os negros africanos, na primeira expedição européia que chegou à embocadura do rio Senegal, em 1455. ?Viviam em perdição das almas e dos corpos...: das almas, enquanto eram pagãs, sem claridade e sem lume de Santa Fé; e dos corpos, por viverem assim como bestas, sem alguma ordenança de criaturas razoáveis, que eles não sabiam o que era pão nem vinho, nem cobertura de pano, nem alojamento de casa?.
Padrão cultural do Ocidente desde o império romano, o pão e o vinho se tornaram elementos centrais da missa e do culto cristão. Daí sua necessária usança nas colônias ultramarinas. Por isso, os cronistas seiscentistas e setecentista que faziam propaganda do Brasil (Gandavo, frei Vicente Salvador), salientavam que o trigo e eventualmente a vinha, podiam ser plantados na capitania de São Vicente.
Depois da Independência, a idéia de civilização passava pela introdução de imigrantes europeus e da agricultura européia, e notadamente da vinha e do trigo. Mandioca e cachaça apareceram, durante muito tempo, como os símbolos do "atraso" no Brasil. Seguiu-se o desenvolvimento da cultura do vinho no Rio Grande do Sul e noutras partes do país.
Agora, a imprensa brasileira
saúda o registro na União Européia (UE) da primeira denominação de vinho genuinamente brasileira, a ?Vale dos Vinhedos?. Correspondendo aos vinhos produzidos na região de Bento Gonçalves (RS), esta marca passará a ter exclusividade e proteção legal no mercado europeu.
Completou-se o ciclo histórico? A Europa civilizou o Brasil, e agora o Brasil civiliza a Europa, mandando de volta vinhos ítalos-brasileiros, gaúchos, de tirar o chapéu?
Não é bem assim.
Há uma dura concorrência no mercado mundial de vinhos, opondo, de um lado, a França e a UE, e de outro lado, os países produtores de outros continentes (EUA, Austrália, África do Sul, Chile, Argentina, Brasil, etc.). A UE adota a doutrina francesa que define a qualidade do vinho sobretudo pelas característica do solo, do clima, etc. Daí a estratégia de dar toda proteção legal aos nomes dos vinhedos franceses e europeus já consagrados no mercado. Ao inverso, os produtores de outros continentes dão ênfase à qualidade das cepas das uvas.
Por isso, a UE facilita o registro de vinhos estrangeiros com denominações meio exóticas (para os europeus), como ?Vale dos Vinhedos?.
Em contrapartida, os europeus exigem que nenhum vinho brasileiro pretenda ser do tipo "bordeaux" ou se chame ?Chablis?, ?Pomerol?, ?Pommard? e outros nomes mágicos gozando de um prestígio incontestável no mercado brasileiro e mundial.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 23h14
[   ] [ envie esta mensagem ]



Passado recente: 13,94% = 74
Ontem, numa entrevista em Suape (Pernambuco), publicada pela Agência Estado, Lula fez uma comparação entre o crescimento econômico no seu governo e nos governos de JK e da ditadura.
"Em 1973, o Brasil cresceu 13,94% ao ano, mas o salário mínimo decresceu 3,4%"... "Na época de Juscelino (1956-1961),o Brasil cresceu 7%, mas o salário mínimo não acompanhou".E completou, "o milagre é trabalharmos com responsabilidade para permitirmos não só o crescimento do PIB, mas também a melhoria das condições de vida dos 190 milhões de brasileiros".
Assim, o presidente repetiu em Pernambuco a comparação que fizera em Davos, segundo o relato de Clóvis Rossi na Folha de São Paulo.
Acontece que no discurso de lançamento do PAC, de maneira muitíssimo mais pertinente, Lula havia explicitado a dimensão essencial daquilo que os filósofos da modernidade chamam de "bom governo". De fato, na ocasião ele salientou que o crescimento econômico na sua presidência se fazia em plena democracia e com o reforço das instituições democráticas. Justamente saudada em editorial pela Folha de São Paulo, a fala presidencial foi interpretada como um distanciamento de Chávez, que parece estar preparando uma transição para a ditadura na Venezuela.
Qual o motivo que leva Lula a não aplicar o mesmo critério essencial da democracia na avaliação do passado recente do Brasil? Por que nivelar a ditadura -, regime só comparável a tiranias da mesma laia, precisamente denominadas "regimes de exceção" -, à plena democracia em que vivemos hoje e à legalidade constitucional do governo JK?
Lula desvaloriza sua luta, a luta do PT e de todo o movimento democrático, e deseduca o país, ao misturar governos antagônicos na sua prática e na sua essência.
Fica então o registro de um fato crucial que deveria ser ensinado nas escolas e, principalmente, nas escolas de Economia: com 13,94% de aumento do PIB, 1973 terá sido o ano em que o Brasil mais cresceu. Com arrocho salarial, repressão anti-sindical, censura de imprensa e suspensão de direitos civís, a economia do país aumentou. E 1973, foi também o ano em que houve um ?record? sinistro: 74 opositores à ditadura, cujas biografias vão listadas abaixo, foram assassinados ou ?desapareceram? para sempre.

Afora os períodos de guerra civil, nunca na história deste país tantos oposicionistas foram massacrados pelo governo em tão pouco tempo!

Adriano Fonseca Filho
Alexandre Vannucchi Leme
Almir Custódio de Lima
Anatália de Souza Melo Alves
André Grabois
Antônio Alfredo de Lima
Antônio Carlos Bicalho Lana
Antônio Guilherme Ribeiro Ribas
Antônio Teodoro de Castro
Arildo Valadão
Arnaldo Cardoso Rocha
Caiuby Alves de Castro
Cilon da Cunha Brun
Custódio Saraiva Neto
Dinaelza Soares Santana Coqueiro
Dinalva Oliveira Teixeira
Divino Ferreira de Souza
Durvalino de Souza
Edgard Aquino Duarte
Elmo Corrêa
Emanuel Bezerra dos Santos
Eudaldo Gomes da Silva
Evaldo Luiz Ferreira de Souza
Francisco Emanoel Penteado
Francisco Seiko Okama
Geraldo Magela Torres Fernandes da Costa
Gilberto Olímpio Maria
Gildo Macedo Lacerda
Guilherme Gomes Lund
Helber José Gomes Goulart
Henrique Cintra Ferreira de Ornellas
Honestino Monteiro Guimarães
Jaime Petit da Silva
Jarbas Pereira Marques
João Batista Rita
João Gualberto Calatroni
Joaquim Pires Cerveira
Joel José de Carvalho
Joel Vasconcelos Santos
José Carlos Novaes da Mata Machado
José Huberto Bronca
José Lima Piauhy Dourado
José Manoel da Silva
José Mendes de Sá Roriz
José Porfírio de Souza
Líbero Giancarlo Castiglia
Lincoln Bicalho Roque
Lúcia Maria de Souza
Lúcio Petit da Silva
Luíz Guilhardini
Luiz José da Cunha
Luíza Augusta Garlippe
Manoel Aleixo da Silva
Manoel Lisboa de Moura
Márcio Beck Machado
Marcos José de Lima
Maria Augusta Thomaz
Maurício Grabois
Merival Araújo
Orlando Momente
Pauline Reichstul
Paulo Mendes Rodrigues
Paulo Roberto Pereira Marques
Paulo Stuart Wright
Ramires Maranhão do Vale
Ranúsia Alves Rodrigues
  ] [ envie esta mensagem ]



República e laicidade

Outro dia, falei aqui da decisão da Justiça de proibir a distribuição, por uma ONG racista, da sopa de porco aos sem-teto de Paris. Agora, trato de uma iniciativa que reafirma a doutrina republicana de respeito a todas as crenças (abordei aqui a questão das seitas), nos limites da laicidade do Estado.
De fato, o governo francês vai instaurar um Estatuto da Laicidade (Charte de la laicité) sublinhando os princípios republicanos a serem observados nos serviços públicos. Utentes de transportes, escolas, universidades, repartições, hospitais e outros estabelecimentos públicos deverão ?abster-se de todo tipo de proselitismo? e, sobretudo, ?não poderão, alegando suas convicções [religiosas], recusar um funcionário público ou outros utentes, nem exigir uma adaptação do serviço público?.
O alvo específico do texto são os muçulmanos, ou melhor, as muçulmanas fundamentalistas que recusam ser atendidas nos serviços de urgência por um médico, ou em presença de enfermeiros, exigindo um corpo médico exclusivamente feminino. Seguindo os preceitos das autoridades islâmicas, a maioria dos muçulmanos acomoda-se aos médicos nas
urgências. Outros, no entanto, causam incidentes em maternidades e pronto-socorros, onde maridos e parentes histéricos chegam a agredir médicos e enfermeiros das pacientes.
Quem chega na França, e na Europa Ocidental, vindo de países meio teocráticos ou carolas da Europe de Leste (como a Polônia), da África ou da Ásia, não tem idéia do combate multissecular pela laicidade, e de quanta gente deu a vida por aqui para se liberar de regras religiosas, a fim de criar um Estado laico e democrático. Como disse na televisão um médico: ?Cabe ao Islã adaptar-se à República, e não o contrário?.
Num editorial intitulado ?Defender a Laicidade?, o
Le Monde naturalmente apóia este Estatuto. Mas, ao mesmo tempo, lamenta que tenha sido necessário reiterar estes princípios que estão inscritos no artigo primeiro da Contituição francesa. Para o jornal parisiense, o texto ilustra, de certa forma, os limites da política de integração dos imigrantes que tem sido seguida até agora.
Deixando de lado a França e vindo mais para perto do Brasil, cabe observar o papel importante que a laicidade republicana tem em Portugal, onde Mário Soares cansou de declarar que é ateu.
Nenhum político brasileiro tem peito para dizer algo parecido. Fernando Henrique pode até afirmar-se marxista. Mas quase liquidou sua carreira política, anos atrás, ao hesitar quando foi perguntado se acreditava em Deus. Mesmo ateus de quatro costados, achacados post-mortem por parentes carolas, não escapam da missa de corpo presente na igreja.
Ao mesmo tempo, a mídia evita dar publicidade à afirmações explícitas de agnosticismo.
Lembro-me do enterro discreto de Carlos Drummond de Andrade, em 1987. Meio escondida num jornal carioca, vinha a informação de que ele deixara instruções para evitar TVs, missas e padres no seu funeral. Viva o poeta!
P.S. - O Herald Tribune de hoje, 30/01/2007, traz uma matéria sobre o Estatuto da Laicidade.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 15h03
[   ] [ envie esta mensagem ]



A lembrança da pobreza

Houve, nestes dias, uma grande comoção na França pela morte do abade Pierre, o abbé Pierre, aos 95 anos. Padre capuchinho, membro ativo da Resistência francesa contra a ocupação nazista, o abade Pierre fundou depois da guerra o Movimento Emaús de ajuda aos pobres e aos sem-teto. Ganhando uma dimensão internacional, este movimento também está presente no Brasil.
Muitos estrangeiros, mesmo quando já moram aqui há muitos anos, não entendem bem o desconsolo demonstrado agora por franceses de todos os meios sociais.
Penso que este sentimento de perda tem uma dupla significação.
Por um lado, o abade Pierre representava o cristianismo social próximo do humanismo laico que cimentou a solidariedade entre os franceses durante a guerra e as dificuldades do pós-guerra. Esta corrente não logrou se transformar em movimento político e esvaiu-se em lutas partidárias e nas clivagens internas geradas pela Guerra Fria. A França de hoje aparece politicamente dividida, longe do abade Pierre e do clima de solidariedade militante vivido na Resistência e no pós-guerra. Sob a liderança de Le Pen, a extrema-direita eleitoralmente mais poderosa da Europa pode chegar de novo no segundo turno nas presidenciais em abril.
Por outro lado, na rememoração da vida e da militância do abade Pierre, com os canais de televisão mostrando as imagens da miséria em branco e preto das cidades e das zonas rurais nos anos 1940 e 1950, os franceses redescobrem seu país pobre e exaurido no pós-guerra. A tristeza pela morte do abade Pierre carrega a emoção da lembrança das penúrias pelo que o país passou num passado ainda recente.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 19h46
[   ] [ envie esta mensagem ]



Seitas e Igrejas

Hoje, na edição de 13 horas do jornal do canal TF1, o de maior audiência no país, foram denunciadas as atividades da seção regional da organização Tradição, Família e Propriedade, considerada como seita na França. A seção francesa da TFP oferece, em troca de dons beneficiando de uma pseudo isenção fiscal, uma medalha ?milagrosa? protegendo seus portadores ?contra a droga, o suicídio e a pornografia?. A reportagem mostrou a foto do paulista Plínio Correia de Oliveira, o fundador da TFP. O presidente da Comissão Interministerial de vigilância e luta contra as derivas sectárias, organismo do governo francês, interveio na emissão para falar sobre as denúncias contra a TFP, explicitadas num capítulo inteiro do relatório de 2006,
recém-publicado pela comissão. A TFP da França nega manter ligações com a TFP do Brasil ? atualmente dividida em lutas de facções ? mas a Comissão Interministerial francesa a considera como filiada à entidade brasileira, a qual deu origem a uma "organização internacional".
Há grande vigilância na França a respeito das seitas, desde que, nos 1990, a seita Temple Solaire foi responsabilizada por 97 assassinatos e suicídios coletivos na França, na Suíça e no Canadá.
Vinda poucos dias depois dos bispos da Igreja Renascer irem para a cadeia em Miami, sob a acusação de entrada ilegal de dinheiro nos EUA, esta notícia merece reflexão: dois países democráticos enquadram seitas filiadas ou igrejas brasileiras que pintam a saracura em nosso país na maior impunidade.
A prisão dos bispos da Renascer nos EUA ?
acusados no Brasil de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e estelionato ? trouxe novidades. Além de ver a foto da opulenta mansão dos bispos num condomínio em Miami, os brasileiros ficaram sabendo que os EUA - o país do mundo onde há maior liberdade e variedade de religiões ? só autorizam o pagamento de dons e ?dízimos? em dinheiro vivo. No Brasil, muitas destas igrejas, verdadeiras arapucas para as pessoas desprotegidas pelo Estado, exploram os crentes, recolhendo dons feitos com cartão de crédito, cartão de débito e até com cheques pré-datados.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 11h57
[   ] [ envie esta mensagem ]



Passado Recente
Da Serra do Mar para a Baixada Fluminense, corre o rio Gandú. Ou Guandu. No sul da Bahia também há um rio com este nome. Devem existir outros pelo Brasil afora. Penso que o nome vem do quimbundo Ngandú, que quer dizer crocodilo e, portanto, jacaré (o Houaiss que, como os outros dicionários brasileiros, dá pouca atenção às línguas africanas, menciona gando e ignora este sentido da palavra gandu).
Havia jacarés nestes rios e o pessoal angolano deportado para o Brasil começou a chamá-los de Gandú. Se estiver certo, trata-se de um caso raro de topônimo fluvial angolano e africano, visto que a esmagadora maioria dos rios brasileiros têm nome indígena ou português.
Nos anos 1960, o Guandu foi o teatro de uma história sinistra, quando cadáveres de mendigos cariocas apareceram nas suas águas e nas suas margens. Era a operação ?Mata-Mendigos?, denunciada pela imprensa durante o governo de Carlos Lacerda no ex-Estado da Guanabara (1960-1965). Funcionários da truculenta ?Seção de repressão à mendicância » do governo Lacerda foram ouvidos numa CPI da Assembléia do Rio Janeiro, em 1963.
Um filme sobre o assunto, baseado no romance do autor argentino-chileno
Jorge Diaz, está sendo concluído em São Paulo. Intitulado, como o livro, ?Topografia de um desnudo?, ele é realizado por Teresa Aguiar e tem Ney Latorraca como principal ator.
Nas reportagens sobre o filme, está dito que ?Operação Mata-Mendigos? foi desencadeada para ?limpar? o Rio de Janeiro antes da visita da rainha da Inglaterra. Ney Latorraca repete a mesma história no vídeo da reportagem do UOL.
Parece que alguém ai se enganou. A ?Operação Mata-Mendigos? - retrato do desejo de ?limpeza social? que campeia no Brasil - data de 1963, e o livro de Jorge Diaz foi publicado em 1967. Acontece que a rainha Elizabeth II só visitou o Brasil em novembro de 1968.
O governo do Rio de Janeiro anuncia agora um grande plano de reflorestamento das margens do rio Guandu, intitulado
?Muda Guandu!?. Tudo isso porque o rio fornece 80% do abastecimento de água do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense.
Com cores de Franz Post, a foto de Cosme Aquino, ai em cima, traz a promessa do renascimento do Guandu. Tomara que sim, e que a jovens árvores da Mata Atlântica sepultem seu passado poluído e trágico.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 07h22
[   ] [ envie esta mensagem ]



Palavras de ontem e de hoje
Outro dia, no texto sobre a morte do grande Bento Prado, uma reportagem online dizia que a ditadura o havia «caçado » de seu cargo de professor de filosofia na USP. Mais tarde, o texto foi corrigido: no final das contas, Bento havia sido ?cassado? de seu posto de professor. Isto quer dizer o quê? Quer dizer apenas que há repórteres ignorando que o verbo ?cassar? existe e foi conjugado em vários tempos e modos no Brasil, alguns anos atrás.
Ontem, o chanceler Celso Amorim, numa conferência no Rio durante a reunião do Mercosul, referiu-se aos ?Mercocéticos? descrentes no desenvolvimento do Mercosul. Tratava-se, obviamente, de uma adaptação da palavra ?Eurocético?.
Banal na Europa há muitos anos, ?eurocético? refere-se aos que, em diferentes graus, opõem-se à União Européia (UE). A palavra não é forçosamente pejorativa. Há eurodeputados no Parlamento de Strasbourg que assumem tranqüilamente seu estatuto de eurocéticos.
Nenhuma das reportagens dos jornais brasileiros fez referência à palavra européia. Os jornalistas registraram "mercocético" como uma palavra estranha. Mas não perceberam a analogia com o caso da UE e ficaram por ai mesmo. Isto quer dizer o quê? Quer dizer apenas que há repórteres e chefes de editoria internacional dos jornais brasileiros que desconhecem a palavra "eurocético" e os debates na União Européia.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 05h05
[   ] [ envie esta mensagem ]



Angola, Argélia, Texas e Iraque

Bush revelou numa entrevista recente que, aconselhado por Henry Kissinger, estava lendo o livro de Alistair Horne, sobre a guerra da Argélia, A Savage War of Peace ? Algeria 1954-1962.
Alistair Horne é um celebrado autor e historiador inglês especializado na história contemporânea francesa. Seu livro, publicado em 1978, é meio datado. Não toma em conta novas pesquisas, elaboradas com testemunhos argelinos e franceses, e documentos oficiais tornados públicos mais tarde (nos estudos de história recente, a renovação das fontes documentais pode envelhecer um livro rapidamente). Mas é uma obra importante.
Porém, achei estranhas algumas ilações feitas à partir do livro, comparando a situação dos franceses na Argélia, nos anos 1950, com a dos americanos no Iraque. Maureen Dowd tratou o tema de maneira irônica, ontem, no New York Times (reservado aos assinantes, mas achei outro
link).
Há, é claro, a idéia central de Horne: uma guerra pode ser ganha militarmente e perdida politicamente. Mas isto já estava explicado no grande filme de Giulio Pontecorvo, A Batalha de Argel (1965), o qual tem sido mostrado aos militares americanos envolvidos no Iraque.
Quanto ao resto, tudo separa a Argélia, colônia de povoamento francesa desde de 1830, do Iraque atual.
Para se ter uma idéia, os franceses estavam mais enraizados na Argélia, do que os portugueses em Angola, onde haviam chegado em 1575. Em 1900, já havia cerca de 400.000 colonos franceses na Argélia. Na mesma época, Angola contava somente 10.000 colonos portugueses.
Assim, a guerra da Argélia se desenrolava num contexto colonial e histórico muito mais profundo que o da guerra do Iraque. Mal comparando, numa situação de ficção histórica, seria como se os chicanos do Texas (independente do México em 1836 e anexado pelos EUA em 1845), mantidos num estatuto colonial mas dotados de uma maioria demográfica, tivessem desencadeado em 1954 um luta de independência contra os colonos americanos.

P. S. ? Hoje, 23/01/2007, o
Le Monde fez um comentário sobre este assunto

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 09h31
[   ] [ envie esta mensagem ]



Olhar Devagar
A primeira página do Jornal de Brasil de hoje é quase toda ocupada pela foto de uma policial da Força Nacional que chegou no Rio de Janeiro. Um contingente de quinhentos policiais enviados pelo governo federal fica no Rio até o final dos Jogos Pan-Americanos, no mês de julho.
O título da foto é ?A nova cara da segurança?. O subtítulo é mais explícito: ?O rosto, bonito, transmite firmeza à policial da Força Nacional récem-chegada ao Estado do Rio?.
Valquírias e outras personagens louras da literatura e da mitologia ocidental representaram a beleza combinada à força guerreira.

O texto e a foto do Jornal do Brasil sugerem que a moça loura, de olhos verdes, dará segurança à cidade traumatizada pela explosão da criminalidade. Aqui não existe literatura nem mitologia, apenas inverossimilhança.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 06h45
[   ] [ envie esta mensagem ]



Nicolas Sarkozy

Escolhido ontem como candidato da direita, Nicolas Sarkozy deu o pontapé inicial à campanha presidencial. Candidato oficial do partido de filiação gaullista - a UMP - Sarkozy não aparece, contudo, como um representante autêntico do gaullismo.
Quem encarna a doutrina gaullista ? tanto na afirmação da independência nacional frente à hegemonia americana como na defesa de políticas sociais - é o primeiro-ministro Dominique de Villepin. Rival de Sarkozy, Villepin ilustrou-se na sessão do Conselho de Segurança da ONU, opondo, em fevereiro de 2003, o veto da França à guerra anglo-americana contra o Iraque.
Suas medidas de políticas públicas ? agora evidenciadas pela afirmação de um ?direito à moradia? inscrito na legislação ao mesmo título que o direito à saúde ou o direito à escola ? aproximam-se do gaullismo social propugnado pelo ex-primeiro-ministro Chaban Delmas (1969-1972) e seguido, num nível mais retórico, por Jacques Chirac.
Situado noutro quadrante, Sarkozy vem restabelecer o primado direitista da ?Lei e da Ordem?, tal como o fizera o ex-presidente
Georges Pompidou (1969-1974) ou o ex-primeiro-ministro Raffarin (2002-2005). Numa viagem recente aos EUA, Sarkozy fez críticas indiretas à maneira pela qual o governo francês conduz as relações franco-americanas. No plano interno, ao contrário de Chirac e de Villepin, que opõem-se frontalmente à extrema-direita de Le Pen, Sarkozy tenta aliciar o eleitorado lepenista com um discurso duro, e por vezes truculento, sobre questões de ordem pública e de sociedade.
Por isso, o Partido Socialista e o comando de campanha de Ségolène Royal desferiram, de bate-pronto, seu ataque adrede preparado: para eles, com a candidatura Sarkozy, ?a direita violenta está retornando ao galope?. ?Há algo do Berlusconi neste homem?, completou Dominique Strauss-Kahn, um importante dirigente socialista.
A estratégia da esquerda é óbvia: atrair uma parte do eleitorado gaullista, partidária de Villepin e de Chirac e arisca ao conservadorismo de Sarkozy, para a candidatura de Ségolène Royal.
Tal vai o ser o quadro do debate eleitoral francês até a eleição presidencial de abril. Voltarei ao assunto, é claro.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 06h25
[   ] [ envie esta mensagem ]



A estetização da magreza
Hoje, no The Observer -, edição dominical do jornal britânico The Guardian -, há uma boa reportagem sobre a morte por anorexia da modelo brasileira Ana Carolina Reston.
Tom Phillipps, o autor da matéria, escreve muita coisa interessante sobre o assunto. Mas não reflete sobre o fato de que a estetização da magreza existe há bastante tempo na indústria da moda. Começou justamente em Londres, nos anos 1960, como comentei aqui
, mencionando o caso da magra Twiggy, a topmodel do Swinging London.
De uma maneira geral, o artigo ilustra uma prática jornalística pouco seguida na imprensa brasileira: a reportagem de fundo, preparada num largo espaço de tempo e amadurecida por considerações que lançam novas luzes sobre um determinado evento.
P.S. - Hoje, 19/01/2007, foi a vez do Libération abordar o assunto, num dossiê com testemunhos de várias modelos brasileiras.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 02h35
[   ] [ envie esta mensagem ]



Facínoras ou terroristas?
Ontem houve um atentado de extremistas de esquerda contra a embaixada americana em Atenas (veja o vídeo). Afora as células jihadistas, há movimentos regionalistas radicais que perpetram ações armadas contra o poder central na França, no Reino Unido e na Espanha. Mas a Grécia é o único país da Europa que tem organizações de esquerda praticando atentados ?anti-imperialistas?, anti-americanos. Sem entrar na história destas organizações, note-se que o governo grego desmantelou quase todas e neutralizou-as antes das Olimpíadas de Atenas, em 2004. Por isso, o ataque de ontem ? considerado um evento isolado - não impediu a alta das ações gregas nas bolsas estrangeiras. Em Nova York, até o banco de investimentos Merrill Lynch entrou em cena para minimizar o incidente.
No auge dos ataques a ônibus no Rio de Janeiro, Lula chamou a bandidagem local de ?terroristas?, suscitando uma resposta iracunda do prefeito carioca, embora o novo governador fluminense também chamasse os criminosos de
?facínoras? e ?terroristas?.
César Maia acusou Lula de
comprometer as chances de o Rio de Janeiro sediar eventos internacionais. De quebra, o prefeito presepeiro deu uma estocada na política externa brasileira: "Lula resolve usar esta expressão - terrorismo- em relação ao Brasil, e mais, em relação ao Rio, sede do Pan, candidato a Olimpíada de 2016 e capital-Maracanã da Copa de 2014. Lula acaba de inserir o Brasil no roteiro terrorista internacional. É a chave de ouro de sua lombrosiana política externa."
Ora, as Olimpíadas de Atenas em 2004, ou a preparação das Olimpíadas de Londres, em 2012, mostram que o estatuto da segurança pública não depende de adjetivações. O ponto crucial ? diferenciando São Paulo e o Rio de Janeiro das capitais européias citadas ? consiste no fato de que a polícia brasileira não é confiável, para dizer o mínimo.
Há anos que o Exército trabalha lado a lado com a polícia nas principais cidades francesas. Como os turistas brasileiros já devem ter visto nos aeroportos parisienses, há rondas regulares de dois soldados em uniforme armados de metralhadora, junto com um policial portando sua pistola regulamentar. O policial interpela suspeitos e tem sua segurança garantida pelos dois soldados.
Nunca houve polêmica aqui sobre esta prática, ao contrário do que acontece no Brasil neste momento, na discussão sobre o Exército e a luta contra a criminalidade. Por quê? Porque -, mais uma vez -, o problema central na segurança pública em nosso país é o despreparo e a corrupção policial.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 08h51
[   ] [ envie esta mensagem ]



Paredes de Paris
Desta vez, não é uma parede. É uma placa no chão de um jardim no n.391 da rua Vaugirard. Ali ficava o Hospital Franco-Brasileiro para os feridos da Grande Guerra.
Como explica o texto em francês, o hospital foi fundado, montado e mantido pelos brasileiros residentes em Paris (? la colonie brésilienne?), como contribuição ao esforço de guerra dos Aliados. Médicos brasileiros trabalhavam neste hospital, enviados no quadro da Missão Médica Especial.
Trata-se de uma das raras marcas existentes na França e -, imagino eu -, na Europa, da presença brasileira na Primeira Guerra Mundial. O Brasil entrou no conflito em 1917, declarando guerra aos Impérios Centrais, isto é, a Alemanha, a Aústria-Hungria, a Bulgária e a Turquia.
A participação brasileira no conflito foi pequena, para não dizer simbólica. O fator que desequilibrou a guerra terá sido, neste mesmo ano de 1917, a entrada dos EUA ao lado dos Aliados. No Armísticio (11.11.1918) já havia dois milhões de soldados americanos na Europa.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 11h52
[   ] [ envie esta mensagem ]



A culinária do racismo

O preço da igualdade racial é a eterna vigilância. Tal é a lição que se deve tirar do processo sobre a sopa de porco distribuída em Paris, noticiado no Libération e no Herald Tribune.
O caso começou no inverno de 2004, quando uma ONG ligada à extrema-direita organizou uma distribuição gratuita de sopa de toucinho para os sem-teto de Paris. Associações anti-racistas denunciaram a iniciativa como um ato preconceituoso visando excluir judeus e, sobretudo, muçulmanos, franceses ou imigrantes, numerosos entre os sem-teto. De fato, o sítio da ONG de extrema-direita explicitava a finalidade discriminatória da operação, afirmando : « Quem não quiser a sopa, não tem sobremesa, os nossos [pobres] antes dos vossos ». Há cerca de 600.000 judeus e 5.000.000 de muçulmanos na França.
Houve proibições, recursos judiciais e o processo foi parar no Conseil d?Etat (espécie de STF da França).
Baseado no princípio de que se tratava de atos derrogatórios à dignidade humana e que «toda atividade contrária à dignidade humana é contrária à ordem pública », o Conseil d?Etat manteve o veto à distribuição da sopa de toucinho.
O racismo contemporâneo se apresenta como uma sub-cultura recorrente e diversificada. Para combatê-lo é necessário, por intermediário da educação cívica, escolar e universitária, desenvolver um verdadeiro militantismo anti-racista.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 05h48
[   ] [ envie esta mensagem ]



O Brasil no CS da ONU
The Economist desta semana reserva seu editorial e seu artigo central à ONU. Na altura em que o sul-coreano Ban Ki-moon assume a direção da ONU, a melhor e mais bem escrita revista do mundo, faz um balanço da instituição.
No editorial, The Economist apóia a entrada da Alemanha, do Brasil, do Japão e da Índia e de ?um país africano?, como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.
A proposta é idêntica àquela defendida pelo chanceler Celso Amorim no quadro do G-4, que reunia os 4 países citados e a África do Sul.

Iniciativa que entrou em banho-maria em 2006. O motivo foi a oposição suscitada por países rivais (Itália, Argentina, China, Paquistão), e a divisão dos países africanos na escolha de seu candidato.
Pesou ainda a campanha anti-ONU dos neoconservadores e do governo Bush.
Com a entrada de Ban Ki-moon, o retorno dos EUA a um certo multilateralismo e a existência de um melhor entendimento entre as grandes potências, a reforma do Conselho de Segurança volta à ordem do dia. É o que sugere
The Economist.
A idéia da entrada do país no CS da ONU e a generalidade da política externa do governo Lula, tem sido objeto de escárnio e vitupério nas fileiras da oposição e na maior parte da mídia brasileira.

No momento em que uma das mais influentes revistas mundiais decide endossá-la, seria interessante ouvir a reação dos seus detratores letrados e menos letrados.
Por enquanto, a única notícia sobre o assunto que li na imprensa brasileira foi o resumo da BBC Brasil publicado ontem no Folhaonline e na Agência Estado, e aparentemente retomado no Estadão de hoje (ao qual não tenho acesso).
P.S. ? A ministra do exterior do Reino Unido, Margaret Becket,
oficializou , no dia 16 de janeiro, a posição expressa no editorial do The Economist há dez dias: Londres apóia a entrada do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.
Katrin Bennhold no seu artigo tratando da Conferência de Davos no Herald Tribune de 24/01/2007, afirma que há um consenso entre a maioria dos países sobre o fato de que Índia, o Brasil e o Japão devem entrar no Conselho de Segurança da ONU.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 08h05
[   ] [ envie esta mensagem ]



Os Democratas e a política americana

No artigo que publiquei hoje na Folha de São Paulo sobre a vitória dos democratas e a política americana, há uma frase que ficou truncada.
Reproduzo aqui a frase certa:
?Paralelamente ao declínio dos neo-conservadores, os democratas mobilizam setores distintos dos grandes sindicatos, dos ecologistas e dos militantes dos direitos civís, que constituíam as bases tradicionais do partido. Ao lado, surge uma militância mais difusa, como as intervenções dos chamados ?filantropos progressistas?, como o MoveOn.org (movimento de esquerda que envolve 3 milhões de internautas) ou as diferentes castas de militantes anti-republicanos que povoam a blogosfera?.
No caso, eu citava o artigo de Matt Bai, publicado no
New York Times.
Como fica claro, o MoveOn.org é uma coisa e os ?filantropos progressistas? (como o investidor George Soros, o produtor de Hollywood Steve Bing, o dono de companhia de seguros Peter Lewis ou o casal Andy e Deborah Rappaport, enriquecidos em Silicon Valley) são outra coisa.

?Uma política americana sem ideologias?
A ascensão triunfal de Nancy Pelosi à presidência da Câmara, marcando a volta dos democratas ao comando das duas Casas do Congresso, mostra que a oposição à Guerra do Iraque não foi o único tema que polarizou as eleições de novembro nos Estados Unidos. Por causa do perfil político de parte dos eleitos democratas -contra o casamento gay, a favor do livre uso de armas e pelo rigor fiscal no governo- nem todos os conservadores interpretaram as eleições como uma derrota. Não obstante, muitos republicanos reconhecem que a "revolução conservadora" iniciada no governo Reagan (1981-1989) esgotou seus objetivos básicos...?.
Para a continuação, assinante UOL clique
aqui.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 03h35
[   ] [ envie esta mensagem ]



Olhares europeus

No novo Museu do Quai Branly, instalado à beira do Sena no belo prédio de Jean Nouvel, há uma exposição muito interessante intitulada D?un regard l'autre (frase em estilo indireto que poderia ser traduzida por ?O olhar que vê o outro?). O tema é o olhar dos europeus sobre os povos africanos, asiáticos e americanos. Sem entrar nas controvérsias que marcaram a inauguração do Museu (uma colher carajá feita de madeira é um objeto de arte ou sómente um objeto do cotidiano de uma cultura?), vale a pena observar o sucesso que o Museu está tendo entre imigrantes e franceses oriundos de culturas não européias.
Nas várias partes da exposição que nos concernem, uma tem especial destaque: os quadros que
Eckhout pintou ou concebeu enquanto esteve em Recife com Maurício de Nassau, no período 1637-1644. O vídeo da exposição mostra logo de saída os 8 grandes quadros representando os tipos humanos vivendo em Pernambuco na época.
É interessante observar também a diferença dos pontos de vista europeus sobre a presença holandesa no Brasil.
Em 2004, nos 400 anos do nascimento de Maurício Nassau, houve, em Siegen (Alemanha), cidade de nascimento de Nassau, um congresso sobre sua vida e sua obra.
Deu para constatar algumas nuances de interpretação entre os especialistas alemães e holandeses, como também entre o público presente em Siegen. Espero escrever sobre isso mais tarde. Talvez quando sair o livro com as comunicações do congresso.
De uma maneira geral, os alemães sublinhavam o papel de Nassau no seu próprio país, na defesa dos protestantes de sua região natal, inseguros depois da conversão de seu irmão mais velho ao catolicismo. Foram ainda acentuadas suas atividades na reconstrução e no embelezamento da cidade alemã de
Cléves (Kleve), da qual foi governador.
Desta forma, afirmou-se o germanismo de Nassau, frente à interpretação dominante que o reduz ao papel de empregado dos holandeses da W.I.C., a Companhia das Índias Ocidentais. Tratava-se de salientar sua qualidade de príncipe humanista alemão.
Por isso, algumas pessoas no público ficaram surpreendidas ao saber que o humanismo de Nassau incluia o desenvolvimento da escravidão e do tráfico negreiro, praticados a partir daquela época pelos holandeses.
Toquei neste ponto no comentário sobre o Congresso publicado no sítio nomínimo (a maioria dos links inseridos no texto já foi para o espaço).

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 10h34
[   ] [ envie esta mensagem ]



Olhar Devagar
A foto está na capa do Estadão de hoje.
A legenda indica que se trata de Marcos de Araújo, cacique xucuru, na solenidade da chegada do 'Programa Luz para Todos', que leva eletricidade a 5 milhões de pessoas.
O excelente sítio
Povos Indígenas do Brasil, cujos únicos defeitos são a falta de atualização e de mapas localizando os grupos indígenas, informa que os xucuru contavam em 1996-1999 com cerca de 8.000 indivíduos distribuídos entre Alagoas e Pernambuco
Feita por Beto Barata, da Agência Estado, a foto é muito boa.
A bananeira pintada no quadro da parede forma um cocar que se encaixa direitinho na cabeça de Lula. O presente que o índio trouxe (ou ganhou?) está numa caixa azul-vivo que pode ter sido comprada em loja de shopping. Seu perfil quase aquilino e o cabelo bem cortado surgindo por debaixo do cocar, juntam-se ao seu nome pouco xucuru para sugerir uma encenação. Com um índio de araque interpelando o presidente que toca no seu cotovelo.
Mas a conversa tem um ar sério. A expressão de Lula é de surpresa sem condescendência e Marcos parece exigir o cumprimento de promessas presidenciais.
Talvez esteja cobrando a demarcação das terras de sua gente nos sertão pernambucano. Talvez esteja lembrando a longa luta de seu povo quase extinto por gerações de bandidos-fazendeiros. Como os que organizaram a tocaia de que foi vítima em 7/02/2003, no município de Pesqueira (PE). Na manhã daquele dia, pistoleiros atiraram no seu caminhão, ferindo-o gravemente e assassinando dois de seus companheiros.

Segundo o comunicado do Conselho Indigenista Missionário, um dos pistoleiros foi identificado. Seria um tal de Louro Frazão, conhecido na região por trabalhar para os fazendeiros e manter ligações com Expedito Alves Cabral, o Biá, também membro do povo xucuru e acusado de se ter vendido aos fazendeiros.
Na hora de matar, a bandidagem sabe quem são os verdadeiros índios.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 06h27
[   ] [ envie esta mensagem ]



Paredes de Paris

Na fase da Revolução Francesa em que o país era dirigido pela Convention Nationale (1792-1795, nome da Assembléia que sucedeu à Assembléia Legislativa) foi decidida a criação de um sistema geral, mais racional, substituindo as inúmeras medidas de peso, de volume e de comprimento até então conhecidas.
Assim, estabeleceu-se a medida do
metro, cuja história é cheia de peripécias. Definido como a décima milionésima (10.000.000) parte de um quarto do meridiano terrestre, ele foi adotado como medida de comprimento oficial da França em 1795. No mesmo ano o grama foi calculado a partir do metro: corresponde à massa de 1 centímetro cúbico de água na temperatura de 4° C.
Para generalizar o uso do sistema métrico, foram colocados nos lugares mais frequentados de Paris metros-padrão em mármore, entre 1796 e 1797. Atualmente, só existem dois na cidade. Situado no n. 36 da rue de Vaugirard, este da foto acima é o único que está fixado no lugar original.
Alguns dias atrás a leitora Patrícia Klingl havia lembrado da existência deste marco parisiense.
O sistema não se estabeleceu totalmente nem na França, onde ainda se pode comprar uma "livre" (1/2 kg) de manteiga nas feiras, nem em outros países usando medidas métricas. Como no Brasil, onde há alqueires de várias dimensões.
Há alguns mal-entendidos em trabalhos de história econômica do Brasil por causa de trapalhadas causadas pela variedade de pesos e medidas usadas no país.
Precisaria haver, em alguma universidade, um banco de dados centralizando as informações disponíveis sobre o assunto. O IBGE também poderia realizar esta tarefa.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 17h20
[   ] [ envie esta mensagem ]



Sobre o Populismo

No seu discurso de posse, Lula declarou: "Nosso governo nunca foi nem é populista. Este governo foi, é e será popular". No caderno Aliás, do Estadão de domingo, onde há vários textos sobre os fatos mais marcantes de 2006, saiu um artigo meu sobre o retorno do populismo na política atual.
No fim do artigo, cujo título foi dado pela redação, comento brevemente dois livros importantes sobre o assunto que foram publicados na Inglaterra.
O primeiro é o volume organizado pelo uruguaio Francisco Panizza, professor da London School of Economics, Populism and the Mirror of Democracy, Londres, Verso, 2005.
O segundo, escrito pelo argentino Ernesto Laclau, professor na Universidade de Essex, chama-se On Populism Reason (Londres, Verso, 2005, tradução argentina: La razón populista, Fondo de Cultura Económica, Buenos Aires, 2005).

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 06h59
[   ] [ envie esta mensagem ]



Chegou a nova Alemanha

2007 vai ser o ano da nova Alemanha. Neste ano, o país confirmou a sua hegemonia econômica na Europa. Apesar do euro valorizado com relação ao dólar, a Alemanha guardou seu lugar de maior exportador mundial, na frente dos Estados Unidos e da China.
Paralelamente, Berlim assume em 2007 a presidência da nova União Européia (UE), a qual, com a adesão da Bulgária e da Romênia em 1° de janeiro, contará com 27 membros e 450 milhões de habitantes. Na presidência da UE, Angela Merkel deverá recosturar o tecido institucional esgarçado pela entrada dos novos membros, e pelo veto francês e holandês à Constituição européia.
Além disso, Merkel presidirá também nos próximos meses o G8, intermediando as relações entre os ocidentais e a Rússia.
Aliás, este é o ponto principal: tanto na nova UE, mais recentrada para o Leste com a adesão dos antigos países da Cortina de Ferro, como no G8, a grande Alemanha reunificada se desloca mais para a Europa Central.
Pela primeira vez desde a reunificação (1989) -, e pela primeira vez pacíficamente, em plena democracia, sem planos expansionistas -, desde que foi criado como Estado-nação em 1871, o país se afirma como uma grande potência mundial.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 06h54
[   ] [ envie esta mensagem ]



Memórias do século passado

Saiu hoje na Folha de São Paulo um artigo meu sobre a eventual entrada de Delfim Netto no governo do segundo mandato de Lula. Estava há algum tempo com este artigo entalado na ponta dos dedos e tinha falado sobre o assunto em palestras feitas em agôsto e setembro, no Rio, em Curitiba, em São Paulo e em Belo Horizonte, no ciclo "Esquecimento e Memória", organizado por Adauto Novaes. Na altura, houve uma reportagem sobre a palestra na Maison de France, no Rio.
?Memórias do século passado
- Eventual ascensão de Delfim Netto ao governo Lula seria flagrante traição política, um acinte a uma parte dos que combateram a ditadura -

NO NOTICIÁRIO sobre o novo governo, um nome aparece freqüentemente: Delfim Netto. Ungido por consagradora reeleição e índice de aprovação jamais igualados, Lula deve pensar que pode nomear quem quiser em qualquer lugar. Assim, com a admiração unânime dos povos e aplauso geral da nação, Delfim Netto poderá ser novamente alçado a um ministério. Desta vez, num governo presidido pelo PT. A eventualidade dessa nomeação suscitou alguns sarcasmos e perplexidades. Fernando Henrique, após classificar Delfim Netto de "algoz da ditadura", ironizou a nova amizade entre o ex-ministro e Lula. Mas suas palavras fariam mais sentido se ele próprio não tivesse nomeado Pratini de Moraes -também integrante do governo do sinistro ditador Médici- no seu segundo mandato na Presidência e não tivesse introduzido Jarbas Passarinho, também estadista do AI-5, no conselho político de sua campanha de reeleição, em 1998..."

Para a continuação do artigo, assinante UOL clique aqui .

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 00h12
[   ] [ envie esta mensagem ]



Glauber em Paris

Glauber gostava de Paris (e da Bahia, e do Rio, e de Havana e de Roma, nesta ordem, com Paris entrando logo depois do Rio). E Paris gostava dele. E ainda gosta, como demonstra este cinema da Praça Saint Michel que apresenta agora os seus 7 filmes de que falei outro dia aqui.
Nas férias de fim-de-ano, Paris recebe centenas de milhares de turistas. De modo que essa apresentação permitirá que parisienses e não parisienses assistam os filmes.
Talvez para a nova geração, talvez para o público pouco cinéfilo, o cartaz explicita: "Homenagem a Glauber Rocha- O mestre do cinema brasileiro - Reedição exclusiva [de filmes] em cópias novas?.
Por acaso, Glauber morou pertinho deste cinema, na rue de la Harpe, com Teresa, sua namorada cubana. Na época, ele tinha uma cara parecida com esta do cartaz do cinema. No apê ali do lado, ele escrevia o roteiro de um novo filme sobre Marx e Engels. Marx seria interpretado por Richard Burton e Engels por Dirk Borgade.
O roteiro não foi adiante. O namoro com Teresa também não.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 14h47
[   ] [ envie esta mensagem ]



A cabeça de Zidane

As retrospectivas de 2006 que programas de TV de fim de ano repetem fastidiosamente, mostram sempre a cabeçada de Zidane em Materazzi na final da Copa, em Berlim. Na época, dois dos jornais que mais contam na França, o jornal esportivo L?Equipe, num editorial, e o Le Monde, num artigo assinado por Aimé Jaquet (o treinador da seleção campeã de 1998), condenaram sem reservas a truculência do jogador.
Mas houve gente que aplaudiu. Muitos consideraram, aqui, no Brasil e noutros lugares, que a cabeçada representava uma afirmação da vontade do jogador contra o marketing e a massificação do futebol, etc.
Há alguns dias, Zidane foi visitar a Argélia, terra de seus ancestrais. Mais exatamente, ele esteve na aldeia onde nasceram seus pais, na
Cabília. A Cabília é uma região montanhosa habitada pelo povo berbere que tem língua e culturas próprias. Conquistados pelos árabes, e depois, pelos franceses, os cabilas sempre se revoltaram para proteger sua identidade cultural. Suas lutas continuam hoje contra o governo argelino, dirigido pelo presidente Buteflika, que insiste na política de arabização da Cabília. Zidane, que sabe muito bem disso tudo, foi recebido durante horas por Buteflika e apareceu com ele em todo canto.
Mais tarde, ainda na Argélia, quando perguntado se era a favor da afirmação da língua de seu povo, o berbere, ele respondeu que não sabia, que era ?apenas um jogador de futebol?. Ora, ninguém esperava que ele chegasse por lá atiçando a região com declarações explosivas. Mas ele poderia ter preparado uma resposta menos covarde, declarando-se a favor da diversidade cultural da Argélia, coisa que até Buteflika e outros dirigentes argelinos dizem da boca para fora.
No futebol, onde as regras são igualitárias e há um árbitro neutro, ele partiu para a ignorância. Na Argélia, onde seu povo é oprimido, ele diz que não sabe de nada e recolhe o galho. Durante os tumultos nos subúrbios de Paris, em novembro de 2005, onde muitos jovens de origem argelina estavam envolvidos, ele também ficou quietinho. Ao contrário, por exemplo, de Thuram, nascido na ilha francesa da Guadeloupe (Antilhas), que criticou as autoridades francesas na época.
Ou seja, Zidane tem uma cabeça de frouxo.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 04h26
[   ] [ envie esta mensagem ]



Dez anos de Raça!

Não queria deixar acabar o ano sem saudar o 10° aniversário da revista Raça. Como é sabido, Raça é uma publicação mensal destinada ao público consumidor afro-brasileiro de classe média para cima. Não se trata de uma gazeta militante.
Um
sítio da revista, com informações bastante completas sobre seus leitores, datadas de fevereiro de 2006, afirma que sua tiragem média mensal é de 38.000 exemplares, lidos por 242.000 leitores. Os quais, se decompõem da maneira seguinte: 70% são mulheres; 89% tem renda familiar acima de R$ 2.300,00; 81% possui conta corrente; 58% possui cartão de crédito; 40% possuem cheque especial; 44% nível superior; 9% possuem pós-graduação; 81% trabalha.
Basta tomar um só destes dados -, 44% dos leitores têm educação de nível superior e 9% possuem pós-graduação -, para constatar que a revista atinge a ponta do topo da pirâmide social da população negra brasileira.
Não obstante, o corpo editorial da revista e seus colunistas, todos afro-brasileiros, têm tomado posição sobre as questões relativas à minoria política formada pelos negros brasileiros, que já são uma quase maioria cultural e estão em vias de se tornar uma maioria demográfica. Assim, a revista expressou opiniões a favor da políticas de cotas, debatendo freqüentemente o assunto. Assinantes do UOL têm acesso online aos exemplares de Raça.
Dez anos já é uma vida longa para uma revista mensal brasileira. Mas dez anos é ainda muito pouco tempo para apontar desigualdades que vem de tão longe. Longa vida para a Raça!

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 13h16
[   ] [ envie esta mensagem ]



Jornalistas americanos em Paris

Outro dia escrevi aqui que o International Herald Tribune estava ruinzinho. Não é bem verdade. Na redação de Paris há uma jornalista, Elaine Sciolino, que escreve reportagens muito bem sentidas sobre Paris e a vida política e cultural francesa. É coisa do melhor jornalismo americano, sem os fricotes manhattanianos que às vezes dão um certo fastio à leitura do New York Times. Junto com o americano-carioca Alan Riding e William Pfaff, ela mantém viva a tradição dos grandes jornalistas americanos residentes em Paris. Adam Gopnik, que foi correspondente da New Yorker em Paris, escreveu um livro delicioso sobre o assunto, Paris to the Moon.
Antes do Natal, Elaine Sciolino fez uma
reportagem muito boa -, daquelas cuja leitura, acompanhada de um bom café da manhã, deixa a gente de bom humor o dia inteiro-, sobre o responsável pela iluminação de arte dos prédios e lugares públicos de Paris.
Se eu fosse pauteiro numa redação ou professor de jornalismo, mostraria esta reportagem como um exemplo de matéria bem descolada, bem escrita e bem apresentada.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 23h50
[   ] [ envie esta mensagem ]



Sondagens

O novo canal internacional de notícias (em francês, inglês e árabe) France24, publicou uma sondagem sobre a popularidade alguns dos principais líderes mundiais feita junto aos cidadãos dos EUA, França, Espanha,Inglaterra, Itália e Espanha.
A notícia foi comentada pelo correspondente da
Agência Estado em Paris. Os líderes apresentados aos entrevistados foram Ahmadinejad (Irão), Bento XVI, Tony Blair, Bush, Fidel, Chávez, Chirac, Lula, Angela Merkel, Putin, Romano Prodi e Zapatero. O resultado é interessante. Lula é muito popular na França e na Espanha e muito menos apreciado na Inglaterra, nos EUA e na Alemanha. Na síntese da página 6 do relatório, os redatores apontam o dado mais claro da sondagem: a rejeição de Bush e Putin, e a simpatia por Angela Merkel e Zapatero. Em geral, americanos e ingleses conhecem pouco os dirigentes estrangeiros. Outro dado, os três acontecimentos considerados mais importantes de 2006: 1) guerra Israel/Hezbolá, 2) teste nuclear da Coréia do Norte " 3) derrota de Bush nas eleições de mid-term. Ou seja, Bush aparece mesmo como um governante antipático.
O relatório completo da pesquisa pode ser lido (em francês)
aqui.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 13h16
[   ] [ envie esta mensagem ]



Passado recente

No G1, sítio de informação online da Globo, há um vídeo interessante sobre o passado recente brasileiro. Trata-se da notícia da morte do general-presidente Figueiredo, em 1999.
Fátima Bernardes faz uma síntese razoável do destrambelho que foi a última presidência da ditadura. No final, ela repete a frase que este ditador patético deixou como balanço de seu desastroso mandato usurpado aos cidadãos brasileiros: ?Espero que me esqueçam!?. Mas há uma declaração mais grotesca ainda. No último dia de seu mandato, numa seqüência filmada pela finada TV Manchete, o jornalista (talvez Alexandre Garcia, se não me falha a memória) perguntava a Figueiredo algo do gênero: ? o quê o senhor teria a dizer ao povo brasileiro?. E aí, supremo esculacho, Figueiredo declara a uma nação de 180 milhões de habitantes, independente há quase dois séculos: ?aqui ó pra ocês!? e o homem nos dá uma banana!
Foi assim -, senhoras e senhores -, que acabou a ditadura. Da maneira mais réles. Estas imagens, que pertencem ao espólio da TV Manchete, podem ter sido destruídas. Obviamente, a TV Globo nem menciona a declaração filmada pela TV Manchete.
A propósito, quando é que vai acabar, no Brasil, esta baixaria de os jornais e a mídia em geral não citar notícias publicadas por seus concorrentes locais?
Quando Bush se preparava para visitar o Brasil (antes da viagem à cúpula de Mar del Plata,novembro 2005), ele deu uma coletiva em Washington a correspondentes latino-americanos sorteados para participar do evento. No caso, o brasileiro sorteado foi o correspondente de um jornal paulista, o qual publicou no dia seguinte, todas as declarações do presidente dos EUA. Outro jornal paulista, para não citar a matéria do concorrente, reproduziu as declarações do presidente americano a partir da reportagem publicada no jornal El Clarín, de Buenos Aires.
P.S. No blog do Alon Feuerwerker, que indicou generosamente meu blog, trazendo-me muitos leitores, apareceu outro dia uma entrevista minha sobre o liberalismo no Brasil.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 15h59
[   ] [ envie esta mensagem ]



Comuna de Paris I

A exposição sobre a Comuna, apresentada agora na Bibliothèque historique de la ville de Paris, gira em torno das fotos de Hippolyte Blancard. Acompanhando de perto a ascensão e a derrota da Comuna (de março a maio de 1871), Blancard, farmacêutico de profissão, fez excelentes fotografias que nunca haviam sido expostas. Há fotos mostrando também a guerra franco-prussiana de 1870, a qual fez bastante estragos nos subúrbios de Paris, coisa que eu ignorava.
Em 1971, no centenário da Comuna, no refluxo dos acontecimentos de maio de 1968 e em plena presidência conservadora de Pompidou, não houve praticamente nenhuma celebração. Lembro-me de um domingo chuvoso e triste daquele maio, em que fui de carro com uma amiga até Saint-Denis, prefeitura comunista da periferia, para visitar a única exposição organizada na época sobre o evento. De lá para cá, houve mudanças e a Comuna tem sido objeto de muitas exposições. Em boa parte, porque a esquerda chegou ao poder e ficou por anos seguidos, com a presidência Mitterrand. E também porque Paris tem agora um prefeito de esquerda. Para punir os parisienses após a Comuna, os governos franceses sucessivos jamais permitiram que a capital tivesse um prefeito eleito, entregando o cargo para um alto funcionário. Só em 1977, na primeira eleição geral municipal realizada desde 1870, foi eleito um novo prefeito, Jacques Chirac. Em 2001 foi a vez do atual prefeito, o socialista Bertrand Delanoé.

Escrito por userID: 996844918102firstName: às 18h25
[   ] [ envie esta mensagem ]




Quem sou eu

Luiz Felipe de Alencastro

Professor brasileiro que reside e trabalha em Paris, nascido em Itajaí, Santa Catarina, onde também aprendeu a nadar. Pratica um modo de reflexão ensinado por seu guru que atende pelo nome de Capivara ou "Carpíncho".