|
|
|
Nos Trilhos
Nos Trilhos

No Eurostar, logo na saída de Waterloo Station, o alto-falante anuncia que, a partir de 14 de novembro, haverá uma nova estação em Saint-Pacras. É em Bloomsbury, o Quartier Latin de Londres. De lambuja, a viagem Paris-Londres ficará 20 minutos mais curta. Será que intelectuais e os ingleses em geral vão se aproximar mais dos franceses? Duvido, No way : a tchurma em Londres continua se espelhando muito mais nos EUA. Começou durante a Segunda Guerra e continua pelo século XXI adentro.
Um colega que me ajudou muito na Faculdade e se aposentou neste ano, um cavalheiro e um erudito, contou-me que na Guerra de Independência dos EUA houve uma reunião em Versalhes, onde Luís XVI assuntou, procurando saber se valia a pena ajudar militarmente os americanos. Parte de seus conselheiros achou que sim: era, indiretamente, a revanche dos franceses sobre a derrota sofrida na Guerra de Sete Anos (1756-1763) que resultou na perda do Canadá para os ingleses. Mas outros conselheiros acharam que não: para eles, os americanos, protestantes e anglo-saxões, ficariam sempre do lado dos ingleses nos conflitos na Europa e no mundo. A história provou que estes últimos tinham razão.
E o Commonwealth cresce, até para onde não se espera: Moçambique está incluído no guia da Universidade de Londres sobre os países das universidades do Commonwealth. Deve ser um troco na França, que costuma incluir Cabo-Verde entre os países da francofonia
No hotel em que fiquei em Bloomsbury (Tavistock Hotel, velhinho simpático, com ambientes de Agatha Christie; o problema são as tomadas; é igual no Ouro Verde, em Copacabana, ou no Everest, em Porto Alegre, onde gosto de ficar: nos hotéis velhinhos simpáticos as tomadas estão atrás dos armários: tem Wi-Fi, mas o notebook tem que ficar com você pendurado na beirada da cama, ligado numa tomada na outra ponta do quarto) – e no trem onde estou agora, lí toda quase toda a imprensa inglesa.
No Eurostar há muitas revistas e jornais de graça. Nos bares e café de Londres, muito mais que em Paris, há bastante jornais de graça. Nos lugares supostamente trendy (na onda), a imprensa tradicional dá de barato que entregar de graça é uma boa estratégia para travar a concorrência dos jornais gratuitos. Não acredito nisso. Sou adepto da doutrina do Le Monde: o leitor tem que pagar o jornal para sentir que ele é coisa sua. Há algum tempo, o Le Monde tinha um princípio que não sei se ainda continua em vigor: a publicidade do jornal nunca podia ultrapassar 50% do seu preço. Ou seja: o leitor tem que pagar ao menos a metade do custo do jornal que está lendo.
O Economist, sempre bem escrito, sempre interessante, cobre muito bem a China. No último número há uma reportagem sugestiva: a parte da massa salarial no PIB chinês está caindo firme. Escorregou de 53% em 1998 para 41% em 2005 e continuou caindo em 2006. Nos EUA, onde, como se sabe, o governo não é comunista, a massa salarial representou 56% do PIB em 2005. Conclusão do Economist, o arrôcho salarial está comprometendo a evolução da economia chinesa e isso pode atrapalhar o resto do mundo: está faltando luta de classes no milagre chinês.
P.S. - Estou migrando meu blog no Blogger para o UOL. A ferramenta é diferente: deu para trazer os meus posts, mas não os comentários dos leitores. Durante algum tempo ficarei postando nos dois lugares.
Escrito por Luiz Felipe de Alencastro às 05h24
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Livro
Livro

Vim à Londres para o lançamento deste livro sobre o império português, do qual participei. É o resultado de um seminário iniciado em 1998 na John Carter Brown Library, em Providence, R. I. O objetivo da obra é o de atualizar, para os leitores anglo-saxões, a historiagrafia sobre a expansão oceânica portuguesa, de 1400 a 1800.
Escrito por Luiz Felipe de Alencastro às 05h21
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
A Tara da Discriminação

Caravaggio, Medusa, 1598, Galleria degli Uffizi, Florença.
Escrevo de supetão depois de ler as três matérias da Folha sobre os jovens entre 16 e 18 anos que hesitam em se tornar eleitores. O TSE lançará campanha para mobilizá-los. Como declarou o presidente do TSE, ministro Marco Aurélio Mello, “...a apatia não conduz a nada. O que nós precisamos é de perseverar e procurar a correção de rumos. E a forma de se corrigir rumos é participando ativamente, fazer uma revolução pelo voto, bem escolhendo aqueles candidatos que devem nos representar nos diversos cargos”.
Belas palavras. Mas nem o ministro, nem a propaganda do TSE, nem os jornalistas da Folha se lembram do outro lado do questão: a Constituição deu o direito facultativo de voto aos jovens entre 16 e 18 anos, mas também aos analfabetos [art.14° § 1, a) e c) da Const.].
Sucede que os últimos dados do IBGE, datando de 2005, mostram um contingente de 14,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais analfabetas no país. É muita gente, gente! Quando se verifica o critério da cor aparece de novo a tara da discriminação racial. Cito o relatório do IBGE “a taxa de analfabetismo de pretos (14,6%) e de pardos (15,6%) continua sendo em 2005 mais de o dobro que a de brancos (7,0%)”.
Ora, desde o início, a propaganda do TSE e da mídia tem procurado incitar os jovens de 16 a 18 anos incompletos a se tornarem eleitores. Mas não há notícia de propaganda similar dirigida aos analfabetos em geral, ou de medidas específicas para facilitar-lhes a obtenção do título de eleitor. Lembro-me de uma notícia ouvida no final de 1988 ou começo de 1989, antes da primeira presidencial direta, dizendo mais ou menos isso: “ a jovem Adriana Rezek, de 16 anos, filha do ministro Francisco Rezek (então presidente do TSE), foi uma das primeiras a obter seu título de eleitora, etc...”. (a moça se chamava Adriana, mas não estou seguro se tinha 16 ou 17 anos). Lembro também da reflexão que fiz então no Cebrap, ou escrevi alhures: ‘que tal prevenir dona Maria de Tal, empregada doméstica há 40 anos, negra e analfabeta, que ela também pode ser eleitora e festejar a obtenção de seu título eleitoral’?
Na época, aparecia na propaganda do TSE na TV, um jovem surfista dizendo algo do gênero: “ e aí garotão, não vai tirar seu título eleitoral?”
Nada mudou de lá para cá. Fala-se sempre dos jovens (leia-se: jovens de classe média) que podem obter título de eleitor aos 16 anos e nunca dos analfabetos adultos que também têm este mesmo direito. O PT nunca se mexeu para mudar isso. O Movimento Negro, no que lhe concerne, nunca se mobilizou para mudar isso. A UNE nunca deu por isso. A imprensa e a mídia deram pouca ou nenhuma notícia sobre o assunto, e os tribunais eleitorais continuam insensíveis ao tema.
Não há preconceito de classe? Não há preconceito de raça no Brasil? Então tá!
P.S. - Estou migrando meu blog no Blogger para o UOL. A ferramenta é diferente: deu para trazer os meus posts, mas não os comentários dos leitores. Durante algum tempo ficarei postando nos dois lugares.
Escrito por Luiz Felipe de Alencastro às 06h57
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
COISAS VISTAS II
COISAS VISTAS II

Alinho de maneira aleatória algumas notas escritas durante a viagem pelo Brasil.
A carpete do anexo do aeroporto Santos Dumont, inaugurado há alguns meses, já está rota como um tapete de bordel. As paredes externas da parte recentemente reformada de Congonhas parecem ter mais de cem anos. Não dá para entender a falta de cuidado.
∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫
Andei bastante no metrô de SP e do Rio. Em geral, me parecem limpos, rápidos e seguros. É verdade que outro dia um passageiro foi assaltado e levou um tiro na saída da estação Trianon-Masp, em SP. Mas ele já estava fora do metrô. Talvez seja esta violência extramuros que torna o metrô brasileiro seguro. Explico-me: como os roubos são quase sempre à mão armada e podem gerar tiroteio (com a polícia, com os seguranças e com eventuais passageiros armados), o risco assumido por qualquer ladrão dentro do metrô é muito elevado. O vulgar batedor de carteira, o pickpocket – encontradiço nos metrôs de Paris, Londres e Nova York - cuja maneira de agir baseia-se na na discrição absoluta, segue um método absolutamente incompatível com a estrepitosa violência urbana brasileira (veja-se a crítica de Roberto Ribeiro ao célebre filme Pickpocket (1959), de Robert Bresson). Daí o fato de haver poucos roubos destes – comparando por exemplo com Paris – no metrô de SP e do Rio.
∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫
A TV mostra publicidades do balacobaco. Há um anúncio de um grande banco estrangeiro espalhado pelo Brasil, alegando que um sujeito com cara de palerma, atendendo pelo nome de Beto, “se apaixonou pelo mercado financeiro” depois de utilizar os serviços do dito banco. Até quando vai passar esta pornografia no horário livre?
∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫
Fiquei perplexo com a tarifas extorsivas e despropositadas cobradas no Brasil e, sobretudo, pelas taxas escandalosas do ‘roaming’ de um município para o outro. Hoje no Herald Tribune há uma matéria mostrando como a União Européia botou pra quebrar e forçou as companhias de celulares daqui a baixarem as tarifas de « roaming »
∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫∫
Canal Brasil é a melhor coisa que existe na TV brasileira. Sobretudo quando você está num apê frio numa praia no inverno. Vi coisas que gostaria de ter visto quando não morava mais no Brasil, outros filmes de que tinha ouvido falar e outros que nem conhecia. Vi, entre outros, Floradas da Serra,(1954) de Luciano Salce, com Jardel Filho e Cacilda Becker: é ruim, mas é bom. A jovem Cacilda Becker, visivelmente vestida e penteada para parecer com Katherine Hepburn, é de uma beleza estonteante. O filme se passa em Campos de Jordão, filmado como se fosse um resort europeu ou americano. Deve ser por isso que não aparece nenhum negro nos 100 minutos da película: nem mesmo como garçom ou engraxate. Os caras queriam, de qualquer jeito, fazer o Brasil parecer um país de brancos. Nos anos 50 esse tipo de tramóia ainda colava.
P.S. - Estou migrando meu blog no Blogger para o UOL. A ferramenta é diferente: deu para trazer os meus posts, mas não os comentários dos leitores. Durante algum tempo ficarei postando nos dois lugares.
Escrito por Luiz Felipe de Alencastro às 03h36
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Rússia e Brasil
Rússia e Brasil

Walton Ford, Nila, 1999-2000, Coleção Privada, New York, Cortesia do artista e da Paul Kasmin Gallery
O presidente russo Putin abriu o jogo, deixando claro o esquema para perpetuar-se no poder. Como não pode ser candidatar-se a um terceiro mandato, está planejando trocar de lugar com o primeiro-ministro que acabou de nomear: Viktor Zubkov vira presidente nas presidenciais de março de 2008 e Putin será escolhido como seu primeiro-ministro. Desde que tomou posse, Putin usou o regime semipresidencialista russo – similar ao regime francês, no qual o presidente é eleito pelo voto direto e o governo é exercido por um primeiro-ministro representando a maioria parlamentar - para assentar sua autocracia. Os parlamentaristas brasileiros sempre proclamaram que o regime semipresidencialista purgaria todas as mazelas da política brasileira e seria o modêlo institucional ideal para o país. Como Ieltsin nos anos 90, Putin vem demonstrando que o regime semipresidencialista também pode se tornar um avacalhanço. Não dá mais para continuar dizendo por aí que o semipresidencialismo conserta de vez a política brasileira. Escrevi, há quase dez anos, um artigo na mesma linha na Folha de São Paulo intitulado "O Brasil e a crise política na Rússia".
P.S. - Estou migrando meu blog no Blogger para o UOL. A ferramenta é diferente: deu para trazer os meus posts, mas não os comentários dos leitores. Durante algum tempo ficarei postando nos dois lugares.
Escrito por Luiz Felipe de Alencastro às 00h21
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Coisas vistas
Truísmo
Chego em casa em Paris, depois de dois meses no Brasil. Fiz 18 viagens de avião pelo Br, entre as quais uma de Manaus a Porto Alegre, com escala em Guarulhos, na noite do crash do avião da TAM. Dei nove palestras no RS, SE, SP, RJ e MG. Para mim, foi muito bom e muito interessante. A palestra do ciclo ?Mutações? organizado por Adauto Novaes e o Ministério da Cultura está aqui. No meio tempo, o casal de colegas com quem eu tinha deixado meu apê em Paris esqueceu uma torneira meio aberta. Teve vazamento na vizinha de baixo, rolo com a proprietário e confusão com o seguro. Encanei de encanador e resolvi outro problema num cano de entrada da água. Depois fui fazer compras e vi que o Monop aqui do lado e as mercearias vizinhas não vendem mais um produto que, esborrifado, deixava as camisas quase passadas. Nos EUA tem vários troços deste gênero pra vender. Aqui havia dois. Um desapareceu e agora o outro está sumindo. Complô do capitalismo contra os homens autonomos que não sabem passar roupa a ferro? Aliança espúria entre as lavanderias de quarteirão e os grandes fabricantes? Cortei o cabelo no barbeiro árabe do marché d?Aligre. Ele tem uma filosofia: o cara que senta na cadeira dele é como quem entra num avião: não pode dar mais palpite e se entrega na mão do piloto. Leio daqui a entrevista que dei na sexta, antes de viajar, para Gabriel Manzano Filho, do Estadão. Malgrado a competência de Gabriel, minhas respostas, lidas a 12 mil km de distância, parecem agora pouco incisivas. Dizer que a classe média é heterogênea é quase um truísmo. Eu devia ter insistido mais sobre a mudança sociológica que está ocorrendo nos diversos componentes destas camadas sociais e sobre a desordem do sistema federativo e eleitoral. A respeito da nova composição da classe média brasileira, a imprensa (e até o Economist) e o IBGE já assinalaram o essencial. Falta agora um bom sociólogo trabalhar este assuntão: dará um belo livro. Trouxe muitas anotações do Br. Com mais calma e o escritório só meu que vou ter agora, escreverei algumas nos próximos posts.
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 14h22
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
O atraso do censo do IBGE
 Residência à beira do rio Negro esperando o recenseador do IBGE
Há tantas coisas pra aprender sobre o Brasil que até o modo de aprender faz a gente aprender coisas. Veja-se, por exemplo, duas notícias da Folha a respeito do censo populacional organizado pelo IBGE. A primeira informa que o uso de computadores de mão com GPS - grande novidade do atual censo ? está dando problemas no Norte e no Nordeste. A nova tecnologia trouxe recenseadores mais qualificados que têm menos facilidades para se relacionar com a população do interior. Segundo Maria Wilma Garcia, coordenadora do censo, os novos recenseadores vem do meio urbano e desconhecem as pessoas com quem estão lidando. "Perdemos os caboclos da região porque eles não sabiam mexer nos computadores. Antes, eles pegavam a pastinha, caíam no mundo e voltavam depois de um mês com tudo pronto. Andavam a pé, a cavalo, de bicicleta, pegavam carona, dormiam nas casas das pessoas e eram conhecidos de todos." É uma frase bonita com um sentido triste. O recenseador ?caboclo? entretinha com os habitantes a proximidade cultural que legitimava a demanda do IBGE, do poder público. Mal treinado, mal instruído pelo Estado ele perde o emprego, é excluído e o recenseamento empaca. A segunda notícia, vem da reporter Malu Toledo, e descreve outra situação em que os agentes do IBGE não conseguem preencher os dados e atrasam o censo: os moradores de condomínios de alto padrão em São Paulo (como Alphaville), em Teresina e em Maceió, não deixam os recenseadores entrar ou recusam-se a falar com eles (assinante UOL clique aqui) É do balacobaco! O tal do Abadia, megatraficante colombiano, comprou palacetes nestes condomínios com dinheiro vivo ? prática perfeitamente ilegal segundo a procuradoria federal - e tudo estava nos conformes. Nenhum grupo de proprietários ou administrador de condomínio botou defeito. Mas o funcionário público, no exercício de uma atividade elementar para o bom funcionamento da cidadania e do Estado, é barrado na porteira do condomínio. Durma-se com um capitalismo destes! A antropóloga Teresa Caldeira, que foi minha colega nos bons tempos do Cebrap, tem um importante livro sobre o assunto e escreve com propriedade: ?Não é a cidade, por maior e mais diversa que seja, que se deve temer, mas sim a ausência de uma ordem pública e do respeito aos direitos dos cidadãos. Minar essa ordem para construir enclaves privados não pode dar mais do que a ilusão de proteção. A proteção ou é coletiva ou não será?.
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 19h19
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
O reacionarismo paulista e o caminho das pedras

Desde os anos 1970, quando se tornou o centro político do país nação (em 1965, a eleição direta de Negrão de Lima ? juscelinista declarado ? para o governo da Guanabara, abalou a ditadura e mostrou que o Rio ainda era a capital política nacional), São Paulo elege o que há de pior e de melhor no Brasil. Jânio, Maluf, Enéas, Clodovil representam a primeira categoria. Ulysses, FHC, Suplicy, e Lula, cuja iniciação política deu-se em São Paulo, aparecem, conforme o gosto do freguês, como o que há de melhor. Num artigo na Folha em 23/10/2005 (assinantes UOL clicar aqui), procurei mostrar que este paradoxo constitui um dos componentes da ?desordem paulista? que tumultua o quadro político nacional. Dentre as coisas ruins da Paulicéia, existe, ainda e sempre, um tipo de reacionarismo proto-separatista sem paralelos no Brasil. Assim, um artigo do deputado estadual paulista João Mellão Neto (?Os perigos da incomPeTência?), do DEM, publicado no Estadão em 3/08/2007, critica (com razão) a ausência de Lula junto às famílias das vítimas do Airbus em São Paulo, mas conclui com a seguinte reflexão: ?Nada contra o fato de o presidente se refugiar nos Estados nordestinos. Afinal, é neles que se encontra a grande maioria de seus eleitores, todos eles devidamente subornados pelo Bolsa-Família. Mas, a bem da Nação, a sua passagem deveria ser só de ida. Chegou a hora de dizer: Basta!? Subornados? BNH, correção monetária, juros altos para os bancos, juros negativos e perdão de dívidas para os usineiros, Proer, tudo que engordou a conta da classe média e de muita gente rica durante décadas desaparece diante do ?suborno? do Bolsa-Família. Ora, como escreveu outro dia Fernando Canzian no Folhaonline, ?O difamado Bolsa Família é apenas uma fração dos juros pagos a quem tem dinheiro no banco, são 0,4% do PIB contra quase 7%?. O raciocínio cerebrino do deputado pressupõe que a legitimidade presidencial só existe nas regiões onde Lula obteve maioria eleitoral. Lula venceu na maioria dos Estados do Norte e do Nordeste, mas ganhou também em Brasília, Goiás, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nestes 5 Estados ele obteve uma vantagem de 7.291.000 votos sobre Alckmin no segundo turno. Ou seja, mesmo que todos os brasileiros do Norte e do Nordeste tivessem ficado em casa, ou pertencessem a um outro país, Lula ainda dava de lavada no candidato tucano no segundo turno. Para ser coerente, o deputado do DEM deveria também incluir todos os brasilienses, goianos, capixabas, mineiros e cariocas no seu ?chega pra lá? excludente e preconceituoso. De quebra, poderia agregar ainda, neste mesmo grupo de ?subornados? cujo voto vale menos que o dele e de seus amigos, e que não pertence à "Nação" deles, todos os eleitores da Baixada Santista e da Grande São Paulo, que também deram a maioria de seus votos a Lula. Falta quanto tempo ainda para a direita brasileira aprender o caminho das pedras da prática democrática?
P.S. -« O documento impressiona não apenas por revelar a amplitude a que chegou o programa [do Bolsa-Família] em um punhado de anos e sua focalização em geral adequada ? uma proeza nada desprezível considerando a extensão do território coberto, o formidável contigente alcançado e o histórico brasileiro de monumentais desvios de verba no assistencialismo tradicional?, [mas impressiona ainda porque] ?80% dos quase R$ 8,8 bilhões desembolsados pelo governo aliviam efetivamente a situação dos 40% mais pobres entre os brasileiros. E, desde o advento do programa, a concentração de renda diminuiu 4% no país?. Os trechos acima foram extraídos do editorial equilibrado e pertinente do Estadão de 23/08/2007 que comenta estudos do Ministério do Desenvolvimento Social e do Ipea sobre o Bolsa-Família (?O Brasil do Bolsa-Família?)
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 15h26
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Fidel, o Itamaraty e os boxeadores cubanos
 Guillermo Rigondeaux, arquivo Folha de São Paulo
O Itamaraty e o governo brasileiro decidiram deportar os dois boxeadores cubanos. Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara desertaram do Pan no Rio. Segundo um delegado da PF, eles queriam voltar para casa e recusaram o estatuto de refugiados políticos. Num texto publicado em Havana, Fidel anunciou que não punirá Rigondeaux e Lara. Nos países democráticos há um princípio jurídico básico na matéria. Nenhum suspeito, e nem mesmo um criminoso julgado à revelia no seu país de origem, pode ser extraditado para este país, se a pena ali aplicada for maior que a pena prevista no país ao qual foi solicitada a extradição. Na União Européia, onde não há pena de morte, o problema já ocorreu várias vezes com estados dos EUA que admitem a pena capital. No caso, a UE só admite a extradição de foragidos dos EUA quando os promotores americanos comprometem-se a não requerer a pena máxima. É certo -, como bem observam João Batista e o Moço da Bodega em comentário à primeira versão mal redigida deste post -, que os cubanos foram deportados porque estavam no Brasil sem documentos, e não extraditados, prática reservada a criminosos. Ainda assim, considerando que o regime cubano costuma cair de pau nos que tentam emigrar ilegalmente e nas suas famílias, a deportação representava um risco para Rigondeaux e Lara. Pra que essa pressa toda para mandar os caras embora? Vivi no exterior no meio de gente sem documentos na época da ditadura brasileira. Quando estão neste sufoco as pessoas se desesperam, perdem o pé. O estatuto de refugiado tem vários constrangimentos. Antes de entrar numa dessas, é preciso refletir, sem pressões de prazos e da polícia local. No caso de Rigondeaux e Lara, por analogia, deveria ser observado o princípio jurídico explicitado acima a respeito da extradição. De fato, nos aeroportos de nosso país desembarcam regularmente brasileiros deportados dos EUA e da UE por delito de ausência de visto ou de passaporte. Aqui chegados, eles pegam a mala e vão para casa: nenhuma lei brasileira pune a emigração ilegal se não houver falsificação de documentos. Em Cuba não é assim. O Ministério Público Federal havia pedido a abertura de inquérito e queria ouvir os dois atletas antes de autorizar a deportação. O mínimo que se espera agora é que as autoridades brasileiras tenham obtido o engajamento formal do governo cubano de que não haverá perseguição aos atletas e à suas famílias. E que a embaixada brasileira em Havana siga o assunto de perto. (Post modificado em 6/08).
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 15h08
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Desordem no ar
A série de desastres, de apagões nos aeroportos, de descontroles dos controladores de vôo, de afrontas das companhias de aviação e de declarações estapafúrdias dos membros do governo revela algo mais que o caos aéreo. Falastrão incorrigível, o ministro Mantega afirma que a confusão nos aeroportos é sinal de progresso. Sobre o mesmo assunto, a ministra Marta Suplicy fez uma piada grotesca pela qual se desculpou. Porém, depois do crash de Congonhas, quando foi interrogada, disse que nada tinha a declarar. Caramba! Nada a declarar depois de um drama destas dimensões?! O ministro Waldyr Pires, homem decente que já deveria ter se retirado do ministério se seguisse seu antigo bom senso político, vem à TV eximir-se das responsabilidades inerentes à sua pasta. Marco Aurélio Garcia fez um gesto obsceno na privacidade de seu escritório. A carta de um leitor da Folha de S. Paulo, publicada hoje, pretende que se tratou de um ?desabafo? contra acusações indevidas ao governo. Tudo bem. Mas as justificações dadas em seguida por Marco Aurélio denotam, no mínimo, falta de juízo político. No mesmo pique, ninguém no governo se tocou sobre o fato de que não era oportuno condecorar agora dois altos dirigentes da ANAC. Enfim, Lula esperou sarar do terçolho para dar satisfações à nação e apresentar suas condolências às famílias que choravam seus mortos há mais de três dias. Separadamente, cada um destes fatos pode ser atribuído à falhas de assessoria. Postos lado a lado, eles revelam a realidade mais patética e mais grave de um governo que parece descolado das preocupações do país e dos sentimentos da população. Como pequena contribuição ao inventário da baderna no ar, incluo a foto acima, retratando um incidente ocorrido num táxi aéreo em que viajei na semana passada na Amazônia. O bimotor ia levantando vôo com a tampa de um dos 2 tanques de querosene aberta (cf. o pequeno ponto preto sobre a asa). Voltou da ponta da pista para fechar o tanque depois do alerta de um de meus companheiros de viagem. Noutro registro, cabe assinalar que o desgoverno aéreo junta-se às pauleiras envolvendo atletas brasileiros no Pan e à grossura de uma parte do público carioca para comprometer as chances de o Brasil organizar as próximas Olimpíadas e a Copa do Mundo.
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 10h53
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Paredes de Manaus
Num restaurante à beira do rio Solimões, pouco abaixo de Manaus, os toaletes estão indicados assim, no estilo pós-indígena, neo-caboclo. Confirma-se aqui na Amazônia algo que eu já tinha notado noutras partes do país: o barulho é a maior praga do Brasil! Morei num prédio de condomínio em São Paulo onde havia uma martelagem contínua para consertar vazamentos de banheiros, canos da área de serviço, assoalhos com cupim, fiação defeituosa, como se o prédio tivesse de ser refeito todos os trimestres. Uma equipe permanente de encanadores, eletricistas, carpinteiros, tirava o seu ganha-pão das carcaças perfuradas dos três prédios do condomínio. É sabido que os paulistanos buzinam nos túneis, os cariocas estralam os ouvidos de quem anda por Copacabana, os baianos infernizam as praias de Salvador com uma cacafonia depois cobrada por alto preço pelo dono do boteco, o Ver-o-Peso em Belém mistura todas as rádios e todos dos canais de TV na contigüidade escancarada de seus 150 bares e restaurantes. Mas o barulho mais sinistro de todos, nem assim tão estridente, ouvi hoje, num barco no Solimões: o retinir incessante das motosserras nas margens do rio.
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 19h56
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Cosméticos de fundo de loja
Os economistas brasileiros já sabem: quando há aumento da renda, o consumo popular de produtos de higiene e cosméticos sobe na hora. Aliás, nunca li nenhum estudo sobre a forte atração dos brasileiros por estes produtos. Suspeito que tenha a ver com o culto do corpo e o eventual desconforto de cada um com o seu jeito, com o seu próprio fenótipo. A coisa vem desde o século XIX, como mostrei um pouco no volume 2 da História da Vida Privada no Brasil. De todo modo, quando há um pouco mais de dinheiro na praça, as multinacionais entram pesado, inundando as prateleiras das lojas com ?gosméticos? (como dizia uma garotinha minha conhecida) de nome pseudo-sofisticado. Na outra ponta, desaparecem os produtos tradicionais. Sempre que vinha ao Brasil, comprava sabão Aristolino, um must da moçada das praias nos anos 60 e 70. Agora, já desistí. Sumiram com o Aristolino, que era sabão e shampú, e com muitos outros ?gosméticos?. Em Belém, onde estou agora, a invasão de marcas estrangeiras é meio caricatural. Na frente das lojas e das farmácias, vêm estas marcas todas. No fundo, aparecem as marcas regionais, cheias de fragrâncias amazônicas. Cheiro do Pará (comprei este, é bem bom), Flor de Açaí, Pau Rosa, Pau d?Angola, Manteiga de Karité (produto de origem africana), Priprioca, e por aí vai. O "gosmético" pasteurizado, ácido e banal fica na frente. O suave, o sensual, o quente, fica no fundo da loja e é bem mais barato.
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 07h09
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Civilização x Selvageria
No Globo de hoje, Miguel Conde dá notícias da Flip e menciona minha crítica ao comentário do governador Sérgio Cabral sobre a ação da polícia no Complexo do Alemão. A coisa é assim: minha participação em Paraty foi para comentar ontem, domingo, a novela ?No coração das trevas? (1902), em homenagem aos 150 do nascimento de Joseph Conrad. Tentei mostrar que Conrad, escrevendo a respeito da pilhagem do Congo pelo rei Leopoldo II da Bélgica, ilustrava o esgotamento da idéia de ?civilização? que até então servira de justificação ideológica à expansão colonial européia. No final, citei a entrevista de Sérgio Cabral, em O Globo, do dia 1 de julho, sobre a guerra no Complexo do Alemão :?ninguém agüenta mais isso, temos uma bifurcação que eu enxergo clara: ou é o caminho civilizatório ou é o da selvageria?. Penso que se trata de um vocabulário de outros tempos, cunhado no contexto colonial para sujeitar nativos ameríndios, africanos ou asiáticos. Numa democracia, numa república, onde os cidadãos elegem seus representantes, nenhum governador, nenhum dirigente político pode se arvorar em condutor de qualquer ?caminho civilizatório?. P.S. ? O laudo da OAB, divulgado dia 12/07, confirma a sinistra realidade: algumas das 19 pessoas mortas pela polícia no Complexo do Alemão foram executadas a sangue-frio.
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 13h13
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Um dos grandes escritores de hoje nos dias de hoje

Blogueiro itinerante fica meio paradão. Ainda mais com a pasmaceira do internet aqui em Paraty, onde estou agora. Ontem de manhã, esperando no Galeão as malas do vôo que me trouxe de Paris, reconheci J.M. Coetzee, vindo no mesmo avião na ponta da mesma esteira. Como a coisa estava demorando, puxei papo com ele. Tietagem às 5 da manhã, acompanhada de uma oferta de ajuda no solo brasileiro, não é assim tão grave e ele conversou à vontade. Vinha da região de Toulouse, no Sul da França. Quando eu disse que era professor em Paris, ficou muito interessado em saber as reações dos estudantes e dos professores sobre as propostas de reforma universitária de Sarkozy. Pareceu-me bastante informado sobre este e outros assuntos da França, Argentina, Austrália (onde mora). Contei pra ele que há uns dias, no final de uma correção de provas de fim de ano universitário, disse para os 3 monitores que trabalham comigo que estava vindo para a Flip, Paraty, que Nadine Gordimer e ele estariam aqui, etc. Aí, um dos monitores, um carinha jovem, sacou do bolso um livro dele, Coetzee. Ele deu um sorriso feliz, contentão, ali no meio do giro das malas. Hoje, às 5 da matina, em Paraty, sem sono por causa do jet-lag, vim vaguear no salão da pousada e dei de cara com ele de novo: estamos hospedados no mesmo lugar e ele também estava atrás do internet. Conversamos um pouco. Mas daqui em diante recolho-me à minha insignificância e dou apenas um olá de longe: o homem me parece já estar meio farto de assédio e entrevistas: é duro ser prêmio Nobel e um dos grandes escritores de hoje nos dias de hoje.
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 17h52
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
O Socialismo vem de bicicleta?
Dois artigos interessantes, um no Le Monde, outro no New York Times, apontam novas configurações da esquerda na França e nos EUA. Nas presidenciais francesas, a maioria dos jovens votou em Ségolène Royal. Se, por hipótese, os eleitores maiores de 65 anos não votassem, ela teria sido eleita. Além do mais, houve confirmação do fenômeno constatado em Paris nos últimos anos: as grandes cidades passaram a votar nos candidatos de esquerda. Bordeaux, Lyon, Caen, Toulouse e Strasbourg, correspondem a este perfil. Há uma expressão ? bourgeois bohème (?bôbô?) ? cunhada pelo jornalista americano David Brooks, caracterizando o modo de vida e a categoria de eleitores de esquerda formada por profissionais bem remunerados, intelectualizados, adeptos de culturas alternativas e morando nos velhos quarteirões reabilitados das grandes cidades. Gente mais aberta à cultura dos imigrantes, à mistura social e à vizinhança de artesãos, mercearias e botequins. Paris inaugurou a tendência do sufrágio "bôbô" com a eleição à prefeitura do socialista Bertrand Delanoë, gay assumido, em 2001. A última iniciativa meio ?bôbô? de Delanoë será inaugurada dia 15. Mais de 10.000 bicicletas distribuídas em 750 estacionamentos espalhados pela cidade poderão ser utilizadas quase de graça pelos parisienses. Nos EUA, uma sondagem recente mostra uma repolitização e uma virada à esquerda dos jovens entre 18 e 29 anos. Reagan (1984) e Bush (1988) foram eleitos com a maioria do voto dos jovens que, atualmente, puxam o carro para ir votar nos democratas. Hillary Clinton e, sobretudo, Barack Obama são os candidatos preferidos pelos jovens eleitores. Lenine dizia que o socialismo compunha-se dos soviets e da eletricidade. O socialismo urbano do século XXI será a soma do notebook e das bicicletas? Não é assim tão simples. A sondagem do NYT, bastante completa, mostra opções políticas e sociais precisas que levam os eleitores jovens americanos mais para a esquerda. Na França, as coisas estão mais fluidas e tornam complexo o debate ideológico e partidário que se impõe a um Partido Socialista bestificado por uma série de derrotas eleitorais.
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 03h07
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Sem saber porquê

Muita coisa para comentar, dentro e fora do Brasil. Mas é difícil deixar de falar de novo da guerra no Complexo do Alemão, depois da foto de Tasso Marcelo, da Agência Estado, publicada na quarta-feira no portal UOL. Mesmo mal editada, ela trouxe à memória a célebre fotografia de Sam Nzima, no dia 16 de junho de 1976, durante o massacre provocado pelo regime de apartheid sul-africano no gueto de Soweto, subúrbio de Johannesburg. Claro que não há apartheid no Brasil, claro que o governo Lula e o governo de Sérgio Cabral, não tem nada em comum com o filo-nazista Vorster, primeiro-ministro sul-africano em 1976. Mas as duas fotos transmitem o mesmo desespero de gente que tem muito em comum. Gente do Atlântico Negro, que vive em favelas, que tem seus direitos desrespeitados, que leva tiro da polícia sem saber porquê. O menino da foto de Sam Nzima tinha 12 anos e se chamava Hector Pieterson. Hoje em Soweto há um memorial com o seu nome, homenageando as duas centenas de pessoas mortas em junho de 1976. Como se chamava a criança da foto do Alemão? Que idade tinha? Será o menino de 13 anos, um dos três adolescentes incluídos nos 19 mortos da quarta-feira, coletivamente catalogados pela polícia e por uma parte da imprensa como ?bandidos??
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 01h22
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Os confins do capitalismo
 Trabalhadores cativados numa olaria chinesa, foto Agence France-Presse ? Getty Images no New York Times de 16/06 Há dias que eu queria chamar a atenção para três notícias recentes sobre os desdobramentos da globalização. Em primeiro lugar, o avanço da financiarização do capital através da atividade crescente dos fundos de investimento não cotados na Bolsa, ditos de private equity. Segundo Eric Le Boucher, um dos colunistas econômicos do Le Monde, no ano passado as Bolsas européias registraram a entrada de 716 empresas com um capital total de 85 bilhões de euros. No mesmo ano, os fundos de investimento de private equity investiram 71 bilhões de ? em 7.500 empresas européias. Debates de especialistas na TV chamaram a atenção para o caráter especulativo destes investimentos, a opacidade que cobre suas atividades e o risco representado por mais esta etapa da desregulamentação capitalista. Apesar disso, Martin Wolf, um dos melhores comentadores econômicos da atualidade, faz um ponderado elogio desta nova fase de predominância do capital financeiro (a primeira foi na virada do século XIX). Em segundo lugar, vem a pedreira do capitalismo chinês, cada vez mais caracterizado como um sistema truculento de exploração de mão-de-obra semi-servil. Assim, como escreveu um cronista do New York Times, a China aparece como a última grande ditadura capitalista do mundo. Robert Fogel, o prêmio Nobel de Economia que é, também e sobretudo, um brilhante historiador econômico, escreveu um paper Capitalism and Democracy in 2040 (o texto completo aqui é pago, mas aqui está resumido), muito otimista sobre a China. Segundo ele, em 2040, o PIB da China será de 123 bi $, ou seja, 40% do PIB mundial, e perto de 3 vezes do PIB mundial de 2000. Àquela altura, o mercado chinês será maior que os mercados combinados dos EUA, da UEuropéia, da Índia e do Japão. Se for verdade resta acrescentar: Karálio! Olha o monstro capitalista que vem por aí! Fogel pensa que não vai haver quebradeira de bancos chineses, nem problemas políticos no país. Tudo isso por causa dos ganhos de produtividade acumulados com a passagem da população rural para as cidades e, principalmente, com os resultados dos investimentos maciços na educação (a grande vantagem da China sobre a India). Ele acha que tudo vai dar certo no meio tempo, porque a China tem boa experiência na cooptação das elites (Os jesuítas e dominicanos portugueses ? como frei Gaspar da Cruz - idos à China nos séculos XVI e XVII, também se embasbacaram com a administração do mandarinato chinês, inaugurando assim a sinofilia ocidental, que ganhou a esquerda nos anos 1950-1970 e agora tem tantos adeptos na direita). No entanto, faço minhas as restrições levantadas ao paper de Fogel pelo professor Tyler Cowen, economista reputado e editor de um blog bastante original: ?Repete aqui comigo: a China no século XX teve duas grandes Revoluções, fases de fome generalizada, a Revolução Cultural e, alegadamente, o ditador mais tirânico de todos... E agora eles vão passar dos farrapos à riqueza sem ao menos um arroto nesta evolução econômica? Eu não penso que isso possa ser dito assim!? Neste ínterim, na maioria dos países desenvolvidos, a globalização tem acentuado as desigualdades de renda, não somente em detrimento dos trabalhadores menos qualificados, mas também em prejuízo da classe média, como sugere um estudo recente da OCDE. Sim senhor! A classe média também se ferra: é só ver o comentário do Economist. Em terceiro lugar, queria falar de uma noticiazinha que tem tudo a ver conosco. Cada vez mais está em uso a etiqueta RFID (Radio Frequency Identification). Enfiada em qualquer canto de uma mercadoria, ela ajuda as grandes marcas a combater a pirataria de suas grifes. Algumas boates na moda já tem um enfermeira na entrada que insere, sob a pele dos clientes que desejarem, a RFID. Aí, o cara paga suas bebidas, entra nas zonas reservadas, etc., sem ter que tirar a carteira toda hora. No México, já se achou outra utilidade para a RFID: enfiá-la na pele de crianças e adultos que podem ser vítimas de seqüestro. Com este xavecozinho fica mais fácil saber onde estão sendo seqüestrados. Se alguém ler isto aqui e abrir uma firma do ramo no Brasil, eu quero uma comissão, hein!
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 03h48
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
52 motivos para falar mal do Brasil
A foto de Michel Filho saiu no GloboOnline de hoje, seguida da descrição da cena. Mães e crianças fogem na saída de uma escola do Morro da Fazendinha (RJ), em meio a um tiroteio entre a polícia e os traficantes. Crianças e mães, em maioria negras, arriscando a vida no seu dia a dia. A notícia diz ainda que na zona vizinha do Complexo do Alemão a batalha já dura 49 dias. Quarenta e nove dias. Mortos, famílias aterrorizadas, meninada fatalista. Entrementes, a harpista russa Anna Verkholant, vinda ao Rio para participar no II Festival de Harpas, foi assaltada na frente do Hotel Glória, onde estava hospedada. Houve comoção por atacado e a granel no establishment carioca. Alfredo Lopes, presidente da Associação da Indústria Hoteleira foi direto ao ponto que lhe interessa: "Isso foi péssimo. O turista é facilmente identificável e vira uma presa fácil. A polícia não consegue garantir a segurança perto dos hotéis ou de áreas turísticas porque simplesmente não tem efetivo". No que lhe concerne, o diretor do Festival, Sérgio da Costa e Silva, afirmou que a organização do evento orientara os músicos a só deixarem o hotel acompanhados pela produção e acrescentou: "Foi uma fatalidade... Temos que reverter o impacto negativo que esse fato pode ter em outros músicos que desejarem tocar no Brasil". Na mesma altura, criticando os brasileiros que falavam mal do Brasil, Lula declarou: "Nós é que temos que cuidar da nossa imagem, nós é que temos que cuidar daquilo que nós queremos preservar e nós precisamos cuidar da imagem que nós queremos ter aqui e lá fora." No Morro da Fazendinha e no Complexo do Alemão, a polícia, o Estado, a cidadania, ?simplesmente não tem efetivo?. Os brasileiros que ali ?desejarem tocar? suas vidas, sofrem uma contínua ?fatalidade?. Uma foto destas interpela a identidade nacional. E dá vontade de falar incansávelmente mal do Brasil. Dentro e fora do país. Amanhã, a batalha do Complexo do Alemão entra no seu qüinquagésimo dia. Depois de amanhã, estará no qüinquagésimo primeiro. Na manhã seguinte completará o qüinquagésimo segundo dia...
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 17h11
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
O "caso Lamarca" e o editorial da Folha
Lido aqui de manhã cedo, quando no Brasil ainda é alta madrugada, o editorial de hoje da Folha, ?O caso Lamarca?, me deixa perplexo. Os argumentos avançados no texto, contrários à decisão de promover Lamarca a coronel e indenizar sua família, parecem coerentes. Mas em nenhum momento fazem referência à fundamentação jurídica seguida pela Comissão de Anistia. Noutra página do jornal, vem resumido o histórico da decisão. ?O primeiro reconhecimento da responsabilidade do Estado pela morte de Carlos Lamarca foi em 1996, quando a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça determinou o pagamento de indenização à família.A decisão foi inovadora, já que a lei vigente limitava o pagamento às famílias dos mortos em dependência policial. Morto em campo aberto, entendeu-se que Lamarca já estava sob o cerco de agentes do Estado, sem condição de reagir. Em 2004, a lei foi alterada e as possibilidades de indenização, ampliadas. Anteontem, a Comissão de Anistia determinou o pagamento de pensão de R$ 12.152,61 à viúva. Os crimes ou a deserção do Exército não entraram em discussão porque, em 1979, o país aprovou a Lei da Anistia, que perdoou os crimes cometidos durante o regime militar.? O julgamento dá lugar a controvérsias. Porém, o editorial da Folha enviesa o debate e termina com uma conclusão bizarra: ?Por tratar-se de um prêmio à deserção, ademais, a equiparação de seus vencimentos ao de um general afronta os princípios de disciplina e subordinação, pilares das Forças Armadas?. Faltou serenidade e sobrou ambigüidade. O editorial desconsidera o fato de que o caso estava praticamente julgado desde 1996, e que o crime de deserção fora apagado, anistiado, pela Lei de 1979. Não há, em espécie, nenhum ?prêmio à deserção? ou qualquer ?afronta? à disciplina militar. Mesmo porque os "pilares" das Forças Armadas, da CBF, do ensino escolar e do cotidiano brasileiro são o respeito ao Estado de Direito e à Constituição dele procedente. Quem não estiver de acordo deve recorrer aos tribunais.
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 06h49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Coisas do Balacobaco
O Profeta Jonas despejado pela baleia, Anônimo, ícone do século XX, Holy Transfiguration Monastery Brookline, MA, EUA Esta é uma nova seção deste blog. Sob inspiração do profeta Jonas, que viajou três dias e três noites dentro da barriga de uma baleia (um passeio do balacobaco!), e em homenagem ao crítico de arte Rodrigo Naves. Aqui vou comentar coisas sem sentido pra uns, com sentido pra outros, mesmo que não façam sentido em geral. A primeira delas, origem da idéia de abrir a seção, descobri agora, preparando o material sobre o livro Heart of Darkness (No Coração das Trevas), de Joseph Conrad, que irei comentar no dia 8 de julho na Festa Literária Internacional - Flip, em Paraty. Em 1889, Conrad, funcionário da companhia belga Société Anonyme pour le Commerce du Haut-Congo se dirige para o Congo, onde ele observará fatos e pessoas que aparecem na trama de Heart of Darkness, publicado dez anos mais tarde (1899-1902). O navio francês no qual ele embarca em Bordeaux, no litoral atlântico da França, para chegar até Matadi (porto fluvial na margem esquerda do rio Congo, hoje situado no Congo Kinshasa, na fronteira com Angola, minha terra), chamava-se Ville de Maceió. Conrad foi para o Congo, de onde tirou Heart of Darkness, embarcado no vapor Maceió! Taí algo do balacobaco. P.S. Do balacobaco é também a proposta do ministro da Educação da Polônia, Roman Giertych, solene energúmeno, extremista católico, que quer retirar as obras de Conrad, Witold Gombrowicz, Goethe e Kafka do ensino escolar polonês. Tudo isso para aumentar a carolice inculcada nos jovens com escritores como João Paulo II ?e outros autores desconhecidos que darão só uma resposta, a resposta correta deles, para todos os dilemas...?. Palavras do energúmeno, segundo o The Times. Quem estiver trancado no trânsito, num aeroporto ou num barco subindo o rio Madeira com fazendeiros armados para atirar nos natives sem-terra, e tiver Wi-Fi, pode ouvir Heart of Darkness lido pelo ator inglês Toby Stephens, com o autêntico sotaque british que Conrad nunca conseguiu capturar. Se quiser também pode ler o livro inteiro.
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 12h33
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Paredes de Paris

Vi a dica em Manhattan, de Woody Allen, e passei ao ato em N.Y., e sobretudo em Paris desde a época do filme, 1979 : é legal olhar para a parte de cima dos prédios, para os 3°, 4°, 5° andares que a gente nunca observa quando anda na rua. Este prédio na praça da Bastilha, bem na frente do ponto do ônibus que tomo todo dia para ir à Universidade, tem uma marca única: um furo de bala feito nos combates do 14 de julho de 1789 (do lado direito da foto). Pouca gente saca este buraquinho revolucionário. Provávelmente, um tiro de um soldado monarquista contra um insurreto tocaiado no prédio (na pedra está gravado: "souvenir 14 juillet 1789", a grafia dos números leva jeito de ser do começo do século XIX). Acho que Revolução pra valer na época moderna, só teve três: a Revolução Americana (1776), a Francesa (aqui da foto, em 1789) e a do Haití (1791). Todas as outras, inclusive as das independências latino-americanas ? conduzidas por Bolívar, San Martin, Tiradentes ou D. Pedro I (conforme o gosto) -, pegaram carona nas duas primeiras. A do Haití também pegou, mas virou o jogo de outro jeito. Volto ao assunto mais adiante, quando começar o oba-oba em torno dos festejos dos 200 anos da chegada da Corte no Rio de Janeiro. P.S. ? Em resposta aos comentários de Macfa e Ricardo, lembro que me referi aqui à periodização utilizada na França e em alguns outros países: a época moderna acaba com estas Revoluções que liquidam o Antigo Regime. O período que vem em seguida, dominado pelas forças em gestação no período anterior: capitalismo, burguesia e Estado-nação, é o período da história contemporânea: as Revoluções de 1848, a do México, a Russa, a Chinesa e a Cubana são revoluções da época contemporânea. é outro papo. Concordo que esta divisão pode ser questionada no Brasil e nas Américas e não tem nada a ver noutras partes do mundo.
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 11h01
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Um bom trabalho mal comentado

Volto à reportagem da BBC sobre o estudo do geneticista Sérgio Danilo Pena, da UFMG, a respeito da ancestralidade africana dos brasileiros. No Cebrap, onde trabalhei 13 anos, a transdisciplinaridade era questão de sobrevivência. Tive a sorte de contar com a ajuda de um geneticista, Marco A. Zago, da USP, na seção " a unificação microbiana do mundo", que trata da pouca resistência imunológica dos índios frente aos africanos e europeus, no cap. 4 meu livro O Trato dos Viventes. Meu post comentava a notícia da BBC, a mais respeitada empresa de mídia do mundo. Assinalei aqui as matérias muito interessantes que a BBC fez ultimamente sobre o tráfico negreiro em geral e a situação do clero negro no Brasil em particular. Não obstante, na notícia sobre a ancestralidade africana aparecem, do jeitinho que citei ?, é só ler o link -, informações desastradas sobre o tráfico negreiro. Tentei em seguida, em vão, acessar o estudo original de Pena. Parece que o texto ainda não foi publicado. Mas, no material da Fapesp, pude ouvir seus comentários (bloco 3 do programa de rádio de 05/05/2007) e, alertado pelo comentário de Milton Ohata, ler mais detalhes sobre sua pesquisa (n° 134, de abril 2007, da Revista Pesquisa Fapesp). Assim, há uma pesquisa paralela, ainda não publicada, com negros do Rio e do RS, conduzida pela equipe da geneticista Maria Cátira. De seu lado, Pena e Flávia Parra também analisaram dados de 173 homens brancos, negros e pardos no interior de MG. Em nenhum lugar Pena aparece dizendo que a cidade de São Paulo (onde os estrangeiros formavam 1/3 da população nos anos 1920 e 1930) é representativa da população brasileira, ou que não há estatísticas sobre o tráfico de africanos entre 1830 e 1850. Fica assim preservada a integridade científica de Sérgio Danilo Pena e a seriedade de sua pesquisa. O leitor João Paulo Rodrigues atribui às jornalistas da BBC os disparates sobre o tráfico negreiro misturados à reportagem sobre o estudo de Pena. Se tiver sido este o caso, Pena deveria ter ido pra cima delas e desautorizado a confusão. Algumas das afirmações ali contidas são propriamente inaceitáveis porque contrariam fatos bem estabelecidos e -, sobretudo -, desestimulam novas pesquisas e os novos pesquisadores (cf. 2° e 4° do post anterior). Se depois de 200 anos de estudos por gerações de especialistas, tudo ainda está ?nebuloso?, faltam carradas de cifras e, ainda por cima, Rui Barbosa botou fogo nos documentos, por que um jovem pesquisador iria querer trabalhar sobre o assunto? Aliás, por que a BBC Brasil não corrigiu logo os erros flagrantes da reportagem difundida ?com um bocado de alarde??
Escrito por userID: 996844918102firstName: às 07h02
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Como virar ministro do STF andando nos saguões dos aeroportos
A matéria abaixo saiu no sítio do Estadão de domingo, dia 3. Trata-se de um trecho da resenha do jornalista Gabriel Manzano Filho sobre o livro Em Calendário do Poder, em que Frei Betto conta sua experiência como conselheiro de Lula no Planalto.
"Procura-se um negro para o STF" "Numa breve anotação, em 6 de março de 2003, Frei Betto informa os critérios com que o governo monta o Supremo Tribunal Federal. ?Marcio Thomaz Bastos indagou se conheço um negro com perfil para ocupar vaga no STF. Lula pretende nomear um afrodescendente para a Suprema Corte do País. Lembrei-me de Joaquim Barbosa. O ministro ficou de convocá-lo para uma entrevista. Joaquim Barbosa foi empossado no STF dia 8 de maio seguinte. Frei Betto o conhecera casualmente em um aeroporto, meses antes." xxx Ora, o ministro Joaquim Barbosa é um jurista respeitável e respeitado. Sabatinado no Senado, como manda a Constituição, seu nome foi aprovado por unanimidade |
|